Billions

‘Billions’, a dança dos egos

Os elementos mais importantes numa série de televisão são as suas personagens e o mundo que se constrói à volta dos seus sentimentos. Apesar da importância dos aspetos técnicos, na maior parte das vezes, a pergunta que o espetador com o tempo contado coloca a si mesmo é: consigo passar várias horas na companhia destas personagens? E é na resposta a essa interrogação que Billions ganha, logo de início, uma vantagem tremenda em relação à maioria dos shows que se vestem de drama financeiro, político ou judicial. Os seus dois protagonistas são velhacos, magnéticos e duma pujança verbal acima da média. Bobby Axelrod, interpretado por Damian Lewis, é um génio da alta finança, o CEO dum fundo de investimento com uma suposta queda para jogar à margem das leis. Destemido e altamente perspicaz, é o anti-herói distorcido, o multimilionário sem escrúpulos, ou com alguns para os seus amigos, que passa por cima de qualquer obstáculo para conseguir o que quer. Se fosse possível fazer uma fusão entre a dissimulação do Gordon Gekko de Michael Douglas e o espalhafato do Jordan Belfort de Leonardo DiCaprio, o resultado seria, provavelmente, alguém com uma personalidade semelhante à de Axelrod. Do outro lado da barricada – do lado da lei – está Chuck Rhoades, interpretado por Paul Giamatti, o Procurador do Ministério Público que fermenta ao longo dos episódios a ideia de prender Axelrod. Entre os dois homens, não se tratando duma disputa romântica, encontra-se a esposa de Rhoades, Wendy, interpretada por Maggie Siff, que trabalha na empresa do multimilionário como especialista  em recursos humanos. Uma espécie de curandeira da mente que ajuda os analistas a libertarem-se das ansiedades provocadas pelo excesso de cifrões. Muito ajudou também a este festim da Wall Street questionável a introdução entre temporadas de Taylor Mason, a primeira personagem de género não-binário ou neutro da história da televisão, interpretada por Asia Kate Dillon, que também se identifica como tal na vida real. Esta, claramente sobredotada, transforma-se no aprendiz improvável de Axelrod, uma versão avançada e nada ingénua do Bud Fox de Charlie Sheen, perdoe-se a referência repetida ao Wall Street (1987) de Oliver Stone. E é esta quadra que, juntamente com um grupo de personagens secundárias carismáticas, responde à tal pergunta do espetador com uma robustez afirmativa fora do normal.

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No entanto, que se acalmem os ânimos. Billions, tal como tantos outros projetos televisivos, dá alguns tropeções na primeira temporada. Alguns episódios divagam pelos mesmos assuntos de forma repetitiva e a série tenta em vão fazer uma crítica sarcástica à sociedade consumista norte-americana. Por vezes, dá até ares de irrealista com alguns momentos cuja absurdez é diluída no excelente trabalho dos atores. É, portanto, e aqui há que ter noções de basebol, necessário referir que não se está perante o home run flagrante em que a bola já saiu do estádio e o heróico batedor passeia pelo relvado num instante de glória. A primeira temporada de Billions é antes aquela bola rasteira e saltitona que acaba por ser apanhada e põe o batedor em sérias pressas. Um home run à rasca. Porém, como que desafiados pela reação mista inicial, os criadores da série, Brain Koppelman, David Levien e Andrew Ross Sorkin, o último um jornalista do New York Times especialista em Economia, puseram mãos à obra e desenvencilharam-se da crise de entidade, dos cameos forçados de celebridades e dos excessivos devaneios sobre o mundo das finanças, dando lugar a uma segunda temporada bastante melhorada, aperfeiçoamento que se cimenta na terceira temporada. Qual foi o truque? A concentração no grande trunfo da série: as suas personagens e os seus problemas. O duelo de titãs entre Axelrod e Rhoades transforma-se num combate estratégico, uma espécie de jogo da sueca no café da esquina só que com milhões de dólares à mistura, uma dança de egos cativante. Os episódios passam a correr qual tigre em busca da gazela, só que ali os tigres são muitos e têm fome de riqueza e poder.

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Em suma, podem esperar-se os diálogos sobre números, instituições financeiras e leis anticorrupção, nunca deixando estes de serem englobados na vida pessoal dos intervenientes. A série concentra-se sempre no dilema humano e nunca no financeiro ou político. Se não é de ficar pelo argumento complexo e cheio de duplos significados e referências a Wall Street, que se fique para assistir à constante medição de testosterona entre os protagonistas. Dois atores no auge dos seus atos, contagiosos, com a jugular de fora, repletos da ferocidade que se pede ao animal mais ambicioso da selva. Que o marcar de território comece, acompanhado duma metáfora constante para a profundidade dos bolsos de cada um. Moderna, mas com o toque das séries políticas old school, agressiva, com defeitos perdoáveis, com ritmo, Billions é televisão de qualidade.

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