Call Me By Your Name

‘Call Me By Your Name’, ensaio sobre a felicidade

Por entre as árvores dum pomar verde e esbelto, os pássaros cantam ao longe uma cantiga dedicada ao vento mediterrânico. Elio, interpretado por Timothée Chalamet, que finge ler um livro enquanto a empregada da família deambula pelas imediações, esgueira-se, assim que a oportunidade se apresenta, para o quarto do lado, onde está instalado, durante seis semanas, o aluno do seu pai, Oliver, interpretado por Armie Hammer. Sem grandes demoras, a curiosidade leva a melhor, incentiva-o a perscrutar os pertences do americano que invadiu o seu pacífico verão de rompante. Uns calções de banho vermelhos contrastam com a cabeceira branca da cama, quase como que a pedir para serem acariciados. E serão. Elio faz questão de o fazer, é para isso que ali está. Senta-se na beira da cama, cheira-os, olha-os, como se dum oásis no meio do deserto se tratassem, disponíveis para saciar uma sede incontrolável. Até que os enfia na cabeça e faz destes a sua cápsula do tempo, onde inspira o cheiro da luxúria que corrói a sua existência. Mexe a pélvis suavemente, esmagando-a contra a cama, acedendo aos seus impulsos mais primitivos. Opera os mecanismos que todos os seres humanos provavelmente já manejaram durante a adolescência, sozinhos com os seus pensamentos e desejos libidinosos, curiosos por experimentar algo novo, um pedaço do paraíso.

Call Me By Your Name

É algures no norte de Itália que esse paraíso se encontra, mais precisamente, na villa pertencente aos pais de Elio, interpretados por Michael Stuhlbarg e Amira Casar. Como pessoas hospitaleiras que claramente são, costumam receber um convidado anual, neste caso, o estudante que, nesse ano, tenha servido de assistente ao pai de Elio, um arqueologista e professor de artes clássicas. No verão de 1983, esse estudante é Oliver, um sensual e descomplexado americano de 24 anos que entra na vida desta família com a mesma pressa com que Elio se intriga com a sua presença inebriante. Resumidamente, os dois não podiam ser mais diferentes. Enquanto Elio é um estudante de música sereno e algo inseguro, apesar de ser extremamente culto para a sua idade, fruto duma vida passada ao lado de dois pais académicos, Oliver é o arquétipo do típico americano letrado, confiante e descontraído, no limiar da arrogância, trapalhão, mas resolvido. E é desse atrito que aflora uma viagem não só pela psique sexual destes dois sujeitos, mas também pelo cinema como uma arte pessoal e, ao mesmo tempo, ecuménica. Todo o filme vive do detalhe, da cor, até dos cheiros magistralmente ilustrados, das minudências que servem de compasso para os encontros e desencontros entre os dois jovens e para o ritmo pausado da narrativa. Ao contrário da maioria dos romances, Call Me By Your Name, realizado por Luca Guadagnino, não se alimenta de gestos shakespearianos, grandiosos e arrebatadores, sedento por lançar o espectador para uma masmorra de soluções impulsivas. Não. Ao invés, tudo foi construído para que os pequenos movimentos e silêncios das personagens sejam subtilmente devorados, como se a barreira que separa a tela e o cérebro da audiência fosse esmorecida, quase apagada, para dar lugar a uma experiência hiper-sensorial, um 4D da alma e dos sentimentos. No entanto, que se desengane quem vai à espera duma montanha-russa de palpitações desenfreadas. Pelo contrário, está-se perante um filme recatado, erótico, que estica os tentáculos de cada momento quase até à exaustão, pois o seu objetivo não é chocar, ou constranger, mas sim assenhorar-se aos poucos da nossa devoção à sua existência, à sua simplicidade na forma como conta uma história tradicional sobre paixão e desejo, sobre o amor em potência e as suas possibilidades. Quiçá, talvez desde Before Sunrise (1995), realizado por Richard Linklater, que nenhum filme romântico expressava duma maneira tão natural e fluída a cedência de dois seres humanos ao charme um do outro. Porém, enquanto Celine e Jesse, interpretados por Julie Delpy e Ethan Hawke, são dois monstros da eloquência verbal, Elio e Oliver são aprendizes da comunicação interna, das mensagens ocultas, dos sinais quase impossíveis de decifrar, na esperança de que, dos dois, alguém dê o primeiro passo.

Call Me By Your Name

Com o auxílio do cinematógrafo Sayombhu Mukdeeprom, o realizador usa a sensualidade das paisagens e das cidades ancestrais italianas como estimulante das sensações. Nas suas mãos, todas as tardes à beira da piscina, os passeios de bicicleta por estradas rodeadas por natureza ou até um simples lanche na esplanada servem para criar uma tímida tensão, conforme Elio ronda o fruto proibido, ávido por trincá-lo. Essa noção de pecado, da culpa associada ao comportamento sexual desenfreado, instintivo, normal num jovem de 17 anos, para mais um que está a ir contra as convenções instauradas pela sociedade, é assumida de frente pelo guião de James Ivory, baseado no livro homónimo de André Aciman, que explora, ainda que de forma discreta, os pensamentos contraditórios das personagens, assim como da década de 80. Porém, em contraste com alguns filmes sobre relações homossexuais, este em particular destaca-se pela graciosidade com que todos os temas inerentes a essa realidade complexa são abordados, não se perdendo tempo com as vicissitudes que todos já sabemos existir num mundo amiúde preconceituoso, mas antes com a exploração dos impulsos carnais das duas personagens principais. A banda sonora desempenha igualmente um papel importante ao oferecer ao filme os seus escassos momentos melodramáticos, destacando-se a exímia utilização das melodias solenes de Sufjan Stevens que, no momento certo, fazem o seu estrago. Como tal, à semelhança dos seus trabalhos anteriores como I Am Love (2009) ou A Bigger Splash (2015), Guadagnino usa a música, as texturas do cenário e a forma como as personagens se imiscuem neste para criar um  agregado cinematográfico onde ensaia não só a relação homossexual dos protagonistas, como também uma aventura universal pela embriaguez associada ao primeiro amor e à descoberta sexual. Pois, muitos de nós, adultos, já tivemos o nosso Oliver, independentemente da orientação dessa relação. Quase todos nós, com mais ou menos intensidade, já passámos por essa perdição fugaz que nos eriçou a penugem e fez viver tudo ao máximo, como se o amanhã não fosse existir. Call Me By Your Name é sobre isso. Sobre os minutos que não passam para que ele venha, e os minutos que fogem quando ele está. Sobre o desespero de querer tanto algo que tudo o resto vira o pináculo da efemeridade, obsoleto perante tanto desejo, tanta ansiedade, perante a urgência da entrega corajosa a esse alguém.

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Todavia, este elixir chamativo apenas funciona devido à excelente interpretação dos dois atores principais. A química entre estes é inegável, inspiradora até, mesmo nas cenas eróticas em que, por norma, seria mais fácil a estranheza instalar-se. Na maioria dos filmes, esse ardor tende a ser captado através de planos fechados e da invasão do espaço íntimo das personagens, como se a paixão tivesse sempre de ser retratada como um íman sem cura em que só o pólo do choque sexual funciona – o close-up como ilustrador da atração física. Ao invés, na maioria das cenas, Guadagnino optou por enquadrar os dois amantes através de planos médios e abertos, sendo dado destaque ao comportamento do corpo como um todo. Coincidência não é, portanto, que os atores se cubram de pouca roupa, geralmente calções curtos e camisas abertas. Com tudo isto, a expressão da eletricidade que existe entre Elio e Oliver passa a ser a soma dum ecossistema artístico planeado ao pormenor, desde a linguagem corporal lasciva dos atores, passando pela decoração das salas e vestimentas, até aos planos abertos da Itália nortenha. Realce terá também de ser dado a Michael Stuhlbarg que, já perto do fim do filme, contrariando a sua presença discreta ao longo da narrativa, concretiza aquela que é porventura uma das melhores e mais sinceras interações pai-filho da história do cinema. E aí sim, se começa a desenrolar um novelo emocional que derruba o espectador do seu pedestal privilegiado, de onde assistia calmamente a esta tenra história de amor, e o lança para o inverno em que Chamalet se refugia e faz explodir todo o seu talento, num raro momento de empatia com todo o espectador que já se tenha apaixonado de verdade e para quem o tal verão também se dissipou com a inevitável passagem do tempo. Numa provável e imprevisível renúncia às expetativas de alguns, Call Me By Your Name distancia-se das habituais ramificações sociopolíticas dos filmes queer, não que ignore assuntos como o preconceito ou o tabu, e transforma-se num hino transcendente ao cinema, ao amor próprio e ao primeiro amor, à vida e às emoções que fazem desta uma viagem sem igual. Mesmo que dum pré-adulto se trate, nunca, em nenhum momento, é desvalorizada a profundeza dos sentimentos da personagem principal em prol do impacto emocional da narrativa. Com Elio, o espectador, pelo menos o que se emaranhar nesta história, irá até ao fim, até aos créditos finais. De mão dada com o seu ensaio sobre a felicidade, até que, de repente, nasce uma das catarses mais expressivas de sempre da sétima arte. E não só. Nasce um adulto. E um clássico do género coming of age que certamente marcará pela positiva todos os que se deixem contagiar pela sua febre veraniça.

Essencial

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