‘I Am Not Okay with This’, uma agradável estranheza

A adolescência é complicada. É uma época de tumulto emocional, dúvidas, receios, complexos, mas também repetitiva, ora não fossem quase todos os adolescentes uma réplica dos que os antecederam, apesar dos avanços tecnológicos ou sociais que possam marcar algumas gerações. Apesar do turbilhão de hormonas, muitos destes jovens, especialmente no mundo ocidental, nem se apercebem do quão banal é a sua situação, sem que nada os aflija desesperadamente, numa fase em que as preocupações ainda são poucas.

Não é o caso de Sydney, interpretada por Sophia Lillis, uma jovem que, apesar de o tentar esconder, está de luto devido à morte trágica do pai. Além disso, esta tem de lidar com a recente mudança para uma nova cidade, uma mãe bastante ausente face às circunstâncias, um irmão mais novo que requer a sua atenção na ausência da progenitora, e com a deserção da sua única amiga para os braços do quarterback da escola secundária, uma caricatura do típico atleta rude e convencido já rabiscada em outras narrativas coming-of-age. E é no embate com este machão inconveniente que Sydney começa a perceber que algo de errado ou diferente se passa consigo, quando, numa corriqueira conversa de café, faz com que o nariz do dito cujo comece a sangrar.

Para o resgate, comparece Stanley Barber, interpretado por Wyatt Oleff — Lillis e este contracenaram em ‘It’ (2018) —, um jovem extremamente descontraído, com um ávido gosto por canábis, música dos anos 80 e pelos comics que usa para tentar ajudar Sydney a perceber a origem e funcionamento dos seus poderes. Sim, porque esta não se ficou por estoirar as veias nasais do namorado irritante da sua amiga. Ocasional e inadvertidamente, quando está irritada ou desorientada, a jovem tende a fazer rebentar tudo à sua volta ou mexer objetos com a força da mente.

A fórmula não é original: os “superpoderes” como metáfora para a agitação inerente à adolescência. Muitas vezes, a vontade dos jovens é partir tudo à sua volta, a protagonista simplesmente consegue fazê-lo com mais facilidade do que o habitual. No entanto, sempre que isso acontece, este esquisito privilégio não transparece como uma leviana demonstração de poder, mas antes como uma analogia sentida ao desamparado desta adolescente em específico. A parte da narrativa que se gruda aos poderes de Sydney abre a porta para a sua tristeza e revolta.

Contudo, esta degustação do ingrediente sobrenatural também se torna repetitiva, conforme este processo de ilustração recorre  reiteradamente ao mesmo modus operandi: a jovem irrita-se, algo de estranho acontece à sua volta, ela tenta esconder o sucedido. Se bem que esta abordagem ajude a espalhar luz sobre as dificuldades dos adolescentes em geral em enfrentarem os problemas psicológicos de que sofrem, é algo pobre como história sobre um potencial super-herói ou ser com características sobrenaturais.

Em contrapartida, a mostragem da vida social de Sydney é uma apetitosa mistura de sarcasmo e drama. Os showrunners Christy Hall e Jonathan Entwistle, que realizou todos os episódios, e que também teve mão em outra série do género, ‘The End of the F***ing World’, montam uma viciante rede de afetos e desilusões. O motor de arranque é a relação de Sydney com o seu amigo e confidente, Stanley. A interpretação de ambos os atores é muito competente, com Lillis, a braços com uma personagem com a qual muitos podem não simpatizar por via das suas más escolhas, a exemplificar com mestria a vulnerabilidade e medo da mesma. Por sua vez, Ollef é uma revelação na área da comédia negra.

Quanto à estética, é fácil encontrar os acenos a filmes como ‘Carrie’ (1976) e ‘The Breakfast Club’ (1985). Há que apontar para a escolha bizarra de misturar elementos típicos dos anos 80, como a roupa, os carros, a música, a decoração de interiores, com elementos contemporâneos, como telemóveis, pens USB, redes sociais e outras tecnologias. Com o potencial de ser associada a uma tentativa parasitária de entrar na carruagem dos projetos nostálgicos da moda, como ‘Stranger Things’, esta escolha acaba por dar resultado, pois oferece à série um sentimento distinto dos seus pares, uma agradável estranheza.

O grande trunfo de ‘I Am Not Okay with This’, baseado na novela gráfica de Charles Forsman, é a forma como os guionistas misturam os habituais lugares comuns das narrativas sobre adolescentes com diálogos estimulantes e cáusticos, sem receio de as personagens caírem no cinismo. Com isto, a série injeta alguma frescura no oceano onde já se afundaram tantas obras semelhantes. A irreverência é a sua arma de eleição.

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