‘Chernobyl’, o peso da mentira

Ainda não se sabe muito bem o que aconteceu ou, expondo a questão doutra forma, os responsáveis da Central Nuclear de Chernobyl continuam numa fase de negação, quer esta nasça da incompetência ou da necessidade de manter a imagem imaculada do programa nuclear soviético. Depois do diretor da Central assegurar que está tudo sob controlo, a mesa repleta de burocratas observa alguma agitação, conforme um dos presentes põe em causa essa tão frágil afirmação, referindo os homens que, no exterior das instalações, vomitam na calçada e apresentam queimaduras severas, e, pior, as milhares de mulheres e crianças que se encontram na cidade mais próxima, Pripyat, e que podem ser sujeitas a níveis perigosos de radiação. O diretor insiste em afirmar a estabilidade da situação – mais um que pensa que palavras ocas podem resolver problemas graves. O burburinho é interrompido pelo ancião que se encontra num canto da sala construída a pensar num potencial ataque norte-americano. O som da sua bengala a esbordoar o chão chega para silenciar o festim de testosterona. Este inicia, então, um discurso sobre Vladimir Lenin e a nobreza do socialismo soviético, dirigindo-se num tom paternalista ao único homem na sala que tenta formular a questão mais pertinente do dia: não deveríamos estar a evacuar toda a região? Mas a velha raposa não quer nada com o altruísmo e, o que inicialmente parecia ser um discurso inspirador, transforma-se num buraco negro pronto a sugar todos os ambiciosos. “Quando o povo faz perguntas que não são no seu melhor interesse, devemos dizer-lhes apenas que pensem no seu trabalho, que deixem os assuntos do Estado para o Estado”. Na sua cara desenha-se uma expressão impetuosa. “Vamos selar a cidade. Ninguém sai. E cortem as linhas telefónicas. Contenham a disseminação de falsas informações. É assim que se impede que o povo estrague os frutos do seu trabalho”, proferiu, fazendo uma pausa para esboçar um sorriso triunfante. “Sim, camaradas. Todos seremos recompensados pelo que vamos fazer aqui hoje. É o nosso momento de brilhar”. Por outras palavras, este suposto sábio instiga os seus colegas de partido a ofuscar a natureza e gravidade do sucedido, a ignorarem o bem-estar dos cidadãos em nome da segurança da máquina política que, mais tarde, os vai recompensar pelo trabalho sujo, em nome duma pútrida noção de patriotismo e lealdade, da preservação duma caixa sem oxigenação. Finalizado o oportuno sermão, o diretor dá pancadas na mesa e a sala levanta-se para uma sentida rodada de aplausos, uma eufórica homenagem à podridão moral. Lá fora, numa sala de espera improvisada, jaz a expressão soturna dum dos engenheiros da Central, ele sabe com quanta aspereza estes homens vão ter de engolir a própria arrogância. Chernobyl é, portanto, na sua essência, uma narrativa sobre o peso da mentira, examinando-se pelo meio as falhas que levaram ao desastre nuclear na região homónima e os sacrifícios levadas a cabo por um vasto grupo de cientistas, engenheiros, mineiros, médicos, enfermeiros, militares, entre outros, de forma a minimizar as consequências do acidente.

Entra em ação a personagem principal, Valery Legasov, interpretado por Jared Harris, o físico destacado como chefe da comissão de investigação ao incidente, acompanhado por Boris Shcherbina, interpretado por Stellan Skarsgård, um ministro do partido nomeado pelo presidente Gorbachev para supervisionar a investigação, e Ulana Khomyuk, interpretada por Emily Watson, uma personagem fictícia que representa as dezenas de cientistas que tentaram descobrir o que causou a inexplicável explosão do reator nuclear RBMK, modelo comum às outras centrais nucleares do país. Um dos trunfos da minissérie é a forma aparentemente simples, mas extremamente hábil, como estas três personagens foram escritas por Craig Mazin. A primeira, o cientista, tem como objetivo primordial fazer a narrativa avançar, sugerindo soluções práticas para os problemas que vão surgindo. A segunda, o político, o “homem do partido”, serve de contraponto, ou seja, é a personagem que questiona diretamente as decisões da personagem principal, funcionando, no processo, como Cavalo de Tróia destinado a infiltrar o enredo com as mesquinhices do sistema político soviético. A terceira, a investigadora, tem como função procurar a verdade, ou seja, trabalhar em prol das futuras revelações da narrativa. A esta última, que, curiosamente, é a única que não existiu na vida real, poderá ser apontada uma falha fundamental: uma excessiva aproximação à típica personagem inquisidora do habitual filme sobre desastres de Hollywood. Enquanto os seus dois contrapartes mantêm um disciplinado apego ao realismo, afogados em dúvidas e defeitos, a senhora Khomyuk parece desenrascar todas as verdades necessárias e informações pertinentes com demasiada facilidade. Muitos especialistas, como Masha Gessen, o autor de ‘The Future is History: How Totalitarianism Reclaimed Russia’ e redator no The New Yorker, reclamam que o nível de sabedoria individual desta personagem seria virtualmente impossível num sistema de propaganda e censura desenhado para impedir os cidadãos de adquirirem demasiada sapiência. Em síntese, ao tentar incorporar a erudição de dezenas de cientistas numa só personagem, Mazin acabou por gerar uma caricatura que contrasta ligeiramente com as restantes personagens fulcrais, de tão densas e razoáveis que estas são. Outro problema é a forma como esta espécie de heroína confronta os seus superiores, como, por exemplo, a cena em que tenta desafiar um político importante ao afirmar que este trabalhava numa fábrica de sapatos antes de ter um cargo importante. Na União Soviética, este tipo de embate não seria possível e Khomyuk certamente sairia do local em questão diretamente para uma sala de interrogatório. Eventualmente, devido a outra situação, esta acaba mesmo por ser enclausurada durante um curto espaço de tempo. Porém, numa das cenas seguintes, já livre, participa numa reunião presidida por Gorbachev. Da prisão para a mesma mesa que o presidente, existe um evidente exagero ficcional, pois, o KGB, os serviços secretos da altura, nunca permitiriam tal sequência de acontecimentos – uma vez suspeito, para sempre suspeito. Na tentativa de ilustração do leque de adversidades e bloqueios que os vários investigadores encontraram na vida real, a personagem acaba por provocar um efeito adverso: amenizar o quão opressivo e paranóico era o sistema vigente, mesmo que esta descaracterização seja compensada noutros momentos, e dar uma garfada no realismo de que os produtores do projeto tanto se orgulham. Não obstante, é esplendoroso testemunhar a eficácia do guião escrito por Mazin, onde todas as ações têm consequências, onde nada é aleatório. Tudo isto é auxiliado por um trabalho de fotografia sóbrio e competente, sendo que todos os episódios foram realizados por Johan Renck, vindo de projetos como Breaking Bad e Vikings. Ao longo de cinco capítulos, alternando entre um estilo próximo do documental e, numa viragem esquizofrénica, uma aproximação ao género de terror, o realizador consegue manter uma sensação de distopia, “stranger than fiction”, saltitando da conversa sobre assuntos delicados, filmada com recorrência aos usuais planos fechados, para as masmorras negras e radioativas de Chernobyl onde um grupo de mergulhadores tentam evitar uma segunda explosão ainda maior, filmados com uma trémula câmara de mão indutora de pânico. Ademais, a decoração dos cenários é soberba. Todas as roupas – usam-se fatos feitos com tecido soviético da era comunista -, objetos, veículos, equipamentos, entre outros, correspondem às suas versões de 1986, perfazendo-se assim a vertente de drama de época pretendida.

Contudo, o grande triunfo deste projeto da HBO consiste na fascinante afinidade com o mundo atual, mesmo estando a ser contada uma história do passado. A principal mensagem da minissérie está relacionada com a forma como o maior desastre alguma vez causado pelo Homem se deveu a uma rede de mentiras e omissões por parte das instituições soviéticas, as quais conduziram, indiretamente, às falhas humanas que decorreram no dia da explosão. Quer por excesso de ambição ou desnorte, quer por não estarem informados das limitações do reator – a temível União Soviética nem aos olhos dos próprios cidadãos poderia ter reatores nucleares com pontos fracos -, foram os trabalhadores da Central que causaram o acidente que, a médio prazo, devido à propagação de substâncias nocivas no ar, ceifou a vida de milhares de pessoas. Essencialmente, a verdade é a verdade, factos são factos. E, por mais que os políticos soviéticos, recorrendo à censura e desinformação, tenham escondido ou ignorado durante anos os problemas dos seus reatores nucleares, a verdade veio reclamar a sua legítima presença da forma mais agressiva possível. “Quando a verdade ofende, nós mentimos e mentimos até não nos lembrarmos que ela existe”, diz Legasov num dos momentos mais marcantes. Ora, ao absorvermos esta história sobre um governo, em teoria, totalitário, é impossível não estabelecer ligação com alguns assuntos prementes da agenda sociopolítica, como o aquecimento global e a forma como este tem sido abordado pelo governo do país, novamente em teoria, mais poderoso do mundo, os Estados Unidos da América. Numa altura em que vários governos e organizações começam a apontar baterias às alterações climáticas, o governo republicano, comandado por Donald Trump, continua a negar a ameaça que, segundo inúmeras equipas de pesquisa, lideradas por cientistas de renome internacional, pode, nas próximas décadas, caso as mentalidades não mudem, dizimar o mundo civilizado tal e qual como o conhecemos – uma catástrofe silenciosa que ocorre há anos e anos, todos os dias, sem parar. Tal como o governo soviético fez em relação aos problemas do reator RBMK, o atual governo dos EUA, e não só, parece ter adotado estratégia semelhante: mentir, fazer de conta que o problema não existe, enlameá-lo com doses cavalares de desinformação, na esperança de que este desapareça magicamente, com a promessa duma recompensa partidária e dos milhões oriundos de lobbies a quem não apraz um mundo virado para o verde. Depois de várias tentativas no campo da distopia e fantasia – The Handmaid’s Tale e a forma como os nossos direitos fundamentais podem facilmente ser usurpados ou Game of Thrones com a sua parábola para um enorme mal que está por vir e que requer que todos cheguem a consenso e se juntem para o combater -, não deixa de ser irónico que seja uma série ultra-realista a conjurar a metáfora praticamente perfeita para o ambiente surreal em que vivemos atualmente. Um planeta moribundo onde a verdade deixou de ter a relevância necessária, onde qualquer populista mal-intencionado pode inventar uma mentira e, perante certos públicos, conseguir escapar impune com uma nova versão dos acontecimentos. A grande lição desta minissérie mora numa casa onde a verdade não se importa com a mentira, não lhe dá qualquer valor, nem é condicionada pela mesma. Independentemente das falsidades e encobrimentos à sua volta, no dia 26 de Abril de 1986, o reator RBMK da Central Nuclear de Chernobyl explodiu assim que as leis da física se impuseram. Em suma, Chernobyl é tanto sobre o passado como sobre o presente. Seja um grande incêndio, um tsunami, a submersão das zonas costeiras com o surgimento de milhões de refugiados climáticos, a subida parabólica da taxa de óbitos relacionados com poluição, um furacão com uma força nunca antes registada, a morte da maioria das espécies animais e vegetais, uma seca extrema ou a escassez de água potável, estamos apenas à espera da próxima grande explosão.

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