Hostiles

‘Hostiles’, engavetado nas trevas

Redenção. É esse o plácito duma grande parte dos filmes western de foro revisionista que preencheram o cinema norte-americano em meados do século XX. Longas-metragens, como Ulzana’s Raid (1972) de Robert Aldrich, que, através da exploração de protagonistas reincidentes na violência do wild west, tentam elucidar o espectador sobre as tensões vividas entre os chamados “pioneiros” e os nativos americanos. Baseado num manuscrito do falecido Donald E. Stewart, cedo se percebe ser esse o objetivo de Scott Cooper, autor de Crazy Heart (2009) e Out of the Furnace (2013), conforme é montada uma situação de inevitável convívio entre um grupo de soldados da Confederação liderados pelo Capitão Joe Blocker, interpretado por Christian Bale, e uma família de indígenas, ou “vermelhos”, como lhes chamavam na altura com tom de escárnio. Prestes a reformar-se, Blocker é incutido duma última missão: transportar um dos seus inimigos de longa data, Falcão Amarelo, um chefe Cheyenne, interpretado por Wes Studi, para a sua terra natal no Montana, onde este poderá passar os últimos dias da sua vida, vítima dum cancro terminal. Alegando a barbárie levada a cabo por estes, Blocker proclama de pulmão aberto o seu ódio aos índios e o quanto abomina a missão que é obrigado a aceitar, visto as ordens virem diretamente do presidente dos EUA, fruto duma decisão tão humanitária quanto plástica. E é talvez no destaque dessa exaltação inicial, unilateral e de foro racista, que Cooper condena, de certa forma, o seu filme a alguma inautenticidade, já que a expectável redenção virá, como todos estarão à espera, dessa fonte de ódio. Ao colocar a personagem de Bale na escuridão, no lado negro, sem reservas, sem precaução, o realizador norte-americano torna difícil crer que esta venha algum dia a estar do outro lado da barricada, banhada por ideias mais claras e progressistas. Pisada a argola, a jornada para o outro lado teria de ser extremamente convincente, honesta, o capitão Blocker teria de ver algo novo, diferente, ser alimentado por outras perspetivas que não as da violência e retribuição. Em suma, colocado o seu objeto de estudo no lado das trevas, Hostiles teria de fazer um esforço enorme para o trazer para a luz, operando na denominada “área cinzenta”, território onde a maioria dos grandes clássicos western, e não só, espetaram a sua bandeira. Entrava em jogo o aspeto em que a maioria dos filmes falha, a história.

Hostiles

Efetivamente, o guião de Cooper parece demasiado simplista e manipulador, repleto de entradas um pouco forçadas, excessivamente dedicado a dar ênfase às mesmas ideias e a ignorar as personagens nativas americanas. Provavelmente sem intenção, o cineasta arrasta o filme para um leque de incoerências emocionais que, mesmo que possam passar despercebidas, afetam a experiência como um todo. Todas as personagens, sem exceção, parecem funcionar como um espelho para a personagem principal, o homem branco que se afunda na própria vergonha, à medida que vai percebendo, e lhe vai sendo atirado repetidamente, a horribilidade dos seus atos transatos. Salvo uma viúva, interpretada por Rosamund Pike, encontrada pelo grupo de Blocker nos escombros da própria infelicidade, após toda a sua família, marido e filhos, ter sido assassinada por índios comanche, as restantes personagens parecem funcionar como carne para canhão, destinadas a servir um perfume sádico, reflexo da violência gratuita. Como tal, os arcos secundários, que são vários – o jovem soldado que matou pela primeira vez, o outro soldado exausto e deprimido, o soldado negro e os indígenas cujos comportamentos violentos do passado apontam para a legítima defesa -, têm tendência para se tornarem fantasmas módicos ao serviço dum tom melancólico, quase um filme de tese, que nunca se transforma num ensaio completo, sequer crítico ou arrojado. No meio de todos os tiroteios, gritos no vazio, cavalgadas ao pôr-do-sol e diálogos reflexivos, a ginástica que é feita para evitar tocar no enorme elefante que se esconde no cantinho da sala – o genocídio do povo nativo americano por pura avareza e racismo – torna-se extenuante, revestindo-se a obra de momentos tristes, poderosos até, dum ponto de vista dramático ou teatral, e extremamente bem filmados, não deixando, no entanto, de ter um centro vazio, já que a crítica política e social que se pedia, que implora a pés juntos para ser feita, é maioritariamente evitada.

Hostiles

Não obstante, Hostiles funciona bem como melodrama. O trabalho de todo o elenco, que, para além dos já referidos, conta com nomes como Rory CochraneJesse PlemonsJonathan Majors ou Ben Foster, é competente. Christian Bale segura o filme com unhas e dentes, demonstrando, mais uma vez, que é um dos grandes atores da sua geração. É legítimo até questionar se o filme não cairia em desgraça se não fosse pela interpretação profunda e amargurada do ator britânico, que consegue, confrontado com um guião bastante bipolar, preencher, tanto quanto possível, a tal “área cinzenta” ausente da escrita de Cooper. Porém, a verdadeira estrela cintilante de todo o projeto é a fotografia de Masanobu Takayanagi e a banda sonora de Max Richter. Juntos conseguiram oferecer ao filme uma aura metafísica que, em certa medida, compensa a tendência acrítica em relação aos comportamentos atrozes da época. A exploração de distâncias focais curtas, em que tanto objetos próximos como distantes são capturados de forma nítida no mesmo plano, oferece aos cenários escolhidos uma magia discreta e estóica, evocando os velhinhos westerns escondidos na gaveta dos fãs do género. Assim, a paisagem assume-se como testemunha da viagem moral do capitão Blocker, dá-lhe um deslumbre homérico e regalará os olhos do espectador mais paciente, que não se importa que um filme gaste vários minutos na contemplação do cenário natural. Apesar de, aparentemente, falhar na promessa grandiloquente de fazer justiça a uma narrativa mais que propícia a uma observação profunda sobre as motivações inerentes ao massacre dos nativos americanos, donos e senhores das terras invadidas pelos estrangeiros, Hostiles acaba por ser um western intenso, graças à competência técnica dos seus intervenientes e à carga dramática eficazmente despejada num enredo já antes visto. Pena que, no fim, o elefante continue escondido no seu canto, engavetado nas trevas.

Bom

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