‘Hacksaw Ridge’, a falta de sumo ultrapassa a abundância de sangue

Hacksaw Ridge é um filme sobre a Primeira Guerra Mundial, que se encarrega de contar a história de Desmond Doss (Andrew Garfield), o primeiro objetor de consciência a ser condecorado com uma Medalha de Honra na história do Exército dos Estados Unidos da América. Apesar de um ritmo inicial molengão, as motivações por detrás desta predisposição para a não-violência são precipitadamente desmistificadas através do ensaio pouco realista daquilo que poderia ser uma família problemática não fossem todas as cenas desprovidas de dimensão psicológica. Um caminho fácil para o realizador Mel Gibson que evitou a todo o custo complicar o enredo. Pouco foi deixado para o campo da reflexão e muito foi deixado para o campo de treino, que acaba por se tornar a melhor sequência do filme devido a um sargento a la Full Metal Jacket versão cómica, interpretado por Vince Vaugh, e pela luta interna que quase dilacera as convicções do jovem Desmond Doss que sujeito a várias pressões nunca cedeu quanto ao seu intuito de ir para a guerra sem levar uma arma às costas.

A guerra em si é estrondosa e dura para os olhares mais sensíveis. Desde pernas despedaçadas, soldados a arder e uma falta de contextualização gritante, estamos perante o, cada vez mais típico, produto hollywoodesco destinado às massas, cuja intenção é impressionar e emocionar recorrendo aos lugares comuns do costume. Para quem procura algo mais profundo, a ausência de significados e agregados criativos desta obra pode tornar a experiência algo vazia, apesar das excelentes cenas de acção que vão, sem dúvida, catalogar entre as mais espetaculares dos últimos anos.

A mensagem é forte e urgente, no entanto a forma como é transmitida carece de sumo e conteúdo critico, sobrando uma personagem principal que aparenta apenas existir como pretexto para a criação de um cenário de pura carnificina. Uma estrela cintilante e solitária a reluzir no breu da noite, que partilha o espaço com o embaraçoso “peço desculpa” de um Mel Gibson demasiado preocupado em agradar a todos. O realizador de Braveheart (1995) perdeu assim a oportunidade de fazer um grande filme de guerra que pudesse colocar-se ao lado de obras como Saving Private Ryan, Paths of Glory ou Letters from Iwo Jima. E pior ainda, correndo o risco de vir a cair no esquecimento. Por falar em esquecimento, Desmond também tinha uma noiva mas essa vertente da história foi tão pobremente explorada que acabamos por acompanhar o corajoso soldado sem nunca realmente nos ligarmos a ele pois o mundo que o rodeia é escasso em alicerces emocionais. Para além disso, a monumental ausência de dualidade com que este é retratado fornece ao filme a sua derradeira falha: um herói que praticamente não tem dúvidas e que se alimenta de verdades absolutas. Muito sangue, pouco sumo.

 

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