Blade Runner 2049

‘Blade Runner 2049’, arrojado e melancólico

O agente K, interpretado por Ryan Gosling, chega a casa depois de mais uma missão perigosa. A sua cara metade espera-o impacientemente, recebe-o com a voz doce e feminina que qualquer homem heterossexual deseja ouvir quando chega a casa. O jantar está pronto, a mesa está posta, só falta que a voz se materialize num corpo, no de uma jovem bem-disposta a julgar pelos ditos que vêm do outro lado da casa. K vai respondendo às perguntas mundanas que esta lhe vai colocando ao longe. As divisões vão sendo filmadas pela câmara de Roger Deakins, mas jovem nem vê-la. Quem já viu Her (2013) de Spike Jonze poderá libertar um urro de familiaridade, conforme vem à memória o ser digital invisível vocalizado por Scarlett Johansson. Não sendo a referência inocente, esta lá é contrariada pelo súbito aparecimento duma beldade incorporada pela atriz cubana Ana de Armas. “Olá querido”. Ora com vestes de dona de casa dos anos 50, ora envolta pelo cabedal duma vestimenta sensual numa questão de nanosegundos, nada mais que uma namorada holográfica que se senta no seu colo e o abraça e beija e acende o seu cigarro mesmo que, na verdade, não lhe toque. O amor está no ar, se bem que não exista numa esfera física e palpável. Será amor então? Ou uma emoção vazia, ilusória, fruto da realidade virtual e da inteligência artificial? Poderá o amor florir numa relação meramente anímica e programada para assim o ser? Em Blade Runner 2049, provavelmente, já os óculos VR se tornaram obsoletos, antiguidades ultrapassadas pelos novos sistemas basculantes que percorrem o teto da casa e fazem da jovem, Joi de seu nome, presença calorosa na vida dum homem, um replicant neste caso, solitário. “Olá 2017”, cumprimenta o realizador Denis Villeneuve, ciente de que por aqui ainda usamos os óculos VR e a Joi ainda está em fase muito experimental. O sentimento que cria a necessidade da sua existência, no entanto, está bem presente. Mais “vivo” do que nunca.

Blade Runner 2049

Como realizar a sequela de um dos melhores filmes de ficção científica e de culto de sempre sem que esta pareça uma cópia ou tentativa de aproveitamento do prestígio do original? Como agradar aos fãs do filme de 1982 e conquistar um novo público? Como funcionar como blockbuster e, ao mesmo tempo, ensaio refletivo? Como realizar um filme marcante e relevante? Para além de ter reunido uma das equipas de produção mais competentes de sempre, Villeneuve responde ao prelúdio de perguntas, que com certeza colocou a si próprio na fase de pré-produção, com um aceno às fobias sociais do princípio do século XXI. Pois não é só a namorada holográfica do agente K que nos fará franzir o sobrolho e pensar intimamente sobre o pânico social em que, como população globalizada, vivemos. Em 1982, poucas pessoas estavam disponíveis para ouvir o que Blade Runner tinha para dizer. A economia norte-americana saía do buraco pelas mãos do presidente Ronald Reagan e, pela primeira vez em anos, avizinhava-se um futuro brilhante e esperançoso. Por sua vez, o filme de Ridley Scott trazia o negrume em forma de distopia, a demonstração longínqua de tudo o que poderia correr mal nesse sonho tão americano, tão vaporoso quanto incoerente: poluição, degradação urbana, escravatura moderna, globalização, o corporativismo como força opressora, as alterações climáticas e, o mais burlesco de todos, a perda de controlo sobre o avanço tecnológico. Em 2017, vencidos os medos do filme original, ou melhor, aceite a razão de mentes visionárias que estavam a ver muito para além do seu tempo, teremos agora disponibilidade emocional para ouvir o que Blade Runner 2049 tem para dizer? Teremos coragem de aceitar que nos transformámos numa civilização em que a interação humana se está a degradar a uma velocidade vertiginosa? Uma em que, tal como na lide doméstica de K, vivemos vidas idênticas, quais peças numa linha de montagem, em que seguimos modas e tendências, ouvimos e lemos aquilo que nos convém e alimenta as nossas noções, em que a sobrecarga de informação supérflua e a overdose de títulos e manchetes serve, muitas vezes, de disfarce para a ignorância. Um mundo onde a poluição se está a tornar insuportável, onde os valores económicos se sobrepõem às relações humanas, onde se fala de muros e vedações em vez de pontes e apertos de mão, onde as relações afetivas e sexuais são constantemente instrumentalizadas pela tecnologia e onde nutrimos relações efémeras com pessoas que nunca vimos para além dum ecrã de computador ou telemóvel, dispositivos estes cujas peças podem ter sido montadas por uma criança num país pobre e remoto. “Todas as grandes civilizações foram construídas às costas duma força de trabalho substituível”, diz a certa altura Niander Wallace, um fabricante de replicants com complexo de Messias interpretado por Jared Leto. Teremos disponibilidade emocional suficiente como sociedade de consumo para aceitar e vangloriar um filme que se apresenta fundamentalmente como uma versão exagerada e pitoresca da realidade urbana em que vivemos atualmente? Pois todos estes desenhos macroeconómicos estão implícitos em Blade Runner 2049, ora escondidos nas esquinas que o replicant interpretado por Gosling vai cruzando, ora gravados em letreiros gigantes e coloridos. Tal como acontece a dada altura com K, bastará parar e observar com atenção. Aceitar.

Blade Runner 2049

Como tal, a Los Angeles lúgubre do filme original apresenta-se novamente ao serviço, ainda mais suja, ainda mais claustrofóbica, ainda mais desoladora, uma visão futurista da tão nossa vivência urbana atual, bladerunneriana poderíamos chamar-lhe, já comum na metrópole asiática, onde seres humanos de máscara protetora vagueiam diariamente por ruas repletas de fumo e ruído. Os epígrafes em forma de luz néon, os carros voadores e os anúncios gigantes dirigidos ao desejo sexual masculino continuam presentes, agora acompanhados por hologramas colossais que dançam pela cidade. Caso o agente K, que tem mais com que se preocupar, perdesse alguns minutos da sua rotina violenta e olhasse para estes, poderia rapidamente perceber que a sua Joi anda pelas casas de meia cidade, a papaguear os mesmos ditos românticos, a exibir as mesmas fatiotas e a apresentar a outros o mesmo amor incondicional que este tanto preza. “Tudo o que queres ver, tudo o que queres ouvir”, é o seu chamariz publicitário cor-de-rosa. Pessoas a viver vidas iguais, ou parecidas, sedentas pelas mesmas coisas, influenciadas pelas mesmas corporações e com o mesmo intuito: o escape duma sociedade elitista onde muitos trabalham para a riqueza de poucos. 2049 ou 2017, ficção ou realidade, descubram-se as diferenças. K é mais um ser à procura do seu lugar ao sol, obrigado a cumprir as ordens do seu patrão, a fazer aquilo que lhe foi predestinado, programado no seu caso. A pedra no charco do blade runner, um replicant de nova geração encarregue de caçar replicants antigos e foragidos, dá-se quando este tropeça num segredo que pode mudar o curso da história e o lança no encalço de Rick Deckard cuja presença e hora de chegada, infelizmente e ironicamente, ou não fizesse a obra uma crítica explícita ao corporativismo, é preestabelecida pelo inevitável e megalómano marketing que acompanha as produções de Hollywood. Imagine-se, principalmente quem já teve o prazer de ver o filme, se fôssemos para o cinema inconscientes da participação de Harrison Ford ou, pelo menos, sem conhecer o contexto visual da sua aparição. Não obstante, numa fase introdutória, as mecânicas do argumento de Hampton Fancher e Michael Green têm a função tripla de gerar um mistério convincente interligado aos eventos da obra anterior, despoletar uma odisseia discreta pelo universo expandido por Villeneuve e, ao mesmo tempo, servir de catalisador para as dúvidas existenciais do protagonista artificial que, qual Pinóquio, zarpa em busca desse mito pós-moderno da criança de madeira que queria ser real. Ter importância, ser especial. Quem nunca pensou o mesmo? Partir para a aventura na companhia deste ser artificial, interpretado por Gosling de forma exímia, é sinónimo duma das experiências sensoriais mais competentes dos últimos anos. Tudo parte da diversidade dos cenários escolhidos. Desde o pequeno retiro zen do antagonista interpretado por Leto, os rooftops repletos de neblina e poluição típicos de cidades como Pequim, até uma urbe deserta e poeirenta, todos os cenários, apesar da sua conotação distópica, mantêm-se presos a referências visuais a cidades e paisagens atuais. Destaque para o predomínio da cor amarela, talvez devido ao facto de ser um tom que capta a atenção e, segundo estudos, pode provocar sentimentos de ansiedade e tensão quando em excesso. Num filme de quase três horas onde abundam várias cenas de ritmo lento e contemplativas, a estética ganha importância redobrada, sendo notório o cuidado do cenógrafo Dennis Gassner em cingir todos os cenários a uma arquitetura rígida onde é rara a superfície esférica. Esta escolha ajudou a dar ênfase às constantes condições climáticas adversas e à topografia dum oeste americano completamente transfigurado. À memória virá o The Cabinet of Dr. Cagliari (1920), relíquia de Robert Wiene, ou, nas cenas passadas num hotel casino, os corredores do Overlook Hotel e o bar de The Shining (1980) de Stanley Kubrick. Por sua vez, a fotografia de Roger Deakins é apelativa e profunda. Este não se limita a planos geométricos e calculados, transformando tudo o que a sua lente capta num momento especial onde o traço inconfundível do seu talento e paixão é evidente. À sua lenda sem dúvida que se acrescentarão os planos hipnotizantes de Gosling a entrar por uma neblina vermelha adentro, perdido num quadro distópico amarelado, qual pintura de Van Gogh, que se diversifica em relação ao filme original. A vaguear por essa moldura surrealista, os atores fazem, sem exceção, um trabalho competente e cuidado. Realce para Ana de Armas que consegue uma performance tridimensional apesar de agarrada a uma personagem holográfica, para um Harrison Ford que, ao contrário da versão piloto automático de Star Wars: The Force Awakens (2015), demonstra profundidade emocional e para as lágrimas da holandesa Sylvia Hoeks, no papel de Luv, que ficarão marcadas como o ponto alto da expressividade replicant. Quanto à banda sonora criada por Hans Zimmer e Benjamin Wallfisch, esta faz vénia à sinfonia eletrónica de Vangelis, compositor do filme original, encontrando, porém, a sua identidade própria conforme se transforma numa espécie de resposta análoga à premissa intelectual do filme, uma enorme máquina pulsante que vai ficando cada vez mais pesada sem, todavia, cair na armadilha do exagero. Ao contrário do trabalho recente em Dunkirk (2017), em que, de certa forma, a música se apodera excessivamente do filme, aqui, Zimmer faz da sua presença criativa uma brisa suave, numa alternância inteligente entre sintetizadores contemporâneos e o Yamaha CS-80, relíquia analógica semelhante à utilizada por Vangelis em 1982. Em síntese, o domínio de todos os aspetos técnicos inerentes à produção foi peça fundamental para que Villeneuve conseguisse fazer prevalecer uma base visual e sonora semelhante à do filme realizado por Scott, à qual adicionou o seu engenho pessoal e criativo. Conseguiu o realizador canadiano superar o original? Talvez. Mas, será essa a pergunta que realmente interessa? Afinal, devemos castigar o Blade Runner 2049 por ser uma sequela? Devemos permanecer presos às sensações do passado, em vez de abraçarmos o futuro? Se Villeneuve se tivesse agarrado ao perfume noir do original, não estaríamos agora a reclamar duma colagem excessiva? Se Villeneuve tivesse fugido completamente dos mitos criados na Los Angeles de 2019, não estaríamos agora a chorar sobre a cova que lhes tinha sido cavada? O que se tem é um equilíbrio, um que se perfaz de escolhas sensatas e aceitáveis que fazem desta obra um dos filmes de ficção científica mais competentes desta geração.

Blade Runner 2049

Mais foco poderia ser dado, ao invés, a uma pergunta bem mais áspera: porque é que não são feitos mais filmes como este? Filmes que, sem abandonarem o seu registo grandiloquente e dispendioso, pois gastar dinheiro faz parte do processo, colam o espectador à tela, criam debate e reflexão, marcam estaca em solo de ninguém. Exemplo dessa inovação é a utilização tripartida de hologramas, efeitos especiais gerados a computador e sombras naturais para dar vida a algumas das cenas mais ambiciosas de sempre, entre as quais uma cativante cena erótica que marca para sempre o género de ficção científica e a retórica cyberpunk. O fardo da expansão é ultrapassado por Villeneuve e pela sua equipa a olhos vistos, pegando no pessimismo do filme original e catapultando-o para um conceito mais vasto, plástico e grandioso. As questões filosóficas e existenciais foram igualmente ampliadas, mantendo-se o traço antigo da personagem carente de razão, na busca por algo que a faça sentir-se real. O guião aventura-se pela capacidade da memória de moldar os nossos atos e afetos, sem nunca abandonar a luta moral entre o artificial e o biológico, entre o implante e o tangível. No cabaz das inconsistências pode-se colocar a insistência em flashbacks quase explicativos, algo desnecessários, que roubam ao filme alguma da sua irreverência, assim como alguns avanços no enredo que parecem pouco fluídos e diálogos totalmente concentrados nas personagens masculinas, caraterística que pode ser propositada. Obstáculos à parte, Blade Runner 2049 é uma experiência audiovisual única, um potencial clássico do futuro, um excelente e arriscado trabalho de Villeneuve que tem a audácia de irromper pelo mercado cinematográfico dos blockbusters com um filme de ritmo pausado e sedativo. Vê-lo é como sentar numa galeria a olhar para um quadro enigmático, uma obra de arte onde as fronteiras do género humano se agigantam através da questão existencial. Os traços são variados, os significados imensos. Enfim, um bazar das modernidades, algumas ainda por vir, e medos do século XXI, arrojado e melancólico, um que fica no coração, enriquece a vista e o debate. Se não é este o filme que devemos apoiar como possível paladino duma mudança de panorama no cinema mainstream monossilábico e frustrante dos últimos anos, então qual será? Se não é esta a tentativa de blockbuster pela qual devemos torcer, então qual será? No final de Arrival (2016), também da autoria do canadiano e, porventura, a sua verdadeira obra-prima, fomos enjaulados numa sensação de emoção súbita e auto-explicativa, numa tristeza complexa e profunda, como se naquele minuto derradeiro a nossa própria existência se prendesse àquela história sobre os extraterrestres que apenas queriam comunicar com os humanos. Por sua vez, Blade Runner 2049 oferece-nos o cair da tela repentino, sorumbático e frustrante. Caminho aberto para uma sequela, como muitos têm interpretado, e talvez com razão, ou o mais humano que poderia ser feito? Que cada um decida. Escolher é o que de mais humano se pode fazer.

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