‘It Chapter Two’, com indiferença

A memória é um monstro irrequieto, por vezes cruel e impertinente, por vezes camuflado nas entranhas do pensamento. Tudo o que vivemos sofre uma constante mutação, muitas vezes influenciada pelas ideias que temos sobre quem somos, quem fomos ou quem queríamos ser. Mas, o que acontece quando as lembranças mais negras e profundas, aquelas que queríamos mesmo esquecer, voltam para nos assombrar? Talvez seja este percalço emocional o grande tema de ‘It Chapter Two’, o segundo capítulo da adaptação cinematográfica do livro homónimo escrito por Stephen King.

E, amiúde, essa exploração do conceito de memória funciona a favor do filme realizado por Andy Muschietti, conforme visitamos, com a ajuda de flashbacks, os miúdos que atulharam o primeiro capítulo de momentos relativamente marcantes, borrifados com uma polida dose de humor e nostalgia, graças às inúmeras referências à década de 80, à imagem da série da Netflix, ‘Stranger Things’. Porém, passados 27 anos, na atualidade, já os miúdos viraram graúdos, todo esse agradável perfume, sempre com um trago a podre graças ao palhaço Pennywise, se transformou em algo inconsequente e confuso.

A paupérie narrativa nota-se logo de início, quando os elementos do “Loser’s Club”, depois do apelo de Mike, o eterno rapaz negro no meio dos rednecks, interpretado por Isaiah Mustafa, se voltam a reunir na pequena cidade de Derry, sem que as suas vidas profissionais e familiares intervenham nessa tarefa de retornar ao local de partida. A falta de contextualização da realidade mundana das personagens é evidente, sendo que, mais à frente, essa ausência causa dano no desenvolvimento emocional da história. Toda esta secção inicial é preenchida por tiradas genéricas nas quais, uma a uma, como se houvesse um cartão a picar, são apresentadas as arestas mais evidentes destes adultos prestes a entrar no caldeirão fervilhante preparado pelo palhaço do costume, encarnado por Bill Skarsgård, de regresso para mais uma rodada de barbárie.

Entre os infelizes contemplados, destaca-se a transformação do jovem obeso, vítima de bullying, num homem charmoso e bem-falante, interpretado por Jay Ryan, ou a consagração do “piadolas” do grupo, agora interpretado por Bill Hader, como comediante profissional. De resto, as outras personagens são réplicas crescidas dos seus antecessores, com Jessica Chastain na pele de Beverly, a jovem que era mal-tratada pelo próprio pai, James McAvoy como o rapaz gago que perdeu o irmão mais novo, e James Ransome a encarnar o hipocondríaco que deambula pelos cenários num estado aumentado de ansiedade. Fica a faltar o tímido e frágil Stan, interpretado por Andy Bean, que resolveu dar outro rumo à sua vida. Tirando Mike, numa fase prematura desta nova aventura, todos eles parecem algo esquecidos do palhaço assassino.

A superficialidade destas personagens é, de certa forma, provocada pelo guião reducionista de Gary Dauberman, um dos autores do franchise ‘The Conjuring’. Em alguns diálogos, parece que o guionista se esqueceu que estava a retratar personagens adultas, visto algumas linhas serem tiradas ipsis verbis do catálogo frásico do típico adolescente. Dá a ideia que este ficou preso ao filme anterior, sem entender que existia uma clara necessidade de transportar certos diálogos para um patamar mais conspícuo e eloquente. A tentativa de criar paralelismos com os heróis da primeira obra faz nascer um enorme vácuo de conteúdo, sem que exista a possibilidade de entrar naquela que seria supostamente a mentalidade de um adulto agarrado aos traumas do passado. Para mais, a explicação de algumas peças fundamentais do enredo, como um ritual que pode derrotar o antagonista, é maldotada e apressada, o que torna a mitologia à volta de Pennywise um pandemónio de bainhas mal costuradas.

Ao nível técnico, o realizador aparenta não ter aprendido nada com os problemas do trabalho anterior, já que se está perante uma réplica do modus operandi presente naquele. A forma como os sustos são preparados é recorrente, chegando a um ponto de fadiga: personagem isolada, cenário sinistro, alteração significativa do volume do som e consequente susto. Pennywise vive de um uso insistente dos mesmos truques de antecipação, o que leva a que se verifiquem sustos progressivamente menos energéticos, atingindo-se o precipício perigoso numa obra de terror em que a audiência deixa de se importar, pois, tudo se tornou expectável, desprovido de suspense. Para esta causa não contribui a ocasional fragmentação do grupo de adultos, com cada personagem a separar-se dos restantes de forma a vasculhar a respetiva vida pessoal. E, claro, cada um tem direito ao seu previsível momento de horror, com referências às criações esquizofrénicas de mestres como Guillermo del Toro ou John Carpenter.

Óbvio que ‘It Chapter Two’ não pode ser acusado de não tentar explorar ideias interessantes sobre a guerra que cada um deve jurar aos seus demónios interiores, ou sobre a maneira como o adulto comum é alimentado à base dos combustíveis da adolescência. Porém, este fluxo metafórico, tão bem representado no filme original, tropeça no excesso de chavões e emoções baratas. E, por mais que os atores tentem incorporar todo esse sofrimento, nem todas as cenas parecem genuínas, podendo apontar-se uma grave falta de química entre os vários artistas. Não fossem as numerosas viagens no tempo, onde o elenco jovem transpira cumplicidade, e talvez ainda ficasse mais difícil acreditar na sua tão sentida amizade.

Como tantos outros já referiram, quiçá o problema esteja no facto de esta ser uma fiel adaptação de um livro escrito nos anos 80. E, por mais espaço que haja para idolatrar a imaginação de Stephen King, há que referir que a transferência deste imaginário para a atualidade faz com que a narrativa pareça antiquada. Por exemplo, o tema da homofobia é visitado duma forma atroz e simplista, com destaque para uma cena absurdamente gratuita.

Fica a impressão de que, ao tentar conjurar um filme sobre os efeitos nefastos da ostracização social, Muschietti acabou por cair numa enorme contradição. Prova disso é a forma como a personagem negra é abordada. No livro de King, Mike, o único dos “Losers” que se lembra vivamente do tormento causado por Pennywise, funciona como uma possível metáfora para a falta de memória coletiva da “América branca” em relação a temas como a segregação. Contudo, no filme, esta é a personagem com menos minutos de atenção, sendo que a transformaram num mero dinamizador das ações de outrem. Mike é uma caricatura transitória, um objeto descartável, despedaçado pelas necessidades de um produto de entretenimento vazio onde o que mais se salienta é a gratuitidade com que alguns golpes são desferidos.

Ao mesmo tempo que tentam apontar o dedo à malévola Derry, associando-lhe a velha canção sobre a reciclagem dos ódios pestilentos de outrora, os criadores deste filme acabam por tratar algumas das suas personagens tal e qual como esta América diabólica trata os seus cidadãos: com indiferença. No fim, fica-se com uma versão deslavada da narrativa estimulante criada por King. Essa tão pretendida desconstrução do coração de um país em crise ética e moral cai por terra a partir do momento que a violência sofrida pelas personagens apenas funciona como catapulta para a aparição de mais um monstro criado a computador. A psicanálise que se esperava, com uma potencial observação perspicaz da podridão social e macroeconómica, foi trocada pela necessidade de entreter o vasto público angariado graças ao sucesso do primeiro filme. A riqueza temática ficou pelo caminho, enquanto os deuses da bilheteira esfregam as mãos e se congratulam por mais uma armadilha comercial bem-montada.

Razoável
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