‘Dark Waters’, quem paga são sempre os mesmos

Um dos problemas habituais dos filmes baseados em histórias verídicas, especialmente os que se ocupam com revelar alguma injustiça ou dar a conhecer um problema grave ao mundo, é a tendência dos seus realizadores para embelezar certas características ou até criarem espaço para alguns desvios factuais com o objetivo primordial de criar impacto dramático. Não é o caso de ‘Dark Waters’, realizado por Todd Haynes, uma longa-metragem onde pretensiosismos são substituídos pelo poder imensurável dos factos, expostos de uma forma organizada e com escassez de sensacionalismo.

Em 1998, Wilbur Tennant, um agricultor oriundo de Parkersburg, Virgínia Ocidental, interpretado por Bill Camp, tentou persuadir Robert Bilott, um advogado interpretado por Mark Ruffalo, a processar a DuPont, nada mais que a segunda maior empresa química do mundo e a principal empregadora da cidade. A tese de Tennant era muito simples: uma das instalações da DuPont andava a despejar químicos tóxicos nas imediações da sua quinta, o que estaria a causar a morte do seu gado. Apesar de destoar da sua ocupação habitual, defender essas mesmas corporações, Bilott sentiu necessidade de investigar as alegações do agricultor devido, em alguma parte, à sua ligação emocional com a região onde cresceu e de onde partiu para se tornar um advogado de sucesso na “grande cidade”, Cincinnati. As suas descobertas nefastas viriam a gerar um enorme caso legal com impacto a nível mundial.

Um dos principais trunfos do filme é a interpretação de Ruffalo. Ao mesmo tempo que ilustra a convicção moral do advogado, conforme este se depara com uma descoberta perturbadora e enfrenta forças demolidoras, o ator não deixa de bebericar nas águas da obsessão, mostrando, ironicamente, o tipo de desconsideração que alguém tem de ter por si próprio para seguir uma demanda epopeica contra uma das empresas mais poderosas do planeta. Durante o processo, Bilott foi cercado pelo exército legal da DuPont, tendo sido inundado com milhares de documentos e alvo de várias estratégias destinadas a atrasar ou anular os seus avanços.

Em sentido oposto, de acordo com os parâmetros de Haynes, um cineasta que dedicou grande parte da sua carreira a explorar caricaturas femininas deveras complexas, como em ‘Far From Heaven’ (2002) ou ‘Carol’ (2015), a esposa do advogado, interpretada por Anne Hathaway, parece ser uma personagem algo unidimensional, tendo em conta a sua premissa: uma mulher inteligente que abandonou a carreira de advogada para se dedicar aos filhos e ao lar. A personagem parece algo presa à constante função de criticar as instâncias à volta do caso e servir de refúgio para o marido relativamente ausente.

O estado da Virgínia é ilustrado de uma maneira pálida, com o cinematógrafo Edward Lachman a recorrer a cores esverdeadas e azuladas para emanar uma sensação de desespero e desamparo, principalmente nas cenas invernosas. É impossível não pensar em ‘Safe’, um filme de 1995 da autoria de Haynes, no qual as imagens são usadas para evocar a toxicidade à volta da personagem principal, uma mulher que desenvolve hipersensibilidade a químicos. Pode afirmar-se que técnica semelhante é usada para destacar o peso que a DuPont tem na área, com o logótipo da marca, presente em quase todas as esquinas, a funcionar como um ser omnipresente que relembra grande parte dos cidadãos de que o seu ganha-pão depende da empresa.

Cuidadosamente, o realizador aproveita também para explorar a forma como as pequenas comunidades norte-americanas ficaram enamoradas destes conglomerados, ignorando a hipótese de existir um potencial custo biológico para a generosidade das mesmas. E, claro, quando alguém como Bilott aparece para revirar algumas pedras, a incompreensão e falta de hospitalidade da população faz-se sentir. Contudo, o cineasta teve sensibilidade suficiente para não vilificar os cidadãos de Parkersburg, criando, através de imagens e vários diálogos astutos, a primordial e importante ideia de que todos são vítimas do capitalismo voraz, de uma máquina de desinformação que se está a marimbar para a saúde e bem-estar das pessoas, mesmo que estas façam parte da sua força laboral.

Outro pormenor importante que permite que esta história tenha impacto é a maneira precisa como a passagem do tempo é demonstrada. Se, a princípio, tal não tenha muita importância, esta começa a surgir quando se percebe que o processo legal iniciado por Bilott demora vários anos a desenrolar-se, conforme os riscos e malefícios sublinhados pela sua investigação continuam presentes no dia a dia de milhares de pessoas, começando estas a apresentar os devidos sintomas. É uma enorme vitória que, num filme onde abunda informação complexa, incluindo descrições sobre químicos e linguagem legislativa, o espectador leigo tenha sempre noção do que está a acontecer. ‘Dark Waters’ é uma meticulosa peça de exposição.

Por último, o filme tem o potencial de perturbar a audiência, atirando-a para o estado de paranoia da personagem principal, à medida que esta começa a perceber que os resultados da sua investigação terão impacto nos hábitos de consumo de milhões de pessoas. Algumas pessoas, depois de sair do cinema, provavelmente irão averiguar certos aspetos da sua vida, como, por exemplo, a composição de alguns produtos que têm em casa.

Perante isto, é impossível não ligar este interessante trabalho de Haynes à atualidade, conforme, por exemplo, a comunidade internacional começa a perceber que, após várias audições no Congresso norte-americano, multinacionais como a Exxon, semelhantes à DuPont em vários aspetos do seu funcionamento, sabiam das alterações climáticas provocadas pelos combustíveis fósseis há mais de 40 anos. Como tal, está-se perante uma obra com uma veia de ativismo, um lembrete que devemos começar a questionar o que se encontra por trás dos logótipos que tanto idolatramos. Porque, por norma, por trás do lucro exorbitante, está sempre algum tipo de desequilíbrio. E quem paga são sempre os mesmos.

Kubrickamente
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