‘Hustlers’, até à próxima crise

As linhas da música de 1986, ‘Control’, da autoria de Janet Jackson, fazem-se ouvir, enquanto acompanhamos Destiny, uma stripper interpretada por Constance Wu, na sua tímida e desajeitada demanda pela conquista de alguns clientes no clube noturno “Moves”. Porém, o seu domínio sobre esta situação agreste parece algo reduzido face à selva colorida que a rodeia, repleta de empresários e traders de Wall Street sem grande consideração pelos “pedaços de carne” que lhes massajam os olhos. Tal como na sua ocupação, estão perante ativos que podem ou não ser alvo de uma transação financeira, uma aposta especulativa que, neste caso, assenta na capacidade de uma mulher causar comoção e excitação sexual. O ambiente muda quando Ramona, interpretada por Jennifer Lopez, sobe ao palco. De repente, a presa virou predador, sendo a sala dominada pelos movimentos atléticos desta dançarina feroz e decidida, conforme todos os homens da sala, e também as mulheres, caem a seus pés. O palco enche-se de notas e gritos de entusiasmo. Por breves momentos, esta transforma-se numa deusa devoradora de almas solitárias, num buraco negro para dentro do qual homens sem escrúpulos são sugados. Desde os primeiros minutos que ‘Hustlers’, realizado por Lorene Scafaria, denuncia o seu tema principal: controlo.

Inspirado num artigo viral escrito por Jessica Pressler para a New York Magazine, o filme conta, à moda de Martin Scorsese, com a personagem de Wu a servir de narradora, as diligências de um grupo de strippers para retomarem as rédeas das suas vidas, depois de o colapso da bolsa de 2008 ter levado a maioria dos seus clientes habituais à bancarrota. À semelhança de ‘The Wolf of Wall Street’ (2013), em que o protagonista tem de se desenrascar de forma ilegal após o começo da crise em 87, as cenas antes da dita hecatombe são coreografadas com todo o glamour possível, a fazer lembrar alguns videoclipes ou filmes de gangsters como ‘Mean Streets’ (1973) ou ‘Goodfellas’ (1990). O objetivo é claro: ilustrar o exagero, a opulência em que se vivia antes dos bancos estragarem a festa.

Nesta fase inicial, é explorada a indústria do striptease, existindo uma reinvenção da típica abordagem ao género, mais especificamente, o público alvo. Ao contrário dos restantes filmes que rumam por caminhos semelhantes, este projeto consegue apelar ao olhar atento e fascinado do público feminino, deixando de lado o típico imaginário destinado a provocar ereções. A sensualidade existe, mas é destinada ao empoderamento das mulheres que a exibem e não à objetificação. No fundo, está-se perante uma narrativa apelativa do tão falado “girl power”, conceito que poucas vezes é examinado de forma correta. Em contracorrente, muitos poderão afirmar que esta produção prejudica imenso a imagem geral das pessoas que trabalham na indústria do sexo, porque, devido à rapidez com que tudo acontece, escapa pelas entrelinhas a dificuldade que estas performers enfrentam diariamente, num emprego que, fora algumas excentricidades e potenciais ilicitudes, funciona como outro qualquer.

Desenrolada a catástrofe, cabe então às strippers desencantar um esquema novamente lucrativo, já que a liquidez oriunda do mundo das danças exóticas se tornou escassa. Entra-se, portanto, numa espécie de dinâmica vingativa e ilegal contra os “tipos de Wall Street”, os monstros que fugiram com o dinheiro do cidadão comum, num sistema financeiro desenhado para o mais poderoso se aproveitar do mais fraco — uma lógica comportamental simplista, mas, até certo ponto, credível. Graças a um conjunto de frases bem-conseguidas, o guião de Scafaria ajuda a tapar os buracos deixados pela premissa moral algo vazia.

Conforme os crimes vão surgindo, com as anti-heroínas a encontrarem uma nova caça ao tesouro, apesar da experiência divertida, há que ponderar até que ponto o filme não desaproveita as temáticas vigentes, agarrando-se constantemente a cenas repetitivas em que as personagens cometem o mesmo tipo de crimes, mas de maneiras ligeiramente diferentes. Por exemplo, é demonstrada a tendência quase irritante destas mulheres para o consumismo desmesurado, mas, salvo uma referência ao programa das irmãs Kardashian, nunca é explicado o que as leva a tomar essas atitudes em que revelam não ter aprendido grande coisa com o trambolhão que deram. Como tal, a narrativa refugia-se nas típicas vontades das personagens-arquétipo em filmes do género, como o auxílio a familiares e pagamento de dívidas, esquecendo-se de analisar o que faz alguém comprar um casaco de chinchila ou uma mala da Gucci, mesmo sabendo que amanhã o dinheiro possa vir a ser necessário para algo de vital importância.

A única vez que o filme realmente atinge alguma incisividade é quando a realizadora e guionista explora a forma como a masculinidade tóxica impede que as criminosas sejam precocemente apanhadas, pois a maioria dos homens foge a sete pés de admitir que foi burlado por um grupo de strippers, evitando a todo o custo a etiqueta de vítima.

Claro que ‘Hustlers’ tem os seus momentos brilhantes, à medida que a personagem principal vai narrando os acontecimentos e sendo interrompida por cenas surpreendentes e divertidas. É de destacar os planos-sequência conjurados pelo cinematógrafo Todd Banhazl, pois oferecem a alguns momentos a peculiaridade necessária. Por exemplo, novamente a fazer lembrar Scorsese, uma simples entrada num bar transforma-se numa viagem memorável, com figurantes e objetos a desabrocharem de todos os cantos, conforme as músicas dos respetivos anos vão ilustrando os sentimentos que estão à flor da pele.

As atrizes fazem um bom trabalho. Se bem que a obra gire à volta de Lopez, é Wu que consegue fugir das amarras criadas pela exibição de vidas glamorosas, tornando-se uma caricatura dramática e expressiva, amparada por um conjunto de planos fechados bastante inspirados.

No fim, ‘Hustlers’ pode ser encarado como um filme sobre os laços que se criam entre mulheres em momentos difíceis, mesmo inseridas em situações distorcidas e fora do comum, numa tentativa de sobreviver a uma América capitalista e cruel. Subtilmente, Scafaria pinta uma sociedade que funciona como um clube de striptease, onde tudo gira à volta da obtenção de controlo e poder, e onde nada mudou exceto a forma como os mesmos esquemas de sempre são executados, numa ilusão plástica e frágil de que o lucro e o crescimento económico vão durar para sempre. Até à próxima crise.

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