Jackie

‘Jackie’, podem fixar o nome

Muito se tem discutido se Natalie Portman conseguiu efetivamente recriar os maneirismos da ex-primeira dama dos EUA, Jacqueline Kennedy. A voz, a entoação, o ocasional overacting, tudo isso foi dissecado. A pergunta é: será esse o aspeto principal a ter em conta na exploração desta obra? Tal interrogação parece estapafúrdia, porque, sendo esta uma espécie de biografia encurtada da viúva de John F. Kennedy, o mais importante seria a duplicação da primeira dama e dos eventos reais que o filme aborda, neste caso o que aconteceu nos dias seguintes à morte do Presidente. Porém, graças a um realizador talentoso, o filme transforma-se sorrateiramente em algo bem mais grandioso que uma simples biópsia às lágrimas de Mrs. Kennedy que, muito menos que o esperado, enchem o ecrã. Jackie vai-se agigantando e acaba por se tornar no retrato não só do luto desta lenda, mas da sua visão sobre o legado deixado pelo marido, a sua influência na sociedade e o quão fugaz pode ser a estadia dum Presidente e da sua família na Casa Branca, sítio a que supostamente deveriam chamar de “lar”.

Quanto ao realizador Pablo Larraín, podem fixar o nome. Conhecido por filmes como No (2012), Neruda (2016), ambos estrelados por Gael García Bernal, ou El Club (2015), o cineasta chileno oferece toda sua inteligência criativa a Jackie, transformando aquele que provavelmente seria mais um filme biográfico aborrecido em que o protagonista acaba por ser nomeado para um Óscar numa lição improvisada sobre estética e controlo inteligente da estrutura e do meio envolvente. O uso da perspetiva de um ponto, frequente nas obras de Stanley Kubrick, é muita vezes utilizado como forma de captar a nossa atenção e transmitir um certo formalismo que assenta como uma luva nas cenas passadas em espaços amplos como o interior da Casa Branca ou um jardim por onde Mrs. Kennedy passeia com um padre interpretado por John Hurt. Sem dúvida uma boa despedida ao ator britânico que, sendo este um dos últimos papéis da sua vida, oferece uma aura de sabedoria ao que é dito pela sua personagem.

Jackie

Vagueando  por uma entrevista conduzida por um jornalista interpretado por Billy Crudup (Theodore H. White na vida real), pelas conversas com Bobby Kennedy trazido à vida por Peter Sarsgaard, e os momentos traumáticos do dia do assassinato, o mergulho na intimidade de Jackie Kennedy é garantido. Independentemente da tal discussão, Natalie Portman é bem sucedida na profundidade que oferece à sua encarnação da versão pública de Jacqueline em contraste com os momentos a sós em que esta se transfigura num ser menos “artificial”. Assistir a essa variação torna-se um tanto perverso, como se fossemos uma espécie de voyeur a observar alguém às escondidas.  Esta experiência é enriquecida também por uma melodia de cordas soberba da autoria de Mica Levi, cujo estilo requiem com um tom quase distorcido contribui fortemente para a complexidade emocional que vai crescendo cena após cena. A apontar, apenas um número excessivo de cortes, o que pode adensar um sentimento labiríntico nos espetadores menos contextualizados com os Kennedy e os eventos marcantes da sua estadia na Casa Branca.

Em conclusão, Jackie acaba por se tornar numa visão taciturna e intimista sobre um evento marcante no quotidiano dos EUA, visto pelos olhos de quem ia ao lado e sobre quem se depositou muito atenção. Um ensaio super criativo sobre a História e o que acontece às pessoas que fazem parte desta. Uma tentativa elegante de humanizar uma figura icónica que mostra ao mesmo tempo o quão assertiva ela foi na tarefa de garantir esse estatuto, mesmo numa situação de luto e angústia.

Moonlight

 

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