‘Green Book’, um filme divertido e relevante

Chamam-lhe “crowd pleaser” ou “feel good movie”, uma longa-metragem produzida com o intuito de agradar a um grande número de pessoas sem que, no processo, a outra parte, a que está a ser criticada ou caricaturada, se sinta propriamente ofendida. Os cinéfilos mais acérrimos, os que já se banharam na lama de cineastas mais audazes, costumam ter um detetor para este tipo de filme, uma espécie de alarme que soa sempre que alguma obra se torna excessivamente sentimentalista ou até manipuladora, manobra essa reforçada por uma série de requisitos técnicos que se tornaram comuns em trabalhos do género, como, por exemplo, uma banda sonora melosa ou efeitos de câmara lenta que pretendem dar ênfase a certas ideias ou lições – à memória vem Meryl Streep a sair heroicamente do tribunal em The Post, enquanto um grupo de mulheres a fita duma forma prolongada e irrealista, como se o mundo em redor tivesse cessado todas as atividades para assistir ao momento. A máquina de Hollywood nasceu, cresceu e subsistiu à custa deste tipo de projetos que, todos os anos, atraem milhões de espectadores ao cinema, desertos por explorar histórias que os façam sentir-se incluídos na discussão social, pois, por norma, estará sempre escarrapachado no ecrã um dos temas mais polémicos do momento. Em 2016, Hidden Figures explorou o racismo institucional. Em 2017, The Post, numa altura em que o logro das fake news e o ataque aos media começou a ser evidente, abordou a luta pela verdade no seio jornalístico. E, em 2018 (2019 para o espectador europeu), Green Book, atirou-se ao absurdo do racismo sulista. Com cuidado e otimismo, claro está. Para esse efeito, o filme realizado por Peter Farrelly alimenta-se da história verídica de Don Shirley, um pianista negro que, na década de 60, fez uma digressão musical pelo “sul profundo” dos Estados Unidos da América na companhia dum motorista de origem italiana. Sim, Green Book é um “crowd pleaser”, o resultado duma fórmula algo simplista e repetida, um Driving Miss Daisy (1989) invertido. No entanto, é também um filme divertido e relevante que conta uma história singular duma forma minimamente emocionante e organizada.

Green Book

“Para umas férias sem complicações”, podia ler-se no ‘The Negro Motorist Green Book’, um guia de viagens destinado aos condutores afro-americanos que indicava os hotéis e restaurantes onde estes eram acolhidos e tolerados, já que, especialmente no sul do país, era proibida a sua entrada em vários locais públicos, além de terem obrigatoriamente de cumprir uma hora de recolha em cidades onde o fanatismo chegava a esse ponto – fazem apenas 50 anos que esta realidade se dissipou, pelo menos no âmbito legislativo. Em resposta a este pesadelo, Victor Hugo Green, um funcionário dos correios, resolveu então redigir esta espécie de TripAdvisor dos oprimidos, um conglomerado de folhas cuja necessidade de existir parece tão nefasta quanto surreal. Mas existiu. Depois das chaves do carro, um finório Cadillac turquesa, é este o utensílio fornecido a Tony Vallelonga, interpretado por Viggo Mortensen, um faz-tudo que viveu toda a sua vida no bairro do Bronx e é conhecido por consertar todo o tipo de problemas obscuros sem grande demora e alarido, o homem ideal para um trabalho invulgar: servir de motorista a um músico negro, interpretado por Mahershala Ali, instruído, contemplativo, genial, que pretende percorrer o sul dos EUA a mostrar o seu talento incomum à audiência sulista. A fórmula pode ser identificada – dois homens provenientes de panoramas sociais opostos, de etnias diferentes, com personalidades completamente divergentes, confinados ao mesmo espaço, a uma missão comum. E Tony é apresentado inicialmente como algo racista, sendo que não surpreenderá ninguém que este vá mudando ao longo da história. Porém, ao contrário do que muitos poderiam estar à espera, o realizador Peter Farrelly, conhecido pela sua queda para a comédia exagerada – Dumb and Dumber (1994) ou There’s Something About Mary (1998) -, em parceria com Brian Currie e o filho de Vallelonga, conseguiu criar, através duma série de diálogos fluídos e espirituosos, uma plataforma para explorar uma panóplia de ideias preconcebidas e rótulos frequentemente associados às questões raciais. O principal foco incide no enorme fosso entre os comportamentos do pianista e os que o seu guarda-costas e motorista considera consentâneos com o seu tom de pele. Por exemplo, Tony atira-se para a perplexidade quando Shirley lhe confessa que, devido à sua preferência por música clássica, nunca ouviu Little Richard ou Aretha Franklin, dois dos maiores símbolos musicais da luta pelos direitos civis afro-americanos, ou que nunca comeu frango frito. Com estes e outros momentos, foi arquitetada uma fuga à personagem padrão, um protagonista que, devido às suas qualidades intelectuais e artísticas claramente acima da média – “génio” alguns lhe chamavam – permite, na altura dos expectáveis confrontos, pôr em cheque a “Terra dos Livres”, pôr a nu o vil racismo que vive no coração dum dos países mais poderosos do mundo. Assistimos, portanto, à hipocrisia no seu ponto rebuçado, à estupidez com cara e olhos, quando as mesmas pessoas que convidam Shirley, o prodígio musical, para tocar nos seus salões opulentos, a seguir lhe apontam um minúsculo casebre nas traseiras onde este, o preto, pode fazer as suas necessidades. De apontar que, por mais bizarras que algumas das atitudes descritas no filme possam parecer, esta viagem cinematográfica foi sujeita a várias verificações de factos e as aventuras ilustradas são efetivamente autênticas, acrescentadas as devidas e óbvias nuances humorísticas ou dramáticas. Ademais, esta romaria pelo inferno é comandada por dois dos melhores atores da atualidade. Tanto Ali como Mortensen entregam duas interpretações dignas de registo, o primeiro num tom reservado, sereno, mas denunciador do motim que ocorre na mente do músico, o segundo imiscuído numa personagem que podia ter sido extraída dos filmes de gangsters de Martin Scorsese ou Francis Ford Coppola, tagarela, bruto, por vezes rude, mas humano. Juntos, materializam aquilo a que muitos chamam de “química”.

Green Book

Contudo, os heróis deste projeto talvez sejam o cinematógrafo Sean Porter e o cenógrafo Tim Calvin. Apesar de todos os planos serem filmados duma forma bastante simples e económica, são os pormenores que os preenchem que avivam a premissa psicológica da obra. Tudo começa na luminosa recriação da Nova Iorque dos anos 60, quer do Bronx, quer da calçada onde assenta o Carnegie Hall, a famosa sala de espetáculos por cima da qual Shirley vivia. Desde os transeuntes apressados revestidos pelas modas da altura, até os néons que iluminavam as ruas, todos os pormenores dos cenários permitem que maior seja o choque quando os dois homens passam desse sonho límpido e urbano para o pesadelo sulista onde quase tudo é antiquado e sujo, onde os carros citadinos são trocados por carrinhas de caixa aberta e as bocas de incêndio substituídas pelo ocasional cão vadio ou pela loja cuja montra é tudo menos atraente – a mutação visual do cenário é usada para enfatizar a alteração circunstancial das personagens. E as circunstâncias são definitivamente antagónicas. Ao longo da viagem de ano e meio, que na ficção foi reduzida a dois meses, os dois homens encontraram, entre as variadíssimas expressões de ódio racial, brutalidade policial e agressões em bares, dirigidas na sua grande maioria a Shirley. O grande triunfo do filme surge com a exploração desta personalidade praticamente única, um homem que, devido à sua formação num conservatório e aparente auto-exclusão da sociedade e dos seus problemas, não se consegue identificar ou misturar com os indivíduos que enfrentam esses mesmos desafios – homens e mulheres com os quais tem em comum um singelo, mas preponderante, pormenor: a cor da pele. Este desafio dos estereótipos tradicionais – “demasiado negro para ser branco, demasiado branco para ser negro”, diz a personagem de Ali a certa altura – atinge em cheio a nossa necessidade como sociedade de definir tribos e partidos, bolhas ideológicas onde inserir cada um que defenda certas linhas de pensamento ou apresente certas características físicas ou comportamentais. Tal como acontece com o pianista, somos obrigados a interrogar-nos “o que sou eu?”, quando devíamos estar a perguntar “quem sou eu?”. Pena que todas as questões levantadas sejam abordadas duma forma superficial e ligeiramente previsível, sempre com uma porta de emergência pronta a ser usada. Green Book é um bom filme, mas, lá está, a angústia não pode fazer parte do cardápio. No fim, temos de nos sentir seguros e entretidos, e não envergonhados do mundo medonho onde algumas pessoas já viveram ou ainda vivem.

Bom

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