Blade Runner

Hoje, ‘Blade Runner’ é um aviso

Este artigo contém spoilers.

Uma lágrima solitária liberta-se do olho artificial de Rachael, interpretada por Sean Young. Agarrado à frustração da sua investigação, Deckard, interpretado por Harrison Ford, talvez inconsciente do peso das suas afirmações, acabara de destruir a sua realidade, a essência do seu ser, as lembranças que esta tem duma vida que não aconteceu. “Essas não são as tuas memórias”. Ao som do piano melancólico de Vangelis, o polícia apercebe-se rapidamente do seu erro. Absorto na frigidez da sua profissão – capturar seres artificiais como ela – Deckard negligenciou o facto da replicant ter emoções iguais às dum ser humano. Independentemente da sua memória ser um implante, não será ela digna de consideração moral? Se é capaz de falar, chorar, raciocinar, resolver problemas, desejar, temer, sonhar, sentir, porque não atribuir-lhe o mesmo estatuto ético que o duma pessoa normal? O polícia tenta redimir-se com a oferta duma bebida alcoólica, um dos remédios prediletos do humano comum para as mágoas, porém, esta abandona o apartamento e deixa-o entregue às suas dúvidas. Afinal, o que o torna tão seguro da veracidade das suas próprias memórias? Lá fora, toca uma sirene que interrompe o pesadelo vazio da metrópole. Deckard vem à varanda. Como paisagem, um dos cenários mais envolventes e vivos da história do cinema.

Blade Runner

A narrativa de Blade Runner (1982) passa-se na Los Angeles de 2019, cidade para onde quatro replicants foragidos duma colónia interplanetária se dirigem com o objetivo de infiltrar a Tyrell Corporations, empresa de biotecnologia que os projetou, construiu e programou para uma vida de 4 anos. É justamente esta existência limitada que levou à revolta destes seres artificiais, iguais aos humanos fisicamente, que são criados com o propósito de realizarem os trabalhos mais degradantes ou perigosos para o ser humano comum: explorar planetas distantes, operar em minas lunares ou servir de “unidades de prazer”. Descobrir o paradeiro destes transgressores da ordem preestabelecida pelos humanos e eliminá-los é a missão de Rick Deckard, cargo denominado como blade runner. Nesta função de detetive atirado para um mistério, a personagem de Ford abandona-nos à mercê da distopia futurista idealizada pelo realizador Ridley Scott. Uma Los Angeles nada semelhante ao pedaço de terra ensolarado vendido amiúde pelas produções de Hollywood, suja, lúgubre, assaltada pela poluição e chuva constantes. Um circo endemoninhado, uma babel das trevas habitada pela multiculturalidade e diversidade de dialetos não-americanos. Nesta urbe destacam-se a presença ensurdecedora da tecnologia, estando os céus repletos de carros voadores e naves atulhadas de publicidade, e a desintegração social, mescla típica do estilo cyberpunk, notabilizado nos anos 80 pelo livro ‘Neuromancer’ de William Gibson. Porém, de nada serviria este exercício estético negro e pessimista se a cidade não fosse habitada pela balbúrdia da sobrepopulação, pelos milhares de corpos que enchem esta selva decadente de ruído e vapor de água. Nesse aspeto, nesse preenchimento e avivamento do cenário, Blade Runner continua a ser o exemplo a seguir, o marco incontornável que muitos filmes de ficção científica tentaram citar ou copiar e estrondosamente falharam. Ironicamente, existe neste ensaio sobre a existência pós-moderna um registo contrastante com o sci-fi: o estilo noir dos filmes dos anos 30 e 40. Focados habitualmente no protagonista detetive, os filmes do género, filmados a preto e branco, são marcados pelo aprofundar das questões psicológicas das personagens. Não obstante o fio condutor semelhante ao dum romance policial, caracterizam-se pela sua obscuridade e descrição da condição humana. No filme de Scott, além do enredo onde a presença do crime é uma realidade, as referências visuais a este estilo cinematográfico são imensas, desde o ambiente pesado e fumarento da maioria das cenas, a decoração do apartamento de Deckard, as gabardinas imortalizadas por Humphrey Bogart em The Maltese Falcon (1941), até aos visuais à la femme fatale exibidos por Rachael. Outra das características altamente relacionáveis com o traço noir é a apresentação do criminoso como uma personagem prazenteira, quase anti-herói, que perpetua o crime geralmente devido a circunstâncias extraordinárias, neste caso, os replicants que matam na missão desesperada de obter liberdade e mais tempo de vida, objetivo com o qual qualquer espectador se pode identificar. No entanto, o elemento mais fiel a essa feição cinematográfica é a personagem do detetive privado ora cumpridor da lei ora deturpador dos seus limites, elemento chave na exploração da ambiguidade do submundo criminal. Relembre-se que Deckard é um polícia aposentado, provavelmente devido à natureza cruel do seu trabalho, forçado a reintegrar-se nessa caça violenta ao andróide. Uma personagem com autoridade legal, mas que, ao mesmo tempo, segue um código próprio onde imperam técnicas inortodoxas e ilegais. Exemplo disso é a cena em que este descobre um dos replicants ao fazer-se passar por um comissário dos abusos morais com uma voz efeminada, referência aos métodos utilizados pelo detetive Philip Marlowe, igualmente interpretado por Bogart, em The Big Sleep (1946). À vista disso, o realizador e os guionistas Hampton Fancher e David Peoples, inspirados no livro “Do Androids Dream of Electric Sheep?” de Philip K. Dick, pegaram nesses elementos familiares do passado e usaram-nos para criar o futuro distópico apresentado e aprofundar as suas consequências: dois estilos cinematográficos distintos, noir e sci-fi, pincelados pelo subgénero cyberpunk, combinados pela primeira vez em prol da profundidade emocional e filosófica. Ademais, este festim dedicado aos devotos da ficção científica está lotado de referências mitológicas e religiosas. A cena onde essa dinâmica é mais flagrante mostra o encontro entre o replicant Roy, encarnado por Rutger Hauer, que pode ser considerado o antagonista principal, e o seu criador, Dr. Tyrell, interpretado por Joe Turkel. “Qual é o problema?”, pergunta o cientista. “A morte”, responde-lhe Roy, sedento por mais tempo de vida. Nesta cena, abunda a paródia ao encontro entre a criatura e o seu criador, Deus. O próprio cenário tem uma aragem de santidade, a sua arquitetura imponente relembra uma pirâmide, sendo a sua localização no centro da “Cidade dos Anjos”. Este esquema alegórico conduz o filme para um dos temas mais recorrentes do Homem: a busca fútil pela imortalidade ou, ao invés, por respostas relativas à mortalidade e à sua arbitrariedade. Em suma, toda a atmosfera criada, muito graças à fotografia encardida de Jordan Cronenweth e à banda sonora revolucionária de Vangelis, agrava a noção de “espaço impossível”, uma que descentraliza o mistério principal do filme e força as personagens, Deckard principalmente, a interrogarem-se: porque estou aqui? Qual o sentido da minha vida? Num mundo cada vez mais superlotado e tecnológico, como é possível encontrar real conexão humana?

Blade Runner

Por conseguinte, é no conto sobre o Homem e as suas criações artificiais que o filme de Ridley Scott se imortaliza como um ensaio, raramente igualado, sobre a relação preocupante da humanidade com a tecnologia. Embora ainda não existam viagens interplanetárias, carros voadores, nem algo que se assemelhe ao replicant, o realizador meteu o dedo na ferida de vários traços sociais e funcionais que, hoje em dia, já se fazem sentir de forma notória. Desde logo, o crescimento desenfreado da inteligência artificial. Robôs que fazem as tarefas domésticas, modelos sexuais, braços mecânicos que servem de operários ou cirurgiões, assassinos natos criados nos exércitos para matar com precisão, entre outros, demonstram que a era da inteligência artificial iniciou-se faz alguns anos. Como tal, vários economistas de renome prevêem que, até 2030, um terço do emprego mundial estará extinto, ocupado por máquinas. Previsões mais trágicas adivinham também que a corrida à inteligência artificial avançada, aquilo que na realidade poderão ser os primeiros replicants, vai despoletar vários conflitos, assim como enormes debates éticos. Que justificação é possível para a escravização dum ser que se revela tão emocional quanto o ser humano normal? Quais são os critérios para declarar um ser digno de consideração moral? Merece um ser biológico maior consideração do que um ser artificial, mesmo que este revele as mesmas aptidões físicas e emocionais? Por enquanto, as questões levantadas pelo filme continuam numa Caixa de Pandora, eternizadas, contudo, pelos cinemas e canais que continuam a exibi-lo. Mas, e quando a altura chegar? Faremos como na obra em questão, em que o ser artificial é escravizado, apesar da sua complexidade emocional? Deixamo-lo operar sem barreiras e limitações, apesar de poder, a qualquer momento, exercer a sua supremacia física e intelectual contra os seus criadores? Aplicadas na atualidade, as questões prementes do filme, que na altura do seu lançamento pareciam extremamente excêntricas, fazem cada vez mais sentido. Não só pela sua descrição da problemática social e psicológica trazida pelas máquinas inteligentes, mas também pela sua representação dum futuro onde a acentuação do fosso entre os ricos e pobres, estatística que se confirma na vida real, é flagrante e onde há um agravamento dos fenómenos climatéricos e da poluição urbana. Lançado em 1982, nunca um filme foi tão revolucionário e visionário. Na altura, as suas previsões foram consideradas ilusórias, mitos levados ao extremo em prol do entretenimento de alguns cinéfilos e dos aficionados da ficção científica e do movimento cyberpunk que havia nascido há pouco tempo. Hoje, Blade Runner é um aviso. As suas premonições em relação à depressão e solidão inerentes ao desenvolvimento tecnológico não podiam ser mais acertadas em comparação com o mundo atual onde cada vez mais pessoas, apesar das funções sociais de vários dispositivos inovadores, se sentem isoladas e confusas, alheias a uma vida social saudável e propensa ao toque humano. Curiosamente, neste neo noir audacioso são os replicants que demonstram maior afeição uns pelos outros. Talvez por terem consciência aprofundada da sua finitude, parecem aproveitar cada momento como se fosse o último. Já perto do final, Roy, à beira da morte, faz um discurso inesquecível sobre as memórias que deixa para trás. “Eu vi coisas que vocês humanos não imaginariam. Naves de ataque em chamas ao largo de Órion. Eu vi raios-c brilharem na escuridão perto do Portão de Tannhäuser. Todos esses momentos perderão-se no tempo, como lágrimas na chuva. Hora de morrer”. No desfecho, este pareceu ter experimentado mais em 4 anos do que a maioria das pessoas numa vida inteira. Talvez no coração negro desta obra resida uma mensagem otimista: vivam ao máximo, pois tudo tem o seu fim.

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