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‘It’, o medo assiste a todos

O resultado da primeira cena de It é uma criança com um braço decepado. Explícito, repentino, chocante. Sinal de que, tal como a sua classificação etária indica, se está na presença dum filme para adultos. Adultos que já passaram, cada um à sua maneira, pela pré-adolescência e pelos ritos de passagem e ansiedades inerentes a essa fase da vida. Não fugindo a essa regra, nem ao livro homónimo de Stephen King, os jovens retratados no filme vivem à mercê desse desassossego. Porém, não se está perante as criançolas que os filmes, receosos de pôr jovens a praguejar e a serem violentados,  muitas vezes mostram. Os miúdos de It, maioritariamente rapazes, regozijam-se com os próprios impropérios, fazem competições de piadas sobre mães e revelam uma sexualidade prematura e ingénua, aquela que todos nós começámos, mais tarde ou mais cedo, a exibir, ainda inconscientes do verdadeiro significado de alguns desses conceitos. Podem ser qualquer um de nós quando tínhamos 12 anos, asneirentos quando os adultos não estavam a ver, aventureiros, caçadores de ilusões, exploradores do nosso corpo e, inevitavelmente, dos nossos medos. Medos esses que, provavelmente, tiveram influência nas nossas decisões, no nosso crescimento como seres humanos e como criaturas fadadas à nostalgia e à presença discreta, ou não, das marcas do passado. E são essas cicatrizes, neste caso em fase de formação, que o filme realizado por Andy Muschietti, mesmo que publicitado e mascarado como filme de “olh’ó susto”, pretende explorar. Claro que na realidade sombria desta obra tudo é apresentado como um extremo: os adultos figuram-se todos como antagonistas, só existe um rapaz negro na escola e o bullying é descrito como uma situação de vida ou morte. Mas, para uma criança vítima de abuso, não será o abuso uma espécie de morte? Não uma falha literal do sistema biológico, mas um término parcial do espírito, uma marca para o resto da vida? O filme ainda agora havia começado e os conceitos já se acumulavam. A metáfora é uma constante.

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Pois, se It estivesse completamente dependente da capacidade de assustar, seria, possivelmente, uma experiência algo limitada. Optando por mostrar o palhaço Pennywise, interpretado por Bill Skarsgård, a arrancar o braço do pequeno Georgie logo na primeira cena, Muschietti estabeleceu desde cedo que o desconhecido, elemento fundamental da maioria dos filmes de terror, não existe. Aquela é a ameaça, o palhaço matreiro, sedento por se transformar nos medos de cada um e consumir as suas vítimas. Nada contra, exceto a construção atmosférica que se perdeu pelo caminho, não pelo palhaço ter sido mostrado prematuramente, já o material anterior o havia feito, mas porque as suas aparições seguintes, inclusive as várias formas que este consegue assimilar, adotam um modus operandi repetitivo: personagem isolada, cenário sinistro, alteração significativa do volume do som e consequente susto. Em termos técnicos, Pennywise vive dum uso insistente dos mesmos truques de antecipação, acabando por se verificarem sustos progressivamente menos energéticos. Que se faça, no entanto, alguma justiça ao palhaço ao referir-se que a sua capacidade de levantar o espetador do assento é muito prejudicada por um marketing que revelou mais do que devia, praga essa que se está a tornar habitual e em nada favorece a experiência cinematográfica. Ademais, a interpretação de Skarsgård é competente, contida para dar azo ao macabro. Realce para a forma como o ator utiliza os olhos mantendo um olho na ação e outro fixo na câmara, prática que se torna clara nos planos fechados do seu rosto e que pode ser considerada como uma quebra da quarta parede, técnica em que uma personagem comunica diretamente com a audiência. Quanto ao resto do elenco, que não se percam muitas letras com as descrições do costume, é excecional. O exercício de casting foi soberbo, com destaque para a recruta do “veterano” Finn Wolfhard, protagonista da série Stranger Things, o projeto televisivo que, de certa forma, serviu de inspiração para alguns dos aspetos criativos do filme, nomeadamente a transferência da história original do livro, passada nos anos 50, para o fim da década de 80. Devido à sua personagem se assumir como alívio cómico, a jogada de utilizar este ator foi decisiva, uma vez que o seu à vontade é notório e, possivelmente, contagiante para os outros atores juvenis. Destaque ainda para Jack Dylan Grazer, que, para além do bom trabalho, foi agraciado com a caricatura bem escrita dum miúdo hipocondríaco, e Sophia Lillis, que pode muito bem vir a ser uma das musas de Hollywood no futuro. Como realizador, apesar dos mecanismos de jump-scare serem ligeiramente óbvios, Muschietti conseguiu criar uma aura de pesadelo constante que se aglutina ao olho e impede o espetador de distinguir eficazmente entre a realidade e os momentos ilusórios em que o palhaço começa a brincar com a mente das suas presas.

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Todavia, para ir ao fundo da questão, talvez tenha de se começar pela água, não se iniciasse o filme com uma chuvada que leva o pequeno Georgie de seis anos sarjeta abaixo. Já é histórico o uso da água no cinema do género. Desde Jaws (1975) de Steven Spielberg, onde um tubarão roça os pés dos banhistas, até Aliens (1986) de James Cameron, onde um Xenomorfo emerge dum canal por detrás duma criança indefesa, algumas das melhores cenas com monstros são passadas na água, meio que prima pela sua incógnita. Não fugindo à referência, muitas das cenas lúgubres de It passam-se na água, como por exemplo, em esgotos, casas de banho ou numa cave inundada. A água funciona como metáfora para os medos que vêm das profundezas da mente, semântica que já vem da obra literária. Pois é dos terrores da mente que Pennywise se alimenta, capaz de se transformar naquilo que mais pavor instiga a cada uma das personagens, como um leproso horripilante e barulhento que atormenta o miúdo com medo de doenças. Aliás, que melhor alvo poderia ter o palhaço senão crianças que vivem da imaginação fértil e dos pesadelos que muitas vezes lhes são incutidos pelos mais velhos. Não é coincidência que muitos dos medos das personagens nasçam das atitudes dos pais. Protótipo dessa ideia é a rapariga do grupo, Beverly, interpretada por Lillis, cujo principal medo é o florescimento sexual, devido à presença dum pai violento e abusivo. Apesar dos adultos serem todos caricaturados como seres malévolos e unidimensionais, o que pode parecer um claro exagero, estes funcionam como pombo-correio de uma das mensagens mais subtis da fita: ao projetarem os seus complexos nos mais novos, os educadores podem transformar-se numa fonte de ansiedade para os mesmos, mesmo que a intenção seja proteger e educar. Prendendo-se a esta dinâmica negativa, o palhaço funciona não só como a incorporação de um medo específico, mas também como espelho para o ambiente doméstico e personalidade de cada um. Por exemplo, o cómico do grupo tem medo de palhaços. Consequentemente, Pennywise presenteia-o com palhaços que, para além de representarem o seu maior receio, são igualmente uma referência à persona que este adota socialmente. Dito isto, para além de ser um corredor para o terror puro, o palhaço é, em alguns dos casos, um reflexo das inseguranças sociais de cada um, ressaltando, neste caso em particular, a sugestão de que o jovem usa as piadas constantes para disfarçar a sua vulnerabilidade, qual mecanismo de defesa. Quase que a justificar os reparos feitos à inabilidade de Pennywise de apavorar, o verdadeiro horror não reside na figura física do palhaço, mas sim na materialização do que vai na mente dum pré-adolescente traumatizado ou complexado. Fora os aspetos técnicos mais corriqueiros, o grande triunfo deste ensaio de Muschietti é a forma como relativiza o medo. Ao contrário da maioria dos filmes de terror em que o espetador está confinado à presença duma entidade perturbadora imutável, em It o medo ganha várias formas e feitios, adapta-se a cada personagem, fazendo com que, no silêncio do seu subconsciente, o espetador possa, ou não, refletir sobre as suas próprias fobias. Como tal, há que vangloriar este projeto pela maneira rica e sincera como aborda os seus temas, como se afasta da vaga de exercícios vazios que têm inundado os blockbusters dos últimos anos. Está longe de ser um filme deveras entusiasmante ou portento técnico, e ainda mais distante de ser um clássico do género de terror. Porém, deixa a sua marca como drama juvenil para adultos que faz do medo um objeto de estudo multifacetado. Pois uma coisa é certa: o medo assiste a todos.

Bom

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