I, Tonya (2017)

‘I, Tonya’, numa América boçal

Nas últimas décadas, o cinema de Hollywood viveu bastante da exploração do povo norte-americano e das suas características mais peculiares, com destaque para o segmento que muitos gostam de apelidar “whitetrash”. Porém, desse aproveitamento ficou de fora, muitas vezes, a análise das razões dessa existência simplória, ficando o produto máximo dessa visita, as personagens, entregue a um suposto tom caricatural. Como tal, para o público afastado dessa realidade, o europeu por exemplo, foi criada uma bolha mitológica à volta da figura provinciana ilustrada pelo cinema, como se esta não passasse duma caricatura, um esboço exagerado duma cultura retrógrada que já não existe – como poderia existir? -, geralmente ao serviço duma necessidade intrínseca de metaforizar essa dita tacanhez. Contudo, recentemente, dois fenómenos apoderaram-se do cenário sociopolítico, mudando por completo a forma como encarávamos essa porção considerável do povo americano, assim como o modo como era representada por Hollywood: a massificação das redes sociais e a, talvez consequente, subida de Donald Trump ao poder. De repente, bastou que o ambiente certo fosse criado, as pessoas, que antes pensávamos apenas existirem num neo-western dos irmãos Coen, começaram a surgir à frente das câmaras, a reunir-se em comícios republicanos, a inundar a Internet de notícias falsas e comentários de tez racista, provavelmente porque, no seu meio, tal é trivial. De repente, a América deseducada e rude que pensávamos já não existir – como poderia existir? – materializou-se. Essencialmente, a ignorância que hoje é destaque nas manchetes de jornal sempre lá esteve, escondida, tapada por anos e anos de publicidade ao sonho americano, à terra das oportunidades. Não é surpresa, portanto, que, quando Tonya Harding, interpretada por Margot Robbie, aborda um juiz de patinagem e lhe pergunta o porquê da injustiça das suas pontuações, este lhe responda “Tu não és a imagem que queremos transparecer. Estás a representar o país, por amor de Deus”. Isto, em 1994, nos tempos em que a tal América grosseira ainda vivia encoberta, oculta por um manto da invisibilidade costurado por um marketing internacional enganoso.

I, Tonya

Tonya é a ex-patinadora que, pela altura dos Jogos Olímpicos de Inverno de 94, se viu envolvida na agressão a Nancy Kerrigan, uma atleta rival que quase ficou impedida de participar na competição devido à lesão infligida por um agressor alegadamente contratado pelo marido da primeira. É também uma mulher que sofreu maus-tratos durante toda a sua juventude, às mãos duma mãe exigente, dum marido abusador e da pobreza cultural e financeira, e a primeira atleta a aterrar o “triple axel”, a manobra mais complicada da patinagem artística. Baseado numa série de entrevistas feitas a si e aos principais intervenientes no seu percurso, depoimentos estes replicados ao longo do filme, I, Tonya conta a história da patinadora desde a sua infância no Oregon até aos acontecimentos bizarros que viriam a perturbar drasticamente a sua carreira desportiva e a transformá-la na vilã de serviço das televisões norte-americanas. De destacar, desde logo, a estrutura excêntrica, apresentada pelo realizador Craig Gillespie e pelo guionista Steven Rogers, que foge corajosamente aos arquétipos do filme biográfico padrão. A fazer lembrar o registo celebrizado por Martin Scorsese em filmes como Goodfellas (1990) ou The Wolf of Wall Street (2013), não que lhes faça total justiça, a obra deambula por uma sucessão de manobras narrativas que lhe oferecem uma elasticidade fora do normal. Aproveitando-se de alguns factos que nunca foram devidamente esclarecidos e contrariando a maioria dos docudramas típicos da época dos Óscares, mais preocupados em replicar episódios específicos e pregar lições morais do que em explorar emoções e ideias extemporâneas, a obra começa desde cedo por relativizar a veracidade do que é demonstrado, atirando o espectador para uma amálgama de relatos contraditórios, saltos temporais e quebras da “quarta parede” que, apesar de nem sempre resultarem na perfeição, ajudam e muito a cimentar o tema furtivo do filme: a verdade é relativa. E é nessa subjetividade que a Tonya Harding ficcional se encharca, não só como representação duma pessoa real com tendência para a auto-desculpabilização, mas também como acusação pertinente aos media e consumidores que pintam a verdade consoante lhes apraz, sedentos de criar mais um vilão, mais um recipiente do ódio coletivo. Ao extrapolar o conceito de “história verídica” para um mais alargado “história contada por quem a viveu”, o cineasta australiano criou, mesmo que inadvertidamente, um ensaio extremamente interessante sobre o momento social atual, onde muitas pessoas parecem habitar realidades alternativas. E, melhor ainda, esse cheiro a falso é destacado pelas próprias personagens nas suas intervenções metatextuais, como que afirmando o quão imoral é estarmos a assistir a um filme que pretende contar uma história factual, mas que pode muito bem estar a contar uma mentira. A subtil sugestão de que todos nós, ao participarmos num exercício de tal natureza, somos indiretamente culpados da demonização que, diariamente, enche os telejornais e revistas e afeta pessoas como a patinadora olímpica é deveras desconcertante, tornando-se I, Tonya numa obra tão inteligente quanto descarada.

I, Tonya

Todavia, a ironia negra que é atirada quase em jeito de acusação só se torna possível e palpável devido ao fantástico trabalho de montagem de Tatiana S. Riegel. Em conjunto com a filmagem de Nicolas Karakatsanis, a edição brinda o filme com um ritmo frenético, quase a par das tais obras-primas de Scorsese ou dos Coen. Só que, no lugar das lendas da trafulhice como Henry Hill (Ray Liotta) ou James Conway (Robert De Niro), está um grupo de criminosos do mais incompetente que pode haver e uma jovem cuja função na agressão à sua adversária permanece, até hoje, incógnita. E é destas personagens e do trabalho de quem as interpreta que o filme fica refém, já que todo o enredo assenta numa base pouco confiável. Independentemente da veracidade do que é contado, o espectador tem de acreditar que estas personalidades existem, que habitam o mundo real. E esse investimento na formulação dum “filme de atores” foi deveras rentável, já que o elenco tem um desempenho categórico. Se bem que Sebastian Stan e Paul Walter Hauser sejam bastante convincentes na pele de dois estarolas péssimos a planear crimes, o destaque terá de ser dado a Allison Janney e Margot Robbie. A empreitada das duas atrizes, focadas em dar ao filme um lado melodramático e tridimensional, é levada a cabo com um empenho desmedido, acabando ambas por transformar aquele que aparentava ser, apesar da originalidade, mais um relato biográfico inconsequente num aglomerado tragicómico bastante hábil, com Janney a interpretar uma mãe fria e abusiva, e Robbie a agarrar-nos pelos colarinhos nos momentos decisivos e a fazer-nos crer que em Tonya Harding residia um ser humano que não sabia mais, nem melhor, sujeito às imposições dum meio hostil e imbecil, agravado pelos instintos canibalescos do jornalismo sensacionalista.

I, Tonya

Não obstante a pompa e corpulência de algumas cenas, o filme também apresenta alguns momentos menos bem conseguidos. Na tentativa de exemplificar a normalização dos abusos físicos na vida de Tonya, visto o marido a agredir constantemente, algumas cenas tornam-se tão repetitivas e dedicadas a simular o tal ritmo scorsesiano que, por vezes, se perde o veraz impacto dessas ações nefastas na vida da jovem. Ainda que Robbie, já perto do fim, vingue essa malformação dramática com dois solos assombrosos, há que notar a falta de diversidade temática numa grande parte do filme, preso num loop insistente de violência física e verbal. Por exemplo, em vez de persistir na relação turbulenta da patinadora com o marido, o argumento poderia ter derivado para as exigências físicas e psicológicas do treino de alta-competição ou para o impacto da falta de escolaridade na vida social da jovem. Recorde-se que esta abandonou os estudos bastante cedo para se dedicar ao desporto. Posto isto, quando o mundo de Tonya começa a desabar, essa falta de sortido pode prejudicar a experiência de alguns espectadores, pois a dimensão das cedências que a patinadora teve de fazer para chegar ao topo nunca foi suficientemente exaltada. I, Tonya poderá ainda ser acusado de, contrariamente ao que exclama, caricaturar as suas personagens – vultos cómicos presos no mito cinemático do whitetrash -, porém, caso se dê uma vista de olhos nas entrevistas reais, poder-se-á verificar que estas pessoas, por mais surreal que seja a sua forma de estar, existem mesmo. Numa América boçal, quase anedótica, que muitos de nós nunca levámos a sério.

Kubrickamente

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