‘Devs’, as tendências messiânicas de quem concebe o código

O escritor Frederik Pohl costumava dizer que os autores de ficção científica devem ter como missão “prever não o automóvel, mas sim o engarrafamento”. Parece ser esta a predisposição de Alex Garland, um guionista e realizador que tem dedicado a sua vida a explorar as potenciais consequências das mais bizarras e fictícias criações do Homem imaginário. Depois de ’Ex Machina’ (2014) e ‘Annihilation’ (2018), a sua nova obsessão e, de certa forma, continuação das ideias exploradas nos títulos mencionados, é o imenso poder almejado pelas grandes empresas tecnológicas.

O início de ‘Devs’, uma minissérie de oito episódios, não foge muito da típica premissa do thriller criminal comum. Sergei, um programador interpretado por Karl Glusman, é recrutado para juntar-se à equipa de “Devs”, uma secção especial da empresa tecnológica Amaya, cujo nome faz homenagem à filha perdida do CEO, Forest, uma espécie de mistura entre a casualidade de Steve Jobs e a frivolidade de Mark Zuckerberg, encarnado por Nick Offerman, um ator de comédia que assenta que nem uma luva no tom dramático desta história. Já dentro das instalações reservadas ao misterioso projeto, um local idílico, dourado, atulhado de tecnologia de ponta, Sergei é apresentado a algo fenomenal e assustador, à medida que o seu rosto denuncia espanto e horror, sensações contraditórias que o levam a cometer um erro grave. Cabe a Lily, a sua namorada e também funcionária da empresa, interpretada por Sonoya Mizuno, vasculhar as migalhas deixadas para trás.

Contudo, esta premissa inicial serve apenas de turbante a um penteado deveras singular. O que se esconde por baixo do capô do projeto “Devs”, e que, rapidamente, se transforma no motor da narrativa, despoleta uma interessante reflexão sobre as consequências do avanço tecnológico, privacidade, religião e livre arbítrio, temas recorrentes no cyberpunk, subgénero que nasceu nos anos 60 e 70, graças às obras literárias de Philip K. Dick e J.G. Ballard, tendo sido reforçado nos anos 80 por trabalhos como o livro de William Gibson, ‘Neuromancer’, o filme de Ridley Scott, ‘Blade Runner’, a manga de Katsuhiro Otomo, ‘Akira’, podendo ainda referir-se entradas recentes, como ‘Blade Runner 2049’ ou ‘Westworld’.

Contudo, a minissérie subverte o cenário típico do cyperpunk, apesar de manter as suas ideias fundamentais. Enquanto os cenários das obras referidas apresentam distopias pessimistas e sujas, regadas de luzes néon e engenhocas, focadas nas eventuais e dantescas consequências do capitalismo e da irresponsabilidade ambiental, tecnológica e social, o mundo de ‘Devs’ transpira normalidade e tranquilidade, com zonas verdes a servirem regularmente de pano de fundo. À exceção do edifício onde a equipa liderada por Forest usa um computador quântico com acesso à informação de milhões de pessoas para explorar novas fronteiras tecnológicas, todos os outros locais apresentam um visual contemporâneo, conforme um sol insistente se abate sobre Palo Alto, zona que, na realidade, serve de casa a várias empresas tecnológicas, como a Google, Apple, Facebook, Tesla, entre outras.

Juntamente com muita disciplina técnica e uma banda sonora arrepiante, com o espectador sujeito a várias microagressões repentinas, especialmente nas cenas de maior tensão, a arma de eleição de Garland é a brandura do mundo envolvente. De forma subtil, o realizador, que escreveu e realizou os oito episódios, usa o contraste entre a banalidade do cenário e a excentricidade do que está a ser criado dentro de “Devs” para advertir para o que está a acontecer na vida real. Enquanto a civilização discute outros problemas, com algumas futilidades pelo meio, é nas divisões de alta segurança da Google, entre outras, que a distopia está potencialmente a acontecer, com o auxílio de subsidiárias dedicadas à inteligência artificial, como a Deep Mind Technologies. Quase ninguém sabe o que estas empresas estão realmente a desenvolver nestas secções secretas. Apenas sabemos que possuem milhões de terabytes de informação relacionada com os seres humanos de todo o planeta, angariada através das aplicações de uso diário e, amiúde, sem autorização.

Para mais, é igualmente explorada a forma como as maiores empresas tecnológicas apresentam traços psicológicos semelhantes aos de cultos religiosos — não é à-toa que as personagens são rodeadas de referências religiosas, como auréolas. O CEO acredita tanto no conceito que está a criar em “Devs” que começa a viver de acordo com o algoritmo que lhe é imposto, como um fanático religioso que perde a capacidade de questionar as suas crenças, ao passo que muitas das suas ações tendem para o benefício pessoal. E, claro, essa forma de viver é impingida à sociedade, aos seguidores, numa bola de neve destinada a gerar conforto e apatia. Nisto, ao invés de demonizar a supremacia tecnológica e as suas possíveis consequências, tal como é ensaiado na maioria das obras ciberpunk, a narrativa aponta para as tendências messiânicas de quem concebe o código e toma decisões que podem afetar o mundo inteiro e condicionar as escolhas do ser humano comum. O problema não reside na evolução tecnológica, mas sim em quem a comanda e impõe limites ou a ausência dos mesmos.

Não sem os seus problemas, como alguns lugares comums previsíveis, ‘Devs’ é uma minissérie única e uma obra imperdível para os amantes de ficção científica.

Partilhar