‘Da 5 Bloods’, um panfleto mordente

Lançado durante um dos períodos de maior inquietação social desde os protestos de 1968, ‘Da 5 Bloods’ beneficia indubitavelmente de um timing perfeito. O filme abre as hostilidades com algumas imagens da operação Ranch Hand, durante a qual os EUA pulverizaram as zonas rurais do sul do Vietname com herbicidas de forma a privar os habitantes de comida, e uma das entrevistas mais badaladas do pugilista Muhammad Ali em que este fala sobre a recusa em alistar-se para a guerra em questão. Seguem-se as palavras da filósofa e ativista Angela Davis relativas à caminhada latente do país até ao fascismo, os protestos nas universidades de Kent e Jackson depois da morte de vários estudantes negros, a queda de Saigão e as manifestações inerentes à descolagem da Apollo 11 — um cartaz pergunta quantas crianças podiam ser alimentadas com o dinheiro gasto na exploração espacial. Depois de ‘BlacKkKlansman’ (2018), Spike Lee aponta com mais determinação do que nunca para um regime imperialista com uma noção seletiva de liberdade movido pelas indústrias da guerra e do policiamento, que têm de continuar a ser alimentadas. Pois, o que seria dos donos do país se acabassem os conflitos bélicos internacionais e as tensões domésticas?

Tal como a maioria das obras do realizador, este novo trabalho usa uma narrativa clássica para servir de roupagem a um ensaio de natureza política. A dita história começa no presente, na cidade de Ho Chi Mihn, onde quatro veteranos da guerra do Vietname afro-americanos regressam com a missão oficial de recuperar as ossadas de um colega de pelotão cujo corpo ficou para trás, enterrado no meio da selva, após uma disputa mortal. Camuflada nessa demanda virtuosa está uma caça ao tesouro, já que, na mesma zona onde jaz Stormin’ Norman, interpretado por Chadwick Boseman em flashbacks, encontra-se uma caixa cheia de barras de ouro enterrada pelos soldados.

Convenientemente, cada elemento do quarteto apresenta características básicas e distintas: Paul, interpretado por Delroy Lindo, é o impulsivo; Otis, interpretado por Clarke Peters, a voz da razão; Eddie, interpretado por Norm Lewis, o elemento que, supostamente, vingou na vida a nível financeiro; e Melvin, interpretado por Isiah Whitlock Jr, o bem-humorado. A estes junta-se o filho do primeiro, um professor, interpretado por Jonathan Majors, que persegue o pai até ao Vietname. O traço mais detetável é o facto de Paul ser um apoiante de Donald Trump, sendo que até veio munido do típico chapéu de campanha com a frase “Make America Great Again”.

Mais calma, a primeira fase do filme é talvez a mais esclarecida. Lee aproveita a reunião dos quatro amigos para introduzir algumas reflexões pontiagudas sobre a relação entre os dois países em destaque. Por exemplo, através de um comentário sagaz, uma das personagens refere que o governo americano devia ter enviado o Pizza Hut para a guerra em vez de soldados, visto a atual Ho Chi Mihn poder ser confundida com uma qualquer cidade norte-americana, graças à proliferação das cadeias de fast-food e de entretenimento generalizado — de uma maneira ou outra, os EUA acabaram por deitar as mãos ao Vietname. 

Noutras ocasiões, o guião escrito pelo cineasta em parceria com Danny Bilson, Paul De Meo e Kevin Willmott, cavalga a todo o vapor por cima de alguns blockbusters da década de 80, como ‘Rambo’ e ‘Missing in Action’, que abordam a dita guerra e perpetuam a imagem do herói caucasiano que, numa versão fantasiosa e simplista, combate os vietnamitas e, metaforicamente e numa escala reduzida, ganha a guerra, num processo flagrante de branqueamento das atrocidades cometidas pelos americanos. Não é à-toa que, durante os flashbacks, os protagonistas são mostrados em pleno combate, com alguns planos, heróicos e gratuitos, a fazerem lembrar os respetivos filmes protagonizados por Sylvester Stallone e Chuck Norris, enquanto a banda sonora de Terence Blanchard cria a devida epicidade. Nestas visitas ao passado, o quarteto de atores, todos para lá da meia-idade, interpretam as suas versões jovens sem que se recorra a qualquer rejuvenescimento, como se estas cenas não passassem de memórias que estão a ser revividas, em que os protagonistas se reveem com os seus corpos da atualidade.

Em sentido contrário, existe a ocasional coragem de sujeitar as personagens a alguma ironia ácida. Em algumas das cenas iniciais, estas são mostradas a dançar e a beber entusiasticamente, ao sabor de música americana em bares vietnamitas, no país que outrora invadiram. Mesmo que uma grande parte das cenas não usufruam da mesma honestidade intelectual, Lee arranja forma de realçar esta potencial contradição moral.

 Contudo, quando os aventureiros entram selva adentro rumo ao seu objetivo, nasce a sensação de que algumas das tiradas políticas são injetadas à pressão nos diálogos, registando-se também alguns contrassensos. Por exemplo, o cineasta critica muitos dos problemas dos filmes de guerra de Hollywood, mas acaba por cometer os mesmos pecados: nos tiroteios, os heróis afro-americanos matam vietnamitas uns atrás dos outros, sem que um único rosto possa ser discernido. Esta característica, no entanto, pode ser propositada, uma espécie de sátira disfuncional com uma finalidade algo dúbia.

Quanto à vertente técnica, o filme apresenta uma série de estratégias visuais bastante ambiciosas cujo objetivo é demarcar a diferença entre o passado e o presente, e entre o cenário urbano e a selva. Depois do prólogo repleto de imagens de arquivo que termina numa amostra do hotel Majestic em Saigão, a imagem expande com fluidez para uma filmagem moderna do mesmo hotel, mas com um aspect ratio de 2.39:1. Esta proporção, típica de filmes épicos com planos muito abertos como ‘Lawrence of Arabia’ (1962), ajuda a enquadrar o grupo de personagens sempre no mesmo plano, alcançando-se o conceito de irmandade desejado, a preceito de um buddy movie em ascensão.

Nas cenas do passado, Lee e o cinematógrafo Newton Thomas Sigel optaram por usar um diapositivo de 16mm com um aspect ratio de 1.33:1, o que faz com que a ação se desenrole dentro de um quadrado. Apesar de este tipo de filmagem ser normalmente usado para evocar a Era de Ouro de Hollywood, como Wes Anderson fez em ‘The Grand Budapest Hotel’ (2014), aqui, o provável objetivo é alcançar uma estética semelhante às reportagens sobre a guerra em questão. Na altura, devido às circunstâncias envolventes, os jornalistas usavam câmaras pequenas, geralmente portáteis, com película de 16mm e diapositivos. Os últimos permitiam que se produzisse uma imagem positiva numa base transparente, o que eliminava a necessidade de negativos ou impressões. Isto viabilizava que as imagens chegassem muito mais rápido às televisões mundiais.

No que diz respeito às cenas decorridas na selva, mas no presente, optou-se pela típica câmara digital com um aspect ratio de 16:9. Esta escolha aufere realismo à viagem dos protagonistas pelo meio hostil. À exceção dos planos fechados, nota-se a intenção de manter a câmara longe dos atores de maneira a realçar o oceano esverdeado à sua volta. De destacar ainda algumas cenas em que é utilizada uma câmara Super 8, nomeadamente durante uma travessia aquática, e o aparecimento de referências visuais a ‘The Treasure of the Sierra Madre’ (1948), com o qual o filme de Lee partilha algumas semelhanças narrativas, ‘The Bridge on the River Kwai’ (1957) e ‘Apocalypse Now’ (1979).

Em todo o caso, a obra parece sofrer de uma ligeira confusão temática, assim como é assaltada por várias simplificações. Devido ao trajeto dramático escolhido, Lee coloca o filme numa posição injusta em que é necessário absolver os protagonistas ao mesmo tempo que surgem alusões às atrocidades cometidas pelos mesmos. Numa dada cena, Otis refere que é injusto os soldados negros serem apelidados de “assassinos de crianças”, enquanto os veteranos de outras guerras foram celebrados com euforia. Uma hora mais tarde, Lee faz questão de mostrar imagens de arquivo do “massacre de Huê´”, em que morreram muitas crianças, e as personagens, com uma tez sombria, admitem ter participado nessa operação imoral. Em alguns momentos, é difícil perceber se o cineasta está a destacar a hipocrisia das suas personagens, ou se simplesmente está ele, como responsável máximo do filme, a ser hipócrita, já que, noutras cenas, sugere que os seus protagonistas e, por associação, os soldados negros, deviam ser tratados como heróis. O guião recusa a introspeção, as personagens nunca são entaladas, colocadas numa posição em que tenham realmente de discutir o seu papel na violência exercida sobre os vietnamitas, independentemente do racismo registado em casa, nos EUA.

Outro exemplo da penúria de algumas abordagens é a atitude dos restantes perante a personagem encarnada por Delroy Lindo. Num filme onde os protagonistas afro-americanos, vítimas do referido sistema dominado pelo homem branco, estão constantemente a formular asserções políticas e sociais, parece algo estranho que estes nunca abordem com veemência as escolhas políticas do seu parceiro, um ardente apoiante de Trump, mesmo quando este se revela um empecilho, após várias precipitações que prejudicam a missão e põem a nu a sua instabilidade psicológica. Seria de esperar que um afro-americano apoiante de Trump sofresse outro tipo de escrutínio e análise num filme dirigido por Spike Lee, mas o que se nota é uma espécie de fuga ao problema, com demasiadas associações subconscientes ou diretas à pobreza e ao stress pós-traumático. Esta ausência de reflexão sobre o papel de alguns afro-americanos na perpetuação de regimes insidiosos é, todavia, compensada pela descomunal e suada interpretação de Lindo, que regista um dos melhores trabalhos da sua carreira e consegue ofuscar o défice de conteúdo.

Outro aspeto menos positivo é a trivialidade da personagem de Chadwick Boseman, que é endeusada por tudo e todos, sem nunca justificar esse estatuto — os seus colegas referem-se a ele como o seu “Martin e Malcolm”, em associação a Martin Luther King e Malcolm X. Todavia, as suas intervenções roçam a banalidade, repletas de doutrinas simplistas. Mais uma vez, é o dinamismo do ator que salva a personagem, podendo associar-se a essa equação o facto de Boseman já ter incorporado várias figuras relevantes da História afro-americana, como James Brown, Jackie Robinson ou Thurgood Marshall. Novamente, esta abordagem unidimensional pode ser propositada, uma insinuação de que os afro-americanos estavam tão sujeitos a propaganda como outro qualquer. Se era esse o objetivo, tal não fica claro.

Em suma, se extrairmos todas as imagens de arquivo, que inevitavelmente provocam agitação emocional devido à sua natureza ativista, é possível reparar que sobra uma obra fracionada e previsível, com uma veia moralista e demagógica. Há quem diga que um bom filme faz-nos pensar, enquanto um filme mediano nos diz o que pensar. Tal como já aconteceu noutros projetos da sua autoria, Lee parece mais inclinado para a segunda opção, pois, à exceção de algumas cenas bem-conseguidas, tenta impingir as suas ideias, módicas e caóticas, em vez de apelar à meditação sobre os temas em destaque. Talvez isso aconteça porque o guião não consegue libertar-se das propostas mais básicas para explorar a relação dos soldados afro-americanos com a guerra do Vietname e, paradoxalmente, até enamora alguns dos estereótipos criticados. No fundo, ainda que tenha montado um tabuleiro a preceito e a sua presença no catálogo pareça mais urgente do que nunca, ‘Da 5 Bloods’ não produz nenhuma ideia propriamente inovadora, apesar do seu potencial para impressionar ou influenciar os espectadores menos familiarizados com os temas abordados. Como resultado, em demasiadas cenas, o filme consagra-se com um panfleto mordente e incendiário, e não como uma narrativa reflexiva e introspetiva.

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