‘If Beale Street Could Talk’, uma hipnotizante sessão de empatia

Ao longo das últimas décadas, a História norte-americana tem vindo a ser escrita, na sua grande maioria, por sociólogos, historiadores e economistas brancos, cidadãos e profissionais que, duma forma intencional ou não, têm, por regra, amenizado o sofrimento do povo afro-americano através dum embelezamento da sociedade como um todo – bastará pensarmos em alguns filmes, livros e reportagens, em alguns discursos políticos, ou na constante e ainda voraz ladainha do “sonho americano”. Como disse Winston Churchill, “a História é contada pelos vencedores”, ou pelos que ostracizam, dirão outros. E um dos delatores dessa iniquidade social sempre foi James Baldwin, um escritor negro e corajoso que, através das suas palavras inspiradas, contou a História dos injustiçados e oprimidos. E dos, de certa forma, derrotados. ‘If Beale Street Could Talk’ é uma das suas grandes obras, um turbilhão de emoções reprimidas ou gritadas ao alto, um maravilhoso e horrível conto sobre a injustiça e discriminação racial nos Estados Unidos da América. Não é de estranhar, portanto, que Barry Jenkins, o realizador de Moonlight (2016), tendo em conta os tempos que correm, tenha pegado neste clássico literário e conduzido toda a sua paixão artística para a missão de materializar as palavras de Baldwin duma maneira apelativa e sentida, mas também prudente, fazendo com que o filme adote um tom menos ácido em comparação com o livro, o que acaba por gerar a pergunta: porque não foi o cineasta mais longe? Por exemplo, no livro, Baldwin descreve o polícia que origina toda a injustiça perpetrada como “um sacana pueril, estúpido e malvado”, a passo que Jenkins optou por uma abordagem muito mais neutra. Como tal, o desalento do afro-americano comum dos anos 70, época em que o livro se baseia, com as autoridades, a revolta e o desespero que jorra das folhas nem sempre se manifesta nas imagens e palavras da película, tendo o cineasta optado por descartar as observações mais duras e polémicas do escritor, incómodas até mais não, e realçar, ao invés, os momentos mais ternurentos, ressaltando daí uma maior derivação para a história de amor e não tanto para o protesto visceral que alguns poderiam estar à espera. If Beale Street Could Talk é um bom filme, superiormente preparado e pensado, mas nele também cresce uma enorme fome por mais, por ferro, fogo e sangue, pelas descrições sujas e incisivas de Baldwin. Outro exemplo é a forma como Tish, a narradora e personagem principal, descreve o seu primeiro encontro sexual com Fonny, o seu namorado encarcerado por um crime que não cometeu. No livro, esta descreve a experiência como ter sido “atropelada por um camião”, com alusões a fluídos corporais e dor. No filme, o momento é adocicado e romantizado, e, por fim, interrompido à nascença, sendo o fervor carnal guardado para a imaginação dos espectadores. Pegando nas palavras da jovem personagem, nesta nova obra de Jenkins nunca sentimos que fomos atropelados por um camião, como, citando caso parecido, acontece em 12 Years a Slave (2013) ou Detroit (2017). Tudo é ligeiramente diminuído, remetido para o casulo da elegância estética. Mas, repita-se, é um bom filme. E, tal como tudo nas artes, caberá ao paladar de cada um acolher ou não os sabores que lhe são oferecidos, ou ansiar por alguma iguaria esquecida.

If Beale Street Could Talk

A narrativa, contada através de avanços e recuos temporais, concentra-se no choque de dois jovens apaixonados, Tish e Fonny, interpretados com aprumo por Kiki Layne e Stephan James, com o sistema judicial norte-americano, depois do segundo ter sido preso injustamente por violar uma mulher porto-riquenha. As provas são escassas, os relatos são difusos e não batem certo, o polícia que fez a detenção é duvidoso e parece tê-lo feito por ódio, a queixosa desapareceu, mas a verdade é que Fonny continua preso, destinado a assistir à gravidez inesperada da sua companheira pelo vidro da sala de visitas – “Eu espero que nunca ninguém tenha de olhar para alguém que ama através dum vidro” é a primeira linha da jovem narradora. O infortúnio desta transporta-nos para o seio duma família afro-americana comandada por dois pais compreensivos e preocupados, interpretados por Regina King e Colman Domingo, e uma irmã sem papas na língua, encarnada por Teyonah Parris, havendo ainda espaço para os parentes de Fonny. A aflição destas pessoas é genuinamente construída, suscitando momentos tristes e reflexivos, por vezes caricatos. Para filmar todos estes encontros de primeiro grau, Jenkins e o cinematógrafo James Laxton recorreram a técnicas semelhantes às que usaram em Moonlight. A maioria da ação é captada com câmaras de grande formato de 65mm, promovendo uma espécie de realidade aumentada que destaca os rostos e expressões das personagens, graças a lentes de alta resolução e um espectro de cores alargado. Porém, as imagens magicadas por estes dois colaboradores de longa data tornam-se apaixonantes devido à mistura entre este hiper-realismo e uma intensa poesia visual que gera sensações contrastantes – vintage e moderno, piroso e elegante. Todos estes estímulos são aumentados pelo vestuário e pela decoração dos cenários, onde se denotam cores vivas e saturadas, associadas, por norma, a situações onde abundam expressões de amizade e paixão. A paleta de cores apenas desvanece um pouco aquando das idas de Tish à prisão para visitar Fonny, nascendo nessas cenas uma óbvia disparidade de emoções em relação ao resto do filme. A cereja no topo do bolo é a fixação das personagens com a câmara, um olhar direto para a lente, quando na verdade estão a olhar umas para as outras, a fazer lembrar as aventuras do realizador Jonathan Demme. Contudo, enquanto o autor de The Silence of the Lambs (1991) se aproveitava desta abordagem para criar tensão e metaforizar os jogos de poder, Jenkins pretende criar intimidade, atrair o espectador para uma hipnotizante sessão de empatia e fisicalidade, pois tal exercício puxa ao máximo pelo talento e expressividade dos atores, que, neste caso, fazem sem exceção um trabalho competente. Em adição, a banda sonora da autoria do compositor Nicholas Britell mistura-se com as imagens, fomentando-se uma linguagem única e enternecedora, amiúde repetitiva, mas sem causar mossa. Ver e ouvir If Beale Street Could Talk é como ler um grande poema, fluindo as rimas audiovisuais pelos nossos olhos e ouvidos como ondas que se enrolam suavemente, com a areia que rebalsa no seu interior a arranhar a imoralidade americana.

If Beale Street Could Talk

O grande triunfo reside no facto de todas as personagens parecerem autênticas, como se cada uma delas pudesse vir a ter um filme só seu, apenas focado na sua vida. Ficamos então com uma passarela de diários por ler, pequenas histórias pessoais que ficam por contar, e que seriam igualmente interessantes, tristes e inspiradoras. Jenkins consegue com isto captar o sofrimento generalizado do americano negro, urdindo um calvário coletivo onde todas as pessoas com aquela cor de pele já provaram, inevitavelmente, os dissabores provocados pelos sistemas autoritários da “terra dos livres”. No meio do amor de Tish e Fonny, como uma assombração que ameaça saltar do escuro a qualquer momento, reside uma constante ameaça, um bode malévolo que circunda toda a magia dos beijos e abraços, e sorrisos de relativa felicidade, o puro racismo e o seu poder de gerar morte, pobreza e injustiça. Devido aos saltos temporais, esta sensação infiltra-se facilmente no espectador, pois este já sabe que a relação entre os dois jovens está condenada a viver etapas de mágoa e incerteza. Nos momentos mais críticos da obra, quase como um docudrama de Jean-Luc Godard, somos presenteados com as duras fotografias a preto e branco de Gordon Parks e Roy Decavara, dois fotógrafos que se dedicaram a captar a vivência em bairros como o Harlem ou em prisões. Nesses interlúdios, Jenkins aproveita para inserir muito fugazmente algumas sugestões acusatórias, apontando ao de leve para um pequeno silogismo: se as prisões estavam repletas de afro-americanos que afirmavam estar inocentes, acusados por um sistema racista, incompetente e altamente corrupto, e estes, como reclusos, acabavam a trabalhar para o Estado, sem remuneração monetária, em campos de cultivo, na construção civil ou produção de materiais e vestuário, até que ponto não estaremos a falar duma espécie de “escravidão legal”, um sistema que adquiria mão-de-obra duma forma descaradamente perversa? Pena que, no meio do seu gracioso drama e romance, Barry Jenkins não tenha derivado do material original para terrenos mais acidentados e sombrios, e aproveitado esta essencial obra de James Baldwin para desenvolver os raciocínios polémicos e ousados para os quais acena à distância. Tendo em conta o seu historial de acídicas palavras, o escritor já falecido provavelmente não se importaria com o desvio.

Kubrickamente

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