It Comes at Night

‘It Comes at Night’, na era da desinformação

Vivemos tempos de incerteza, presos na sociedade dos factos inventados, na dúvida se tudo o que lemos e vemos se enche de rigor, reféns dum sistema onde imperam bolhas de informação, casulos onde poucos fabricam a verdade de muitos. Ao mínimo descuido, essa verdade contrafeita pode influenciar a nossa forma de viver, sujar as nossas crenças e os nossos valores, só para que sobre uma nódoa alimentada por preconceito, medo e paranóia. E tem sido assim que muitos fenómenos estranhos se têm apoderado do mundo. Desde notícias falsas que envenenam eleições, passando por fábulas mirabolantes que incentivam ao terrorismo e à violência sem nexo, até micro-ódios que enchem os ecrãs de smartphones, sem dúvida que vivemos tempos de incerteza. E, supondo que também vivemos numa tão proclamada era da informação, não deixa de ser revoltante que tantos veículos de transporte dessa mesma mercadoria usem o seu palanque para berrar as suas próprias verdades, disfarçadas de factos concretos. Em It Comes at Night, dá-se precisamente uma inversão desse processo. As suas personagens vivem numa sociedade silenciosa onde nenhum megafone lhes transmite as últimas do dia ou, neste caso, o que raio aconteceu com o mundo que habitam. Condicionadas pela ameaça dum suposto vírus mortal, vivem com o pouco que sabem, com a pouca informação que lhes chega. Equipadas de máscaras de oxigénio quando saem à rua, receosas de sair à noite, sob pena de se exporem a uma ameaça sem nome, sem corpo, sem voz, vivem, por seu lado, na era da desinformação, movidos a comida, medo e paranóia. Que coisa estranha, que um cenário pós-apocalíptico possa parecer-se tanto com o mundo em que vivemos atualmente, mesmo que num abunde um barulho ensurdecedor e, no outro, a ânsia por algo que preencha o vazio trazido pela surdez. No fundo, talvez ansiemos todos por informação, venha esta de onde vier, nem que seja para que as nossas conjeturas e suposições sejam encorajadas, nem que seja para podermos afirmar com toda a confiança ”Viste?! Eu bem te disse que o mundo tinha acabado”.

It Comes at Night

É, pois, na falta de informação que assenta o terror deste filme realizado por Trey Edward Shults, autor de Krisha (2015), o seu filme de estreia que mereceu rasgados elogios por onde passou. Paul (Joel Edgerton) vive com a sua companheira (Carmen Ejogo), o filho de ambos (Kelvin Harrison Jr.) e o cão de estimação numa casa longe da civilização, ou do que sobra dela, escondidos dum mal enigmático que, a julgar pelo comportamento inicial das personagens, pode atacar a qualquer momento. Apesar dessa sugestão, a única manifestação tangível desse mal aparenta ser uma doença agressiva, maleita ilustrada pela primeira cena do filme em que Paul se vê obrigado a matar o sogro, banhado pela perigosa doutrina do “estou a fazer o que é necessário”, ora não criasse essa ladainha uma subtil imposição das vontades deste sobre os seus entes queridos. Tal como em tantas outras configurações familiares, a figura paternal reina como mestre da casa, como senhor da razão, mesmo que, como é o caso de Paul, doure a pílula com uma pseudodemocracia inflacionada à mesa de jantar. Apesar de se desenrolar num cenário distópico, e talvez no reino do sobrenatural, a história de It Comes at Night fala-nos de nós, nós que vivemos nesta aldeia global em que, salvo algumas exceções, somos todos senhores da razão, mesmo que assim o sejamos sem querer, cheios de medo de coisas que nunca vimos. Pois, pelo que é dado a entender, Paul e os seus pares nunca viram este “papão” que devorou o mundo, a não ser através duma doença supostamente contagiosa. Serão alienígenas? Zombies? Uma praga mortal? Ninguém sabe, abrindo-se espaço para os factos que eles próprios, aparentemente, criaram: temos de usar máscaras de oxigénio, mesmo que as tirem de vez em quando, não podemos sair à noite, mesmo que acabem por fazê-lo quando necessário, “it comes at night”, mesmo que, no fundo, tal como é sugerido em vários diálogos, não façam a mínima ideia de quem ou do que estão a falar. O único inimigo que realmente é palpável, que transcende o constante frisson criado por planos duma floresta misteriosa, é a ignorância. E, geralmente, a ignorância nunca leva a bom porto.

It Comes at Night

O que muda na vida reclusa desta família é o aparecimento duma outra família em apuros que Paul, a muito custo, resolve albergar, não sem antes tratar o outro marido (Christopher Abbott) como um criminoso, ainda que este se apresente como um refugiado do tal mundo que já não é. E é depois desse ato de caridade que os verdadeiros problemas começam a surgir, pois, para além da ameaça invisível que vem da floresta, a família tem de lidar com a desconfiança, com a presença de visitantes de carne e osso que, apesar de parecerem inofensivos, podem trazer consigo várias mentiras e, pior do que isso, o tal vírus mortal. É criada, então, uma microssociedade emparedada onde governa a fobia, onde se começa a tornar claro que talvez o verdadeiro “papão” seja o ser humano, e nada mais que isso. Óbvio que este ambiente paranóico apenas é gerado devido à realização sublime de Shults, sempre afinada ao pormenor de maneira a obter um balanço orgânico entre terror psicológico e terror biológico. Nessa missão, é dado destaque ao filho do casal da casa, Travis, um jovem de 17 anos, em plena puberdade, cujos pesadelos, que o impedem de dormir, funcionam como um complemento da narrativa, lançando o espectador para um limbo constante entre a realidade e o sonho, à moda de Inception (2010) de Christopher Nolan. No entanto, apesar desta alternância ser subtil, a diferença entre o que é real e o que é pesadelo é demarcada pelo uso de aspect ratios diferentes, só para que, a certo ponto, essa dinâmica seja invertida: o pesadelo torna-se realidade. Tem-se também uma fotografia de requinte em que são utilizados vários planos simétricos da casa para exacerbar a claustrofobia que se apodera das personagens, principalmente de Travis, emaranhado na sua curiosidade e nos impulsos sexuais típicos da idade. O elenco faz um trabalho competente, com destaque para Edgerton, que conseguiu oferecer humanidade à sua personagem, o que contrasta com muitas das atitudes que esta vai tomando ao longo do filme, quase forçando o espectador a perguntar-se se, em situação semelhante, não faria o mesmo. Como um dos poucos problemas, é possível apontar uma considerável falta de apego emocional às personagens, assim como a pobre exploração das personagens femininas que, sujeitas à hiperventilação máscula dos seus maridos, têm um papel reduzido na narrativa, apesar de acabarem por ser o gatilho das decisões mais intempestivas dos seus cônjuges.

It Comes at Night

Promovido como um típico jump scare, à semelhança do que aconteceu com mother! (2017) de Darren Aronofsky, It Comes at Night, sofreu muito com o facto de ter sido amplamente sugerido ao público errado, dinâmica que despertou uma onda de críticas negativas por parte das audiências que viram as suas expetactivas defraudadas – mais um exemplo de desinformação, neste caso, publicitária. Convém, portanto, referir que não se está perante nada que se pareça com filmes de terror como Insidious, The Conjuring ou Annabelle, mas sim perante uma experiência esotérica que aposta em metáforas sociopolíticas e existenciais. A sua principal mensagem prende-se com o medo e o efeito que este pode ter sobre uma sociedade, neste caso um grupo de pessoas, que, devido à falta de informação, são lançadas para um estado de sítio auto-infligido, agravado pelas acções dúbias dum líder que usa a necessidade de proteger os seus como justificação para tudo. Faz lembrar algo? Faz. É assustador? É. Mas não se dedica ao tradicional susto que faz saltar da cadeira, subsiste dum bem mais complexo e difícil de conjurar, aquele que nos faz pensar no mundo que habitamos e no quão rapidamente o ser humano, quando banhado por doutrinas tacanhas,  se pode transformar num cancro irremissível que se alastra a tudo e todos. Num monstro cruel e presunçoso.

 

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