‘A Single Man’, a cor e o sentimento

Com Nocturnal Animals o estilista Tom Ford mostrou, mais uma vez, que o cinema pode muito bem vir a tornar-se o seu habitat natural. Depois de criar um verdadeiro império na indústria da moda, Ford apresenta vontade de migrar para uma indústria onde já obteve aclamação no passado, sob a forma de uma discreta mas sublime adaptação da homónima produção literária de Christopher Isherwood. Falamos de A Single Man de 2009.

Transportando-nos para uma realidade cinzenta em que George Falconer, um professor de literatura interpretado por Colin Firth, faz os preparativos para aquele que aparenta ser o último dia da sua vida, A Single Man navega por águas já conhecidas mas sem nunca deixar de parte o toque estilizado e original do seu realizador. Após ter perdido o seu companheiro de há dezasseis anos num acidente de carro, George é um homem destroçado que interrompe a sua rotina com os preparativos para o seu suicídio. Conscientes desta realidade, acompanhamos-lo enquanto este enfrenta o dia em que, supostamente, vai pôr termo à sua vida. E o seu dia é normal. Mundano. Aborrecido até. No entanto, Ford consegue, através de um uso delicado da cor e de filtros visuais, dar-nos um vislumbre do que George está a sentir criando uma aura de intimidade incrivelmente concebida. O normal transformado em especial através do apelo visual. E é de forma subtil que começa este jogo de cores que, inicialmente, quase passa despercebido mas que vai ganhando relevância consoante George interage com o mundo ao seu redor. Uma grande parte do filme desenrola-se em cores esbatidas e acinzentadas como se o mundo estivesse envolto por um surto de palidez. Porém, sempre que George interage com algo ou alguém que o faz, por breves momentos, repensar o sentido da vida, o ecrã ilumina-se dando espaço a cores fortes e vivas que preenchem o rosto das personagens e nos presenteiam com um mar de vividez. A vida colorida tal e qual como ela é, anteriormente esbatida pelo filtro morto que Ford inteligentemente usa nas secções mais solitárias do filme.

Com as participações de Julianne Moore e Nicholas Hoult que, tal como Firth, fazem um trabalho exemplar, A Single Man é um filme que explora as consequências psicológicas que a solidão e o desgosto emocional podem ter no ser humano comum e a forma como a interação com outras pessoas pode inverter essa tendência. Apesar do ritmo moderado do filme, a catarse é inesperada e fugaz, fazendo valer a pena a paciente aposta do espetador.

Partilhar