‘Bad Education’, a perversidade do sistema escolar norte-americano

Não são novidade os pais ambiciosos e obsessivos que, custe o que custar, tentam projetar os filhos para um futuro risonho. Tudo conta: a vizinhança certa, a escola certa, as atividades extracurriculares certas, sempre com o objetivo de tentar garantir uma vaga numa universidade prestigiada, na esperança de que, a seguir, venha uma carreira lucrativa. Como resultado disso, esporadicamente, vão sendo descobertos casos de má conduta por parte dos mesmos ou de funcionários do sistema escolar, forçados ou aliciados a inflacionar notas, deturpar candidaturas, entre outras indiscrições. Todavia, esses episódios ocasionais acabam por cair nos anais do esquecimento, graças a um sistema desenhado com o intuito de proteger o status quo — as oportunidades do costume para os privilegiados do costume. Mais um pedaço pútrido do “sonho americano”.

Eis Frank Tassone, o superintendente de uma das melhores escolas públicas da região de Long Island e do país, interpretado por Hugh Jackman. Charmoso, compreensivo, conhecedor dos nomes de toda a gente, dá o litro em nome do objetivo de levar a escola secundária de Roslyn ao pódio nacional, feito que, tal como admite o seu chefe interpretado por Ray Romano, aumenta a probabilidade dos alunos entrarem em universidades de topo, o grau de satisfação da comunidade e, imagine-se, o preço dos bens imobiliários da região. Apesar do foco na vida pessoal e nas travessuras do superintendente, é este o grande tema de ‘Bad Education’, realizado por Corey Finley: a perversidade do sistema escolar norte-americano.

Com laivos de comédia negra, o filme dramatiza como o dito sistema pode ser instrumentalizado para satisfazer as necessidades individuais e coletivas de gerar riqueza e estatuto. O motor dessa reflexão é o projeto “Skywall”, um empreendimento milionário destinado a embelezar as instalações da escola cujo orçamento, como é costume, tem de ser aceite e apoiado pelos pais dos alunos. É aqui que entra a operação de charme levada a cabo por Tassone, quase como um político em busca de votos. A sua missão é criar um invólucro de aparente competência, uma máscara de sucesso. Quanto maior for a impressão de que a escola está a ser bem gerida, maior é a probabilidade de aceitação em universidades de topo, ficando a qualidade intrínseca do ensino para secundo plano. Importa mais o aparato do que a substância.

Por conveniência, aos pais dos alunos só interessa o resultado desse jogo burocrático: os filhos entrarem em Harvard. Como tal, é fácil ignorar o orçamento absurdo das obras na escola, é ainda mais fácil ninguém ir verificar se todos as despesas desse orçamento correspondem a material utilizado nas ditas melhorias estruturais. Assim surge “o maior, mais notável, mais extraordinário, assalto ao sistema escolar na História dos EUA”, tal como referiu um dos responsáveis do Estado, em 2002. Os autores do crime: a diretora de negócios da escola, Pam Gluckin, interpretada por Allison Janney, e, se bem que o enredo crie algum suspense à volta do óbvio, o superintendente.

À vista desarmada, está-se perante mais um filme sobre um crime americano com um ligeiro tom de sátira, à semelhança de ‘I, Tonya’ (2017), porém, nos detalhes, nas situações mais descomprometidas, faz-se notar uma esforçada e magra análise a um problema sistémico: os trabalhadores escolares são mal pagos, ao passo que toda a gente lhes exige mundos e fundos. Esta reflexão é aumentada pelo descortinar do crime, conforme, graças aos esforços de uma estudante curiosa e persistente, o desfalque de milhões é posto a nu.

No entanto, os gastos obscuros de Tassone, com dinheiro da escola, no fundo, são destinados à melhoria do exercício do seu trabalho. Ele compra fatos caros para usar nos eventos públicos com pais e investidores, digere comida biológica para melhorar a imagem, mantém um apartamento noutra cidade para afastar a sua vida pessoal da escola e de uma potencial polémica, e o crime até foi descoberto porque este, no seu papel de educador, encorajou uma estudante a aprimorar o seu processo jornalístico numa peça sobre o projeto “Skywall”. Em suma, ele sente que tem direito às regalias de que usufrui com a apropriação ilegal de verbas públicas, depois de uma vida profissional destinada a criar condições para que os outros possam ter uma vida futura de requinte.

Óbvio que ninguém no seu perfeito juízo pode atribuir o estatuto de mártir ao superintendente corrupto. O guião de Mike Makowsky, estudante na escola de Roslyn na altura do sucedido, pretende chamar a atenção, de uma forma subtil, para a frustração diária dos profissionais de ensino, sendo que a personagem de Jackman funciona como uma versão em esteroides desse descontentamento, da sensação que a recompensa não é adequada à tarefa megalómana em mãos. A diferença entre Tassone e os milhões de professores insatisfeitos pelo mundo fora é que este decidiu roubar os espólios a que achava ter direito. Ademais, o filme também tenta sugerir a existência de uma caixa de multibanco paralela à azáfama da sala de aula onde alguns aproveitadores vão levantar somas exorbitantes através de negócios que são beneficiados pelo sucesso da escola.

Ao contrário da sua obra anterior, ‘Thoroughbreds’ (2017), o realizador mantém a sobriedade necessária para que sejam os atores a brilhar, destacando-se apenas alguns tracking shots que visam ilustrar os bastidores da escola, onde dezenas de funcionários e estudantes cumprimentam o superintendente à medida que este passa, qual estrela de Cinema consagrada. Na pele deste, Jackman regista uma das melhores interpretações da sua carreira. Um ator menos capaz teria-se cingido a exaltar o típico vilão pateta, contudo, o australiano conseguiu abarrotar a personagem de pequenas lascas de instabilidade e dúvida, focando-se numa emoção comum a este tipo de criminosos: eles pensam que merecem o que estão a roubar.

O grande problema do filme, tendo em conta a mensagem almejada, é a pobre demonstração do que realmente distingue Roslyn das outras escolas. Afinal, porque é o superintendente tão bom no seu trabalho? Qual é o tamanho das turmas? Qual é a composição étnica da escola? Quais são os programas ou hábitos que ajudam os alunos em questão a ter melhores notas do que os das escolas vizinhas? Qual é a classe financeira dos pais dos alunos? Qual é a situação política da região? Existe uma série de pormenores e informações que são extraídos da narrativa, roubando ao espectador uma noção alargada do sistema rascunhado, a não ser que esteja familiarizado com a zona de Long Island. Por exemplo, mais que uma vez, as personagens frisam a importância da qualidade do ensino para a valorização das casas dos arredores, mas, na prática, essa dinâmica, que não depende só dos resultados da escola, nunca é demonstrada.

No fim, fica a sensação de que guionista e realizador respondem às perguntas antes sequer de as colocarem, como um corredor que resolve levar as barreiras todas à frente em vez de tentar saltar uma a uma. ‘Bad Education’ é um excelente estudo de personagem que falha em explorar devidamente o modelo macrossocial que permite e incentiva o comportamento incorreto da mesma.

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