Fences

‘Fences’, uma casa cheia de talento

Fences é a reprodução cinematográfica da peça de teatro homónima, escrita por August Wilson em 1983, que conta a história da família Maxson na década de ’50 em Pittsburgh, Pensilvânia. A dinâmica deste argumento aclamado centra-se na relação entre Troy Maxson (Denzel Washington), a sua esposa Rose (Viola Davis) e o seu filho Cory (Jovan Adepo). Confinados a um espaço comum, a pequena habitação em que vivem, mãe e filho são condicionados pela personalidade difícil de Troy e pelas suas imposições. Entre vários prémios, a peça ganhou o Tony de Melhor Peça e o Pulitzer para Melhor Drama, ambos em 1987. Porém, esta adaptação ao cinema de Washington sofreu desde logo um reparo por parte de alguns entendidos que afirmam que o filme se trata duma mera peça de teatro filmada que recebeu um tratamento “burocrático” e pouco criativo devido ao número excessivo de cortes e planos fechados. Longe destas observações se encontra este ensaio crítico, que opta por vangloriar o cinema como arte ímpar e que apresenta uma diferença enorme em relação ao teatro: numa peça, a visão que se tem do palco está sempre dependente da posição do espetador em relação a este. Uma pessoa que se encontra nas filas da frente numa posição central terá tendencialmente uma perceção diferente da pessoa que se encontra num dos cantos ao fundo da sala. Fundamentalmente, no teatro não há como todos verem o mesmo. Por seu lado, o cinema oferece uma visão igualitária a toda a audiência, pois o que o público vê é o que o realizador e o diretor de fotografia pretendem mostrar em termos de enquadramento, cenário, luz, perspetiva, ângulos, entre outros. E é ao usufruir de todo este potencial que Washington foge ao teatral, criando a sua própria mise-en-scène e utilizando o cenário como aliado. Por exemplo, são várias as sequências em que o cenário é utilizado para aprofundar a distância emocional entre as personagens, sendo estas colocadas em lados opostos do plano ou em divisões diferentes. Outro exemplo é a forma como a tristeza de Rose, que vive confinada à prisão psicológica que ela própria ajudou a criar, é representada. É frequente vê-la dentro de casa a pairar por corredores apertados, enfraquecida por este sentimento de claustrofobia emocional apenas possível de transparecer pelos close-ups que permitem detetar a angústia nas suas expressões faciais. No teatro, tudo isto é praticamente inatingível pelo simples facto do espetador ver tudo à distância. O poder do plano fechado remete-se para o cinema, e o que alguns chamam de “burocrático”, outros poderão chamar de mestria e aproveitamento do potencial da sétima arte. Fica a discussão.

Viola Davis em 'Fences'

Quanto ao filme em si, estamos perante um drama competente. A maioria das cenas passam-se no interior da casa onde a família Maxson vive ou no quintal das traseiras onde as cenas fulcrais acabam  sempre por ir parar. Troy, interpretado por Denzel, é uma alegoria profunda ao narcisista e machista, ainda latente na cultura ocidental, que faz questão que o mundo dentro de sua casa gire à volta das suas decisões e historietas que conta pela vigésima vez. No reverso da medalha, temos a sua mulher Rose, interpretada por Viola, que aprendeu a conviver com esta situação, apesar do seu desconforto ser notório, principalmente quando a fixação de Troy com o passado influencia a vida do filho que têm em comum. Ambos os atores fazem um trabalho extraordinário, podendo arriscar dizer-se que este é o melhor trabalho das suas carreiras. A forma como enchem a casa (o tal cenário) de sentimentos é magnífica, transformando aquele que poderia ser um filme banal, devido ao quão preso está ao mesmo local e à mesma temática, numa experiência profunda e com a qual muitos espetadores se poderão identificar. O resto do elenco que vai indo e vindo também faz um excelente trabalho. Atores como o praticamente desconhecido Stephen McKinley ou Mykelti Williamson (Bubba em Forrest Gump) dão vida a personagens secundárias que contribuem para a crescente perceção das motivações da personagem principal. Fences é sem dúvida o trabalho mais competente de Denzel Washington como realizador até à data e, apesar de não ser muito emocionante, é o reflexo dum contexto social e duma maneira de ser que está muito enraizada em várias culturas. Por agora, confina-se à sua existência simplória num mercado onde a demanda por coisas mais “grandiosas” se faz notar. No futuro, poderá vir a tornar-se num clássico. Um dos filmes que os nossos descendentes irão mostrar aos seus filhos como um exemplo da metamorfose que a vivência em família tem sofrido ao longo das últimas décadas.

Bom

 

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