Detroit

‘Detroit’, porquê tanto ódio?

Detroit começa com uma apresentação animada de alguns quadros da autoria do pintor Jacob Lawrence que contextualizam a Grande Migração dos afro-americanos para os guetos urbanos. Legendas aparecem para relatar a progressão dos mesmos do Norte para o Sul do país, sedentos dos direitos civis que lhes foram utopicamente prometidos. Um prelúdio repleto de cores, aguarela que conduz na direção da cidade de Detroit onde, em Julho de 1967, estalou o vértice das tensões relativas ao racismo sistémico que abundava nos Estados Unidos da América. Da tela cubista e dinâmica, demasiado alegre tendo em conta o tema, a câmara de Kathryn Bigelow, qual catapulta tirana, atira-nos para a interrogação ideológica e moral que se apoderou da sociedade norte-americana faz várias décadas: serão as nossas forças de segurança, que juraram servir e proteger, racistas?

Detroit

A cidade está a ferro e fogo depois duma rusga policial a um bar ilegal originar uma onda de desacatos que levam as instâncias políticas a instaurar a lei marcial. Motim. A paisagem urbana vira cenário de guerra onde a comunidade afro-americana, cansada e revoltada com a constante usurpação dos seus direitos, atinge o cúmulo da saturação e começa a destruir o décor do mundo civilizado. Caos. A consequência: reação policial e militar, facciosa e implacável. Porém, o distintivo não é apenas símbolo de autoridade, é também uma lembrança de que a opressão pérfida pregada à cor da pele ainda existe após o fim da segregação. E está bem viva. Nunca morreu. Bigelow faz questão de mostrar essa institucionalização ao longo do filme. Neste primeiro ato, o problema é apresentado: a subida da tensão social, a perseguição policial aos causadores de distúrbios, a participação do puro racismo no processo. A câmara de mão é usada no seu esplendor. Planos fechados e abertos, picados e contrapicados. A formalidade do estilo documental, típico dos trabalhos da cineasta como The Hurt Locker (2008), bafejada com humanidade e intimismo, conforme os vários protagonistas, todos a caminho do mesmo palco, vão sendo apresentados. Entra em cena um mosaico semidescritivo que apresenta esses peões num jogo de forças maiores e inevitáveis. Não é uma questão de destino ou de qualquer perfume cósmico, qual karma, que conduz o indivíduo inocente a uma situação de conflito. Não. Tudo depende da vontade do opressor. Do polícia branco, não generalizando a toda a classe, que, a seu bel-prazer, pode decidir aterrorizar o cidadão negro, caso as circunstâncias o permitam. Surge então o tal agente da lei, de raça caucasiana claro está, corrupto e preconceituoso, interpretado por Will Poulter. Os jovens negros aspirantes a estrelas da Motown, Larry e Fred, interpretados por Algee Smith e Jacob Latimore, respetivamente. E o segurança privado negro, interpretado por John Boyega. Três frentes distintas que se contraem na direção umas das outras, setas apontadas para o local onde este vulcão cinematográfico estoira, para revolta de qualquer mente que se preocupe com atitudes racistas e de violência gratuita. Os factos, dentro das limitações expectáveis da ficção, são adaptados pelo argumentista Mark Boal, parceiro habitual da realizadora.

DetroitExposto o problema, surge a explosão do vulcão. A contração do mosaico dá-se e a polícia ruma a um motel onde Larry e Fred, assim como outros oito jovens de raça negra e duas mulheres brancas, se divertem numa festa banal. Do filme com veia jornalística, horizontal e disperso, a catapulta de Bigelow desta vez atira-nos para o filme de terror, vertical e concentrado num espaço específico. Contudo, ali os monstros são seres humanos, empregados para instaurar a lei e a ordem, só que a sua ordem é outra. Uma da qual o afro-americano não faz parte como cidadão igual aos demais. Em desrespeito dos procedimentos habituais, vários agentes da lei, liderados pelo polícia interpretado por Poulter, alinham contra uma parede e interrogam as pessoas que se encontravam no motel recorrendo a métodos violentos e desajustados. As repercussões do caso resultam num dos episódios reais mais badalados de abuso policial americano dos anos 60. A situação é demonstrada duma forma detalhada e prolongada, sempre conduzida pela voz grave de Poulter cuja interpretação é completamente insidiosa. Da zona de guerra arbitrária para um teatro fechado onde reina a selvajaria ética, esta sequência passada no infame motel é superlotada de tensão, filmada pelo cinematógrafo Barry Ackroyd duma forma fria e intuitiva. O público é mais vítima que testemunha, incapaz de não sentir algo, capaz de se enojar com os abusos vigentes nesta encenação da brutalidade policial pincelada pelo racismo. Neste cruzar de vontades opostas, na missão impossível de possível conciliador, numa ilusão ingénua de que um equilíbrio é viável, a personagem de Boyega, que veste uma farda e carrega uma arma, serve de observador primário. É, porventura, a personificação da impotência do espectador, preso ao assento sem nada poder fazer, apenas cerrar os dentes e refletir sobre o quão habituais já foram estas situações. Tal como esta personagem, somos fantasmas que divagamos por aquele cenário desolador onde as prerrogativas a que todos pensamos ter direito deixaram de funcionar. E nos dias de hoje? Será que ainda existem réstias destes comportamentos? Passou assim tanto tempo? Não temos assistido esporadicamente a situações semelhantes? Nas perguntas que levanta, Detroit é absolutamente inquietante, uma locomotiva docudramática imersiva e veloz que abranda neste episódio nefasto para relembrar a todos que algo tão deplorável existiu e pode muito bem, em doses camufladas, continuar a existir. Perto do fim, o filme perde foco, perspicácia talvez, fiel, no entanto, ao seu tom documental que não pode, nem deve, abandonar os factos. O terramoto já passou, as réplicas continuam a fazer-se sentir. Ficamos amarrados aos corredores daquele motel, à ferida profunda que lá foi exposta e deixada a apodrecer. Talvez daí venha o insucesso do filme em terras americanas. Poucos quiseram  vislumbrar tal realidade, poucos querem a resposta à pergunta. Chegado o epílogo, ficamos presos à indignação, à ideia partilhada pelos que por juízos lógicos e valores bondosos se orientam: porquê tanto ódio? Porquê?

 

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