Baby Driver

‘Baby Driver’, uma ópera do asfalto

Lembram-se dos melhores dias da vossa vida? Provavelmente vêm à memória por causa duma música que tocava em plano de fundo ou dum momento hilariante, da pessoa que vão recordar para sempre ou duma situação improvável. O cinema, tal como a vida, está repleto dessas casualidades. Frames que vão durar para sempre, pedras imutáveis e resistentes à rebeldia do Verão que nos afasta do grande ecrã e nos leva para a praia, para a esplanada, a visitar outro país ou cultura, estudar para exames ou, simplesmente, descansar de mais um ano árduo de labuta. No entanto, para o cinéfilo, esses frames, essas impressões audiovisuais gravadas a ferro quente no hipocampo, possivelmente perdurarão para sempre. Fazem parte de nós e connosco os levamos para o cinema onde damos oportunidade a mais um filme que poderá, ou não, dar-nos uma nova recordação cinematográfica vitalícia. Nesse processo, entra o chamado “cliché”. Para quem tem centenas, provavelmente milhares, de horas de experiências audiovisuais, funciona como uma espécie de antecipação, um histórico mental que nos faz pensar “já vi isto em qualquer lado”. Contudo, com Baby Driver vem a pergunta: e se o cliché for propositado? E se o cliché funcionar como homenagem às tais preciosidades cinematográficas que guardamos na nossa memória?

Baby Driver

Baby (Ansel Elgort), uma versão meninil do driver interpretado por Ryan Gosling, trabalha para Doc (Kevin Spacey), uma versão gangster de Frank Underwood ou do chefe intragável de Horrible Bosses (2011), como condutor de fuga em assaltos à mão armada. Ao jovem que tem um problema de audição que o obriga a ouvir música constantemente juntam-se Jamie Foxx, no seu registo de ladrão lunático retirado de outros filmes, Jon Hamm, numa alternativa punk e delinquente ao homem petulante que costuma interpretar, Lily James, no papel da rapariga ingénua que, adivinhe-se, trabalha num diner e a quem o mundo fez mal, entre outras personagens que não fogem muito das caricaturas que já vimos em vários filmes do género. E é na apresentação destes cromos repetidos, alguns deles interpretados anteriormente pelos atores que precisamente lhes dão vida, que nos podemos aperceber de que o realizador Edgar Wright não veio para inovar, mas sim para nos servir algo que já vimos antes numa bandeja altamente estilizada. A nostalgia remixada e libertada pelo tubo de escape dum bólide barulhento. Critiquem negativamente os que quiserem, pois é sem dúvida uma escolha divisória, mas o cliché visual e narrativo é propositado, a familiaridade faz parte do risco irreverente que Wright corre na grande mistura de imagens e sons que é Baby Driver. Dentro do drama hollywoodesco previsível, o cineasta explora as possibilidades audiovisuais do lugar comum e tenta esquivar-se, talvez em vão, do ceticismo que essa escolha criativa possa levantar. Encaremo-lo como um maestro audiovisual que resolveu agarrar nas suas próprias preciosidades cinematográficas e transpô-las para um heist movie conduzido ao ritmo da música que Baby ouve nos seus auriculares. Nunca uma simples justaposição de imagens acompanhadas por música pop rock, mas uma construção audiovisual imersiva que satisfaz todos os estímulos sensoriais possíveis numa experiência cinematográfica, utilizando elementos da cultura pop e do cinema dos anos 80 como base. Uma festa de referências visuais, uma ópera do asfalto.

Baby Driver

Prova da intencionalidade será talvez a cena em que o protagonista grava as instruções do seu chefe mafioso num gravador e vai para casa misturá-las com uma série de ritmos e batidas. Numa clara alusão a si próprio, Wright implantou em Baby o hábito de gravar conversas do dia-a-dia e remexê-las de maneira a criar músicas com os diálogos que vão enchendo a sua rotina criminosa. Ora não será esta uma metáfora para o filme em si e para a sua carreira como realizador? Um fã dedicado que idealiza filmes com os elementos que vai colecionando relacionados com as temáticas que pretende satirizar: a fórmula repetida dos mortos-vivos em Shaun of the Dead (2004), os polícias da província em Hot Fuzz (2007) ou, aquele que talvez se assemelhe mais a Baby Driver na maneira como faz colidir uma série de menções populares, Scott Pilgrim vs. The World (2010), onde o cineasta cria um marco geracional nutrindo a relação estética entre o drama juvenil, os videojogos e a banda desenhada. Seria possível fazer esta homenagem às perseguições automóveis, à Motown, aos diners, ao amor ingénuo, ao queimar dos pneus, à música perfeita para o momento perfeito e aos suspeitos do costume sem pegar em narrativas idênticas do passado, sem explorar essas referências batidas e recicladas? Talvez. Mas na indagação excessiva desses “ses” chegaremos provavelmente a lado nenhum, ficando por apreciar devidamente a experiência espalhafatosa que este filme proporciona. Subtraindo-se os clichés premeditados à conversa, aos aspetos negativos podem, no entanto, adicionar-se reparos em relação à derivação falhada de diálogos tensos pré-violência típicos dos filmes de Quentin Tarantino e às cenas de perseguição que, apesar de bem executadas, não chegam ao patamar antecipado. Fica-se o filme todo à espera do festim automóvel, anunciado por uma primeira cena fantástica, que acaba por nunca chegar, resumindo-se a um confronto final com tonadas apocalípticas banhadas a negro e vermelho, acompanhado por um solo vigoroso de Brian May, guitarrista dos Queen. O filme também pode ser acusado de se parecer em alguns momentos com um videoclip, uma sucessão de discos pedidos que não são acompanhados por um argumento astucioso, como vinha a ser hábito das obras anteriores do cineasta britânico. Acabamos por nunca usufruir dum momento genuinamente hilariante ou que se destaque pela duplicidade de sentidos. Tivesse esta obra um guião mais inventivo e daí até ao icónico seria um tirinho, o que não deixa de ser paradoxal tendo em conta o objetivo já referido de agraciar as narrativas incomplexas do passado. Na sua homenagem visual e sonora aos lugares comuns do cinema do género, fica a sensação de que Wright se esqueceu de convidar um elemento indispensável para que a festa ficasse completa: a escrita e as referências líricas que esta acarretaria num filme desta índole.

Baby Driver

À primeira vista, Baby Driver parece nada mais que uma célere paixão de Verão, efémera, superficial, pintada com uma dose anormal de estilo. Porém, e aqui entrará a potência do detetor de referências de cada um e a dose de frames que possam ter imprimido ao longo da vida, conjuga-se como uma obra entusiasmante devido à harmonia que apresenta entre a imagem, o som e as referências culturais à música e ao cinema. Como se La La Land (2016)  tivesse ganho rotações extra, armas de calibre 38 e caçadeiras, e um ar violento de psicopata. Talves Wright não chegue ao nível de Chazelle devido à falta de profundidade do romance apressado que pôs em marcha entre o condutor e a empregada de diner. Não obstante, tudo se mexe ao ritmo da batida: as perseguições automóveis transformam-se numa dança frenética, as balas e os embates de carros marcam o contratempo das cenas, até os diálogos dos programas de rádio servem de interlúdio entre estados de humor. Assiste-se, portanto, a uma espécie de literalização física da música na tela, servindo esta como elemento chave na cadência do corte. Ademais, essa montagem acelerada serve muitas vezes para introduzir piadas visuais, nunca parecendo o número absurdo de cortes defeito ou pretensiosismo. Outro dos seus triunfos reside na ligação entre Baby e o design de som, como se todos os seus movimentos fossem conduzidos pela banda sonora, como se este e a música que ecoa dos seus auriculares fossem um só, chegando ao ponto de, quando este os retira, ouvirmos o zumbido que o atormenta desde criança, pormenor que confirma a lógica narrativa via som que é impingida desde o primeiro minuto. Como resultado, temos a coordenação de todos os elementos cinematográficos presentes em cena, um exemplo competente de como uma história pode ser contada através de sons e imagens. Baby Driver é a música de Verão que nunca vamos esquecer. Podem passar anos sem esbarrarmos nela ou sem lhe darmos o devido valor, mas, quando tocar, vamos querer ouvi-la. Pena que Edgar Wright, um dos cineastas mais inovadores da sua geração, não lhe tenha dado um refrão memorável ou um solo de chorar por mais, aquela frase que fica no ouvido, o “I double dare you” que tanto se pedia, o tal frame que ia perdurar para sempre.

Bom

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