‘Euphoria’, um festim audiovisual

Em 1943, o existencialista Jean-Paul Sartre, no livro «L’être et le néant: Essai d’ontologie phénoménologique», introduziu no meio académico o conceito de “le regard”, ou “gaze”, traduzido para inglês. De acordo com o filósofo, o ato de mirar outro ser humano cria um poder subjetivo de diferenciação, sentido por quem observa, mas também por quem é observado, fazendo com que o segundo se torne um “objeto”. No seguimento desta teoria, em 1975, com a Sétima Arte como pano de fundo, a professora e crítica de cinema Laura Mulvey desenvolveu a teoria do “male gaze”. Segundo esta, numa obra fílmica, o “male gaze” ocorre quando é dada à audiência a perspetiva de um homem heterossexual sobre uma personagem feminina. Neste processo, mesmo que inadvertidamente, a personagem da mulher passa a configurar-se como um mero objeto de contemplação erótica. Exemplos maiores desta teoria são os filmes da saga ‘007’. Por sua vez, Alfred Hitchcock foi igualmente um ávido explorador desta característica, não por defeito, mas por escolhas criativas coladas à noção clássica de voyeurismo. Também se poderá referir Jonathan Demme que, em ‘The Silence of the Lambs’ (1991), usa o “male gaze” duma forma inventiva para ilustrar a luta constante duma agente novata do FBI, interpretada por Jodie Foster, contra um ecossistema laboral dominado por homens.

Porém, na viragem do século, vários realizadores passaram a usar o “male gaze” como uma arma barata e demasiado frequente, principalmente em blockbusters, notando-se uma clara masculinização da experiência cinematográfica, efeito que transbordou para o dia a dia dos espectadores, chegando-se, aos poucos, a uma sociedade digital onde o culto do corpo atingiu um exasperante nível de importância. Para mais, vários entendidos acreditam que esta tendência inerente à cultura popular, apesar duma progressiva correção, contribuiu para a preservação dum sistema de valores ultrapassado em que existe uma perceção subconsciente de que o sexo masculino é superior ao feminino — o “male gaze” é, no fundo, uma expressão artística e, por vezes, inconsciente da desigualdade de géneros. Nos últimos anos, duma forma tímida e cuidada, têm surgido vários filmes onde já se pode apontar a existência do que pode ser considerado um “female gaze”, mas nenhuma destas abordagens atingiu o sucesso desenfreado dos seus contrapartes.

Saltemos, então, para ‘Euphoria’, um drama sobre adolescentes, criado por Sam Levinson, no qual se destaca uma personagem em particular: Jules, uma adolescente transexual, interpretada pela também transexual Hunter Schafer. Graças a um vestuário exuberante e uma mentalidade destemida, a personagem emana uma energia transcendental, transformando-se num inevitável íman de atenção, quer para o espectador, quer para as personagens que a rodeiam, do sexo masculino e feminino, com destaque para um pai, interpretado por Eric Dane, cujo fetiche é ter relações sexuais com transexuais.

Como tal, apesar de algo semelhante já ter sido tentado na série ‘Transparent’, e em alguns trabalhos independentes, é seguro afirmar que Jules é a primeira personagem transexual a ser alvo do “male gaze”, não só devido aos acontecimentos da narrativa, mas também pela forma como a equipa criativa expõe as suas características físicas. Esta foi uma decisão corajosa de Levinson que, com a ajuda do treinador de sensibilidade transgénero, Scott Schofield, conseguiu transformar uma escolha muito delicada e complexa num enorme triunfo. O imaginário montado à volta de Jules nunca parece meramente exploratório, evocando antes uma refrescante fluidez sexual. Por outras palavras, é talvez a primeira vez que um transexual é objeto de atenção e desejo sexual num filme ou série de televisão mainstream, relegando para a obliteração a habitual prosa sobre o transexual que é rejeitado e mal-tratado. E, ao invés de tentar produzir um momento “gotcha”, uma espécie de plot twist em que os espectadores do sexo masculino e heterossexuais, passados vários episódios a nutrir encantamento pela irreverente Jules, acabavam por descobrir que esta tem um pénis, o guionista e realizador assume as particularidades da personagem logo no primeiro episódio, o que transforma tudo o que se segue numa experiência psicológica ainda mais peculiar, potencialmente confusa, talvez transformadora para alguns. É igualmente inevitável anotar o tom perverso deste processo devido ao facto de a personagem ser menor de idade, apesar de a atriz ter 20 anos na vida real. Pois, a missão desta série da HBO não é somente surpreender e inovar, mas também chocar.

Com tal finalidade, entra em cena a narradora e personagem principal, Rue, interpretada por Zendaya, uma jovem viciada em vários tipos de drogas que, depois duma overdose, faz a sua travessia pela sociedade pós-11 de setembro, evento que esta associa simbolicamente à sua vida, já que nasceu três dias depois do ataque terrorista, numa altura em que os dois prédios a ruir eram tudo o que se via na televisão: sem que nunca exista uma exposição alargada sobre o assunto, esta vai dando dicas para estado de espírito da nação. O que faz a personagem sobressair é a capacidade da atriz de acompanhar a volatilidade do guião escrito por Levinson, saltando entre reparos associados ao seu estado de depressão e momentos extemporâneos em que quebra a “quarta parede” — comunica diretamente com a audiência — e, por exemplo, faz uma exposição pormenorizada sobre a arte de avaliar uma “dick pic”. É nestes momentos inesperados que a série liberta o seu polémico ácido, tão corrosivo quanto sincero. Desde fotos de pénis eretos, passando por sextapes protagonizadas por raparigas que desconheciam estar a ser filmadas ou adultos a fazerem sexo com menores, até cenas em que adolescentes ingerem inúmeras drogas sintéticas, o deboche aponta descaradamente para os problemas da nova geração juvenil que, ao contrário de todos os adultos do planeta, cresceu inteiramente na época das redes sociais.

Chegou ao ponto de o Parents Television Council, um grupo cuja missão é identificar os produtos de entretenimento que possam ser prejudiciais para os jovens, avisar os pais para o perigo dos seus filhos verem a série. O mais irónico é que, provavelmente, as pessoas que potencialmente ficarão mais chocadas ao assistir a ‘Euphoria’ serão precisamente os encarregados de educação que, no seio da sua ingenuidade ou simples desatenção, preferem acreditar que os filhos, apesar dos evidentes avanços tecnológicos, estão a ter uma adolescência igual à sua — a ilusão não podia ser maior. Duma forma dura e explícita, ligeiramente gratuita amiúde, Levinson, através de vários capítulos que vão do deprimente ao caricato, vai alertando para a facilidade com que os jovens norte-americanos podem aceder a uma catastrófica panóplia de conteúdos para maiores de idade, uma dinâmica que os submete implacavelmente a uma noção grotesca do que deveria ser um desenvolvimento pessoal e social saudável. Por exemplo, salta à vista a cena em que Rue, num tom pachorrento, fala sobre a forma como a pornografia está a influenciar a vida sexual dos seus colegas, graças a sites repletos de vídeos onde as mulheres são cuspidas, esbofeteadas, pisadas, e, além disso, onde são criadas expectativas completamente irrealistas em relação ao sexo.

Tudo isto é acompanhado por um trabalho de câmara fascinante. Realizados pelo próprio Levinson, Augustine Frizzell, Pippa Bianco e Jennifer Morrison, com a fotografia maioritariamente entregue a Marcell Rev, todos os episódios, acompanhados por uma edição frenética, apresentam pormenores extravagantes e surpreendentes. À memória vêm alguns planos-sequência que fariam Martin Scorsese orgulhoso — nunca uma entrada na típica festa caseira de liceu foi tão bem filmada — ou um corredor movediço em homenagem a ‘Inception’ (2010) de Christopher Nolan, sequência ilustrativa duma enorme “moca” que se apoderou da protagonista. Para mais, existem ocasiões em que é difícil decifrar quais foram as técnicas utilizadas para dar vida a determinadas cenas, o que leva a crer que se possa estar perante algo nunca antes executado. A banda sonora de Labrinth traz, do mesmo modo, a irreverência necessária, com uma oscilação entre a aspereza de sons eletrónicos e a clareza de instrumentos como o piano ou a guitarra.

Consoante o leque de situações controversas se vai multiplicando, sendo que, a cada episódio que passa, Rue amontoa contos sobre a infância das outras personagens e, consequentemente, os motivos pelos quais estas exibem os problemas expostos na narrativa, vai-se assistindo a uma modernização, a um upgrade geracional, do que já foi visto em ‘Less Than Zero’ (1987), a história dum caloiro da faculdade que, na década de 80, tem de lidar com o vício da heroína, ‘Kids’ (1995), um dia na vida dum grupo de adolescentes que, na década de 90, partilham as rampas de skate, drogas pesadas e sida, ou séries como ‘Skins’ e ‘Degrassi’, que, à semelhança de ‘Euphoria’, provocaram um surto parental devido à forma como a vida dos adolescentes após a viragem do milénio é descrita. Agora, o seu herdeiro reforça esse cabaz recheado de doçarias desconfortáveis com uma vivência focada na interação digital. Uma parte importante da série da HBO é a demonstração da intimidade, ou a falta dela, no mundo online, através de apps de encontros, webcams e sms. São várias as personagens que constroem algumas das partes mais importantes da sua vida atrás dum ecrã, na segurança do teclado. Este arco coletivo aponta para a forma como todos nós, mas principalmente a nova vaga de adolescentes, estamos, em certa medida, a falsificar os conceitos de amizade, paixão e proximidade. E é neste aspeto que a obra talvez tenha metido o pé na poça. Nesta história, à exceção duma única situação, o resultado da experimentação das alternativas online é, invariavelmente, a ruína psicológica, degradação e violência. Na tentativa de exemplificar o quão perigosas são as plataformas digitais para os jovens, Levinson esqueceu-se de que, muitas vezes, são as redes sociais a resgatar muitos jovens do fundo do poço, ao oferecerem-lhes grupos compostos por pessoas que atravessam problemas semelhantes e nos quais se podem expressar livremente. Em suma, ‘Euphoria’ apresenta um mundo hiper-pessimista, onde quase tudo vem acompanhado duma conotação negativa ou fraudulenta. Portanto, extraindo da equação a cinematografia hipnotizante e, porventura, distrativa, e a exposição agressiva dos desafios das personagens, cada um mais funesto que o outro, qual é a mensagem desta obra? Poderá encontrar-se, no meio da controvérsia, algum tipo de crítica social, senão a que é evidente? São óbvias as alusões à masculinidade tóxica, à violência no namoro ou ao caos causado pelas novas tecnologias. Mas, não estaremos perante território já descoberto e calcado? Se bem que é comum algumas séries gastarem o tempo da primeira temporada a promover o apego do espectador ao íntimo das personagens, relegando incursões macroestruturais para as temporadas seguintes, fica a sensação de que esta em particular ainda não encontrou a entrada secreta para a terra da relevância, ficando-se, por enquanto, por um exercício incendiário, um festim audiovisual que, apesar de quebrar vários estereótipos, carece de pertinência. O fogo arde a olhos vistos, a sociedade moderna falhou a estes jovens, resta saber porquê. Para grafar o nome no muro dos clássicos, há que ir ao fundo da questão.

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