‘Eurovision Song Contest: The Story of Fire Saga’, o escárnio é apetitoso

Uma piada não é mais que uma falha exposta em público. Todas as graças têm uma vítima: uma pessoa, um grupo de pessoas, uma ideia, uma tendência, uma instituição, um país. Por essa razão, buscando conhecer as fraquezas e defeitos do alvo da chacota, há que se estar informado. Steve Martin define o comediante como uma “máquina de pensar”, um organismo tolo que analisa o que o rodeia e captura os traços risíveis de cada canto do mundo, de cada rosto da multidão. Tudo é usável, tudo tem combustível para ser troçado. Do mais infantil ao mais obscuro. A procura constante pelo erro pode escudar o cidadão comum, tornar-se num interruptor emocional que lhe desliga momentaneamente as preocupações. Sob tal ponto de vista, o globo deixa de ser tão ameaçador quanto parece. Afinal, ninguém sente temor de algo que ache hilariante.

Contudo, não deixa ser atribuído, hoje mais que nunca, uma conotação exagerada ao riso. Aos “profetas” deste perguntam, sem grande fundamento, qual o seu poder. Como a atualidade comprova, não é uma piada que impede uma eleição, não é uma piada que remedeia uma catástrofe. Não foi com uma cabeleira ruiva e um bronze alaranjado que Alec Baldwin convenceu o povo americano a não votar em Donald Trump. Segundo esta perspetiva, o humor acaba por ser inconsequente e inútil. Logo, se o declínio ético do ser humano, assim como a sua mortalidade, é um estrago inevitável, existirá razão para nos ofendermos perante uma piada? A comédia somente oferece um ponto de vista mais saudável. Um aconchego que se oponha ao “mau gosto” que muitos assumem precocemente. Uma piada só é má se não tiver piada. Da mesma maneira que uma comédia só é má se não for engraçada.

Onde se inserem outras manifestações criativas no assunto? Quando o material de génese permite, os subscritores do streaming audiovisual são expostos a visões atentas às inquietações e incoerências do quotidiano. A Netflix, por exemplo, para além de distribuir séries de relevo como ‘BoJack Horseman’, ‘Sex Education’ e ‘After Life’, é uma assídua investidora em especiais de stand-up comedy de dezenas de humoristas. No entanto, no que toca ao Cinema, tem ficado consideravelmente atrás, com imensos projetos a roçar a mediocridade. Entre eles, comédias românticas como ‘The Lovebirds’ (2020) e praticamente tudo o que Adam Sandler cozinha. Claro que nem as reações mistas ou negativas desmotivam a corporação rainha.

Todavia, não estivesse a vontade dos Estados Unidos da América de se rirem da Europa a desvanecer, não deixa de ser curioso que, após a vitória portuguesa no Festival Eurovisão da Canção de 2017, uma produtora dominante tenha investido milhões de dólares numa piada “batida”. Assim como na vontade que tinha o produtor executivo Adam McKay de ver Will Ferrell com uma peruca, um sotaque anómalo e indumentárias excêntricas a satirizar o mundo da música plastificada, algo vislumbrado no primeiro material publicitário. Posto isto, assinalem-se as inconsistências de ‘Eurovision Song Contest: The Story of Fire Saga’, realizado por David Dobkin.

Como qualquer adepto acérrimo da liberdade de expressão defenderá, é perfeitamente legítimo um artista parodiar o fenómeno que quiser. Se a sua intenção é fazer rir, seja bem-vindo. O mundo bem que precisa. Nem tudo tem de ter uma mensagem, uma ideia central que visa sensibilizar audiências, tecer provocações ao estigma político ou questionar manias e vícios da sociedade. A caturrice, por si só, consegue ter valor. Contudo, quando um povo decide caricaturar outro, que nem uma criança a fazer pirraça com um dedo apontado, em último caso com algo a dizer, há que assinar um certo estudo. Isto para que a comédia, por mais nonsense que seja, tenha o seu sentido. É de esperar que um cidadão dos EUA se sinta tentado a rir do norte-europeu, que tem um dialeto diferente, uma gastronomia diferente, uma sensibilidade artística diferente. Muito ao jeito do português a fazer pouco do brasileiro, do espanhol a fazer pouco do português. E por aí fora. Há que ter fair play, rirmos de nós próprios, substituir o desacato pelo livre espírito. Afinal, ninguém está livre da imperfeição. E seja onde for, o escárnio é apetitoso.

Entre as lições esculpidas pela dramaturgia portuguesa do século XVI, época em que Gil Vicente começou a ser aplaudido, ficou redigido “ridendo castigat mores” — traduzido do latim, “a rir se castigam os costumes”. Que costumes aqui existem para castigar?

Com a história de uma dupla musical islandesa fictícia que luta pelo sonho de vencer a Eurovisão, estariam os guionistas Andrew Steele e o próprio Will Ferrell à procura de quê? Numa narrativa que peca grosseiramente pela sua previsibilidade e uma fórmula de ascensão do artista cansativa e mais que rebatida, o principal entrave à credibilidade da sátira faz-se sentir imediatamente na primeira cena. Um erro colossal de qualquer “imitação” cinematográfica: a incoerência de idiomas. As personagens reconhecem a sua nacionalidade, assim como os seus compadres e cada fã do concurso espalhado pelo continente. Soltam expressões populares dispersas no discurso, tecem tontarias sobre as particularidades do seu país e do estrangeiro. Sem jamais abandonar o inglês.

Mais que o canudo que levou para casa, Salvador Sobral, intérprete de ‘Amar pelos Dois’, proclamou uma pertinente chamada de atenção: “A música não é fogo de artifício, a música é sentimento”. Uma oposição perante uma Europa e um mundo cúmplices de uma expressão artística que se vê obrigada a dar lugar a uma total falta de substância, um conjunto de letras com significado que virou espetáculo bacoco. Sendo assim, o que retirar da vitória da balada composta por Luísa Sobral que detém o recorde de maior pontuação na história do concurso? Coloca-se a mesma pergunta aquando da vitória de ‘Parasite’, a obra do coreano Bong Joon-ho, na última edição dos Óscares: terão o público e os júris internacionais igual apreço pelos produtos que abraçam a identidade singular da sua língua e da sua cultura?

Antes de o Covid-19 impossibilitar a edição de 2020, centenas de melodias se fortaleceram com luzes, adereços, vestuário, auto tune e a supremacia do inglês perante idiomas praticamente desconhecidos fora do seu território. Poderiam surgir repercussões artísticas interessantes, um conformismo que se livrasse da clausura. Além disso, depois do sucesso de tantos projetos de língua não-inglesa, como o filme espanhol ‘El hoyo’ (2019) e a série alemã ‘Dark’, porque terá a Netflix optado por este caminho? Seria assim tão rebuscado idealizar um filme sobre a Eurovisão, satírico ou não, que reunisse várias nacionalidades? É extremamente irónico que uma história sublinhe a desatenção dada a uma série de idiomas únicos e que, no processo, priorize a língua universal do costume para chegar a esse mesmo propósito.

Como garantiram os Monty Python e os Gato Fedorento, uma comédia não precisa de sentido para ser engraçada. Em prol de umas gargalhadas, qualquer recanto da realidade pode ser quebrado. No entanto, no Cinema, ao contrário daquilo que acontece num sketch, o objetivo é fazer o público acreditar no que vê, no que ouve e no que sente. Se a receita depende assim tanto do inglês, para quê adotar dialetos e estrangeirismos que não farão mais que atrapalhar o foco? Nem comédias como ‘The Death of Stalin’ (2017), de Armando Iannuci, nem dramas como a minissérie ‘Chernobyl’ (2019), de Craig Mazin, necessitaram de tais utensílios. E ambos se consagraram como exemplos a seguir no respetivo género — sátira política e biografia histórica.

A somar a este fatal defeito do guião, que deveria ter sido travado antes de fecundado, ainda se testemunha, durante mais de 120 minutos, o descarrilamento de uma panóplia de intenções que não passam disso, de intenções. Depois de uma carreira assente em comédias memoráveis como ‘Shanghai Knights’ (2003) e ‘Wedding Crashers’ (2005), o realizador não sabe aonde ir. Não sabe se quer fazer do seu filme uma paródia descomprometida, uma sátira sobre a conceção da arte e o seu consumo, uma crítica ao público, uma homenagem à música — algumas sequências musicais têm mais cara de videoclip que outra coisa —, ou ao concurso em si — imensos concorrentes estão presentes em cameos —, um comentário sobre a economia que alimenta futilidades, ou sequer um drama sobre seguir sonhos que deva ser levado a sério.

E nem mesmo o tom cómico é definido com rigor. As quedas e desavenças embaraçosas que cimentaram a carreira eclética de Will Ferrell estão presentes. O regozijo lacrimejante do fã está garantido, tal como o gozo do espectador casual. No entanto, possivelmente dano colateral da sua ambição, o ator não soube equilibrar a comédia family friendly com a morbidez do humor negro. E tal convivência entre tons só gera confusão e um sabor agridoce.

A verdade é que pouco sobra para elogiar sobre ‘Eurovison Song Contest: The Story of Fire Saga’. O duo que dá nome ao filme, composto por Sigrit Ericksdóttir e Lars Erickssong, interpretados por Rachel McAdams e Ferrell, é um motor narrativo cativante. Acompanhar a sua jornada é minimamente divertido. As personagens têm direito à sua profundidade, apesar de a maior parte dos seus comportamentos e fantasmas não passar de arquétipos. O par tem uma química inesperada, não descambam quando têm de cantar e sustentam a vivacidade da história, juntamente com a esplêndida direção de arte ao serviço da fotografia colorida de Danny Cohen. O elenco inclui, para além da inutilidade das personagens de Melissanthi Mahut, Demi Lovato e Mikael Persbrandt, um Dan Stevens dedicado na pele de um cantor russo mulherengo e insolente. Já Pierce Brosnan para figura paternal de Will Ferrell é uma escolha de casting que nunca funciona.

No que toca à banda sonora, o derradeiro requisito para um filme sobre música, o compositor islandês Atli Örvarsson, com carreira sobretudo em séries, cumpre o seu dever com exatidão, assim como os cantautores internacionais responsáveis pelos temas cantados pelas personagens principais e que facilmente serão assobiados por quem continue a ver os créditos a desenrolar. Para não mencionar, claro, os clássicos que se fizeram conhecer na competição, como ‘Waterloo’, do grupo sueco ABBA, e ‘Ne partez pas sans moi’, da canadiana Céline Dion.

Em 2000, Will Ferrell casou-se com a atriz sueca Viveca Paulin. Em 1999, esta havia-lhe apresentado o Festival Eurovisão da Canção, ano em que o seu país de origem acabaria por vencer, com a música ‘Take Me to Your Heaven’, de Charlotte Nilsson. A música fora apresentada ao mundo em inglês, apesar de, em fase de seleção do representante do seu país, ter estreado o palco no idioma doméstico — o título original é ‘Tusen och en natt’. O ator americano diz ter sido essa a altura em que se interessou pelo Festival. Em 2018, visitou a edição organizada em Lisboa, conversou com os concorrentes e conheceu o backstage, com o intuito de procurar inspiração para as personagens e para a trama. Não é difícil crer que o americano de 52 anos tenha um grande respeito pelo fenómeno, apesar de este estar a perder popularidade ano após ano. Nos palcos lusitanos, entre ‘Sol de Inverno’, de Simone de Oliveira, ‘Playback’, de Carlos Paião, ou ‘Chamar a Música’, de Sara Tavares, serão muitas as melodias submetidas que ficaram para ser recordadas? Quando foi a última vez que, num círculo social sustido a gostos musicais semelhantes, se comentou alguma cantiga da Eurovisão?

Numa dada cena, Ferrell dirige um aceno de reprovação aos americanos, um olhar severo sobre o desprezo que o país do Tio Sam tende a manifestar sobre tudo o que é feito fora da sua influência. É evidente que, enquanto o ocidente continuar a importar cada evento popular dos EUA, ter-se-á pouca razão de queixa. Claro que, como todos os pontos promissores desta cantoria fílmica, também este momento não ultrapassa a tangência. Trata-se de mais um alívio cómico recorrente — uma personagem pergunta, inclusive, se a Eurovisão não é uma cópia barata do The Voice. Ainda que a receção não supere a gargalhada nem uma reflexão sisuda, há que não deixar de ridicularizar o costume. Pois, porque sobre empobrecimento artístico ainda existe muito para ser dito.

Texto: Francisco Quintas

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