‘Dark’, o amor de hoje pode ser o ódio de amanhã

Nos tempos que correm, existe um hábito generalizado de associar projetos desconhecidos, menos populares, ou que tiveram uma guerrilha de marketing menos ativa, a megaproduções que se destacam dentro dum certo género. De modo que, de vez em quando, surge o típico “se gostou disto, veja isto”, dístico que muitas vezes se impregna nos tais projetos mais modestos, como se, de repente, estes tivessem de corresponder às enormes expetativas criadas por essas associações, mesmo que, muitas vezes, essas referências apenas tenham como objetivo conduzir o espectador ao encontro de algo que se enquadre nas suas preferências. Essas etiquetas de apoio são bem-vindas, exceto quando o seu fundamento se destina a atrair o espectador para algo diferente do que efetivamente é prometido. Posto isto, aos leitores que vão à espera de encontrar um novo Stranger Things em Dark, visto a comparação ter sido feita em massa, terá de ser referido que poderão ir ao engano, seduzidos por um rótulo que ofereceu a esta produção alemã a conotação errada, o mesmo chamariz utilizado pela Netflix, por exemplo, em relação à minissérie Godless, à qual foi associada de forma algo irresponsável a supremacia do tema feminista, quando na realidade o projeto até dá mais tempo de antena a personagens masculinas. Dark não é Stranger Things, nem o tenta ser. É mais complexa, mais erudita e negra, e, não obstante os seus problemas, muito mais ambiciosa, pondo de parte elementos cómicos ou aconchegantes. Envereda antes por caminhos menos lineares, à imagem de Twin Peaks de David Lynch e Mark Frost ou dos filmes mais caliginosos de David Fincher, como Se7en (1995) e Zodiac (2007). E, ainda que partilhe com a série dos irmãos Duffer uma proposta inicial de enredo, ou seja, um jovem que desaparece em circunstâncias misteriosas, assim como alguns adolescentes e variadas referências nostálgicas à década de 80, o projeto da autoria de Baran bo Odar e Jantje Friese apenas utiliza esse ponto de partida narrativo bastante comum para iniciar uma abordagem labiríntica e filosófica ao conceito de “tempo” e o efeito que este pode ter sobre as pessoas e a matéria.

Dark

Se bem que a série desafie a noção de “princípio” e “fim”, pode afirmar-se que a narrativa de Dark se inicia no ano 2019, altura em que a pequena cidade de Winden, uma pacífica localidade alemã que alberga uma central nuclear, vive um momento delicado, após o inexplicável desaparecimento dum adolescente. Somos, então, apresentados a uma rede de personagens ocupadas por rostos certamente desconhecidos para a grande maioria dos espectadores, com destaque para Ulrich Nielsen (Oliver Masucci), um dos detetives que investiga o caso, e Jonas (Louis Hofmann), um jovem que, a pouco e pouco, se vai emaranhando cada vez mais nos acontecimentos estranhos que se desenrolam à sua volta, motivado pelo suicídio inesperado do seu pai e pelo desaparecimento dum segundo jovem, neste caso, o filho mais novo do detetive Nielsen. O novelo começa a desenrolar-se quando surgem as primeiras alusões a acontecimentos semelhantes ocorridos em 1986, altura em que o irmão mais novo do mesmo detetive também desapareceu para nunca mais voltar, começando a ser edificada uma teia de paralelismos entre o passado e o presente. Não tarda muito até que o enredo da série se complique, arremessando a todo o gás mais achas para uma fogueira de proporção megalómana, tal é o aglomerado de personagens, saltos temporais e perguntas que vão surgindo. Para prazer de alguns e possível desnorte de outros, Dark exige total atenção e devoção, distanciando-se do sistema de consumo rápido imposto pela Netflix, pois podem ser necessárias pequenas paragens para assimilar todas as informações, mesmo que, contraditoriamente, o seu disparar constante de plot twists e factos novos encoraje a uma visualização de rajada, sob pena de, dum dia para o outro, alguma informação preciosa se apagar durante o sono. Neste formato épico, onde tudo aparenta ter ligação, mesmo que muitos desses elos se mantenham ocultos, surge aquele que se pode considerar o lado mais precário da série: a falta de apego emocional às personagens. Dada a complexidade do enredo e a tentativa, uma que é bem-sucedida, de encaixar dezenas de narrativas num espaço limitado, sobrou pouco tempo para explorar com afinco os traumas, motivações e apelos de alguns dos humanos de Winden. Além disso, existe uma clara sobrecarga de informações e rostos a decorar, visto existir mais do que uma versão das mesmas personagens devido à exploração de mais do que uma linha temporal. Como resultado, onde alguns podem encontrar um desenho estimulante e audaz, outros podem encontrar uma experiência potencialmente confusa. Porém, a série revela uma capacidade extraordinária de se revoltar contra essas condicionantes, construindo aos poucos um muro de lamentações à custa das teorias do espaço-tempo de Albert Einstein. É também notória a tentativa de auxiliar o espectador na missão árdua de absorver tudo o que lhe é dito e mostrado através de títulos sugestivos, um narrador oportuno que se vai ouvindo espaçadamente e justaposições de planos onde aparecem as mesmas figuras, mas em linhas temporais diferentes. Relegando a maioria das personagens para um limbo algo mortiço, mas raptando-as para um jogo do gato e do rato inquietante, o “tempo” torna-se o verdadeiro objeto de estudo, conforme se assiste a uma locomotiva narrativa frenética, como se, desde o primeiro minuto, um monstro sádico tivesse começado a berrar incessantemente, prolongando-se esse brado dantesco até ao último minuto do décimo episódio, momento em que, finalmente, será dado algum descanso às mentes em ebulição. Só para que se volte daqui a uns tempos a uma segunda temporada já anunciada pela Netflix.

Dark

Tecnicamente, está-se perante um trabalho de qualidade assinalável. Desde a cenografia que circunda uma floresta opressiva, uma caverna escura e divisões claustrofóbicas agraciadas por uma clara obediência à simetria, passando por uma banda sonora nervosa e excêntrica, de sobremaneira sincronizada com um tiquetaque omnipresente, efeito sonoro utilizado recentemente por Hans Zimmer em Dunkirk (2017), até à fotografia sombria que ilustra uma decadência moral progressiva, como se as trevas se abatessem sorrateiramente sobre o mundo, tudo em Dark foi idealizado à medida duma fábula fantasmagórica e hipnotizante. Contudo, mais que o seu puzzle intrigante e a estética pesarosa, o que mais atrai na série é o seu sussurro macabro e podre, transferido para a imagem por uma realização de súpera classe por parte de Baran bo Odar, acompanhado duma reflexão filosófica intrusiva e desconcertante: o que é o “tempo”? Estaremos destinados a viver num programa pré-fabricado por essa unidade imutável ou, por outro lado, tomamos as nossas próprias decisões? Seremos vítimas dum simples trajeto de causas e efeitos ou impera a total aleatoriedade? É feita uma homage ao cerne de Interstellar (2014), também este da autoria de Christopher Nolan: será o “tempo” mais uma construção como tudo o resto, possível de formatar e alterar, ou uma unidade circular, onde tudo tem uma causa e uma consequência inalterável? Quando expõe tudo isso em cima da mesa, Dark é um regalo para o cérebro, uma espécie rara de televisão com um enorme potencial, caso os seus criadores consigam no futuro manter a coerência do universo que criaram. Fica-se com uma soap opera com vestes de pesadelo em que todos, jovens e adultos, revelam uma propensão realista para a depressão e luxúria, presos aos seus segredos e mentiras, difíceis de conter num meio pequeno como é o caso da cidade de Winden. No que à primeira temporada diz respeito, tem-se uma reverência humilde aos pilares do género da ficção científica e mistério sobrenatural, apetrechada de referências líricas que a tornam numa das experiências televisivas mais ricas e desafiantes dos últimos anos. No seu negrume, quase que se põe de lado a esfinge – “quem fez o quê e porquê?” -, sobressaindo antes variadas questões morais e sociais e a forma como as pessoas, sujeitas à passagem do tempo, as subvertem e moldam de acordo com as suas necessidades. O amor de hoje pode ser o ódio de amanhã. Por fim, é igualmente uma vitória significativa para os estúdios europeus, de onde já saíram séries como Les Revenants, Gomorra e Bron/Broen, e a prova de que nem tudo precisa de sofrer um remake, quando o objetivo é a promoção por terras norte-americanas e não só. Vivemos num mundo global e poliglota e está mais que na altura dessas barreiras serem quebradas e reconfiguradas, usufruindo-se da beleza e competência duma escola onde ideias refrescantes aguardam pela mesma oportunidade que foi dada a esta série alemã.

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