At Eternity's Gate

‘At Eternity’s Gate’, rugas que lhe dão encanto

Quando Vincent Van Gogh olha para a paisagem do sul de França, região onde pintou alguns dos seus quadros mais famosos, o que é que ele vê? O que é que ele sente ao caminhar pelas planícies que virão, pela sua mão, a tornar-se estampas eternas, monumentos da arte moderna? Pode suspeitar-se que foi esta a premissa criativa de Julian Schnabel, o realizador de Le scaphandre et le papillon (2007), quando pôs em marcha At Eternity’s Gate, um perfil nada convencional do pintor holandês – um trabalho não sobre o artista, mas sobre a forma como o artista vê o mundo, assim como uma disrupção da narrativa biográfica tradicional. Somos então arremessados para a desavença de Van Gogh, interpretado por Willem Dafoe, com a realidade urbana, com as cores cinzentas da calçada e os burocratas pouco versáteis da Paris do século XIX. O mesmo local onde conviveu com Paul Gauguin, interpretado por Oscar Isaac, com o qual partilhava um ligeiro cansaço do Impressionismo, movimento donde se podem extrair pintores como Claude Monet ou Edgar Degas. Em resposta à dormência artística que a metrópole lhe causava, o pintor holandês partiu para os esbeltos campos nos arredores de Arles, um vilarejo onde nunca foi bem-vindo, talvez por causa dos seus famosos surtos psicóticos. Ali, encontra o refúgio ideal para dar aso à sua criatividade, encarregando-se o guião escrito por Schnabel, Jean-Claude Carrière e Louise Kugelberg de explorar as inquietações do artista afogado num mar de humanos que não o compreendem. Um génio no qual ninguém reparou, “um pintor para pessoas que ainda não nasceram”, como diz a personagem durante uma conversa com um padre interpretado por Mads Mikkelsen, o qual questiona a beleza dos seus quadros. “Desagradáveis”, diz o homem de Deus para aquele que se virá a tornar um dos deuses da arte. Apesar de talvez nunca atingirem um golpe certeiro e incisivo, as escritas de Schnabel e companhia permitem que o pintor comunique com a audiência, diga o que lhe vai na alma, mesmo que essa alma navegue por águas turbulentas, pela loucura indestronável. Tal jogo de palavras é acompanhado por um formidável trabalho de fotografia.

At Eternity's Gate

Entra em ação o cinematógrafo Benoît Delhomme. Naquela que parece ser uma empreitada repleta de improvisos, o diretor de fotografia foge claramente àquela que até seria uma lógica tentativa de imitar a estética dos quadros de Van Gogh, evitando encher excessivamente os cenários de amarelo e azul ou insistir em planos abertos. Ao invés, optou-se pelo uso extensivo de planos subjetivos que ilustram o ponto de vista do artista, o que este vê enquanto pinta ou procura inspiração. Em contraste, quando a câmara filma diretamente o pintor ou outra das personagens, esse exercício é executado através de vários planos fechados dos rostos, demasiado fechados, que, para além de instigarem um certo sentimento de desconforto, originam uma ligeira quebra da “quarta parede” devido ao olhar fixo dos protagonistas na objetiva – um iminente beijo entre o espectador e a personagem, intimidade. Outro pormenor deveras inventivo é a filmagem dos pés do pintor enquanto este vagueia pelos campos que virá a pintar. Para alcançar tal efeito, Delhomme vestiu as calças e calçou os sapatos de Van Gogh, e andou durante vários dias a percorrer o cenário com uma pequena câmara presa à cintura apontada ao chão. No filme, a utilidade destas filmagens é extremamente profunda, pois permite que o espectador se possa colocar na pele da personagem. Por breves segundos, os passos do artista são os nossos passos, a sua busca pelo quadro perfeito é a nossa perdição, enleados na banda sonora da autoria de Tatiana Lisovkaia – os violinos combatem o potencial enfado de algumas sequências contemplativas com uma melodia vigorosa e açuladora. Ademais, é difícil não sentir o odor a insanidade que emana de todos os poros do filme, potencializado por planos tremidos ou desfocados, nos quais se destaca a utilização de vários tipos de lentes e filtros, como, por exemplo, uma lente bifocal encardida que faz com que a visão da personagem de Dafoe, o tal plano subjetivo, fique amarelada. Visto que a bifocal permite que existam duas potências ópticas diferentes, o cinematógrafo usou duas unidades de medida distintas e exageradas, o que causa uma espécie de desfocagem e divisão no plano, e na prática faz parecer que Van Gogh está a ver as suas próprias lágrimas, interpretação que faz sentido tendo em conta que este utensílio foi aplicado nas cenas de stress emocional, como quando o pintor discute com o seu amigo Paul Gauguin. Contudo, há também que referir que, apesar da sua naturalidade e crueza, algumas das cenas que pretendem manifestar o desnorte da personagem principal acabam por afigurar-se demasiado ostensivas, fruto da insistência do realizador em produzir repetições de falas e imagens. Por vezes, a irreverência dos seus criadores vira-se contra o próprio filme, o que é virtude vira maldição, sem que, no entanto, a experiência global seja demasiado afetada.

At Eternity's Gate

O pintor é interpretado por Dafoe com uma perícia inabalável, sendo que se torna quase impossível imaginar outra pessoa nesse papel, tal é a mistura do ator com o objeto de estudo. Sem exageros, como se toda a sua vida tivesse ele próprio sido um artista torturado, este encara a frustração deste sujeito cujo trabalho não é amado como um fado universal que, mais tarde ou mais cedo, bate à porta de todos: quem nunca sentiu o seu trabalho desvalorizado pelos outros? E esta ideia, quase como um sussurro, vai-se apoderando de nós, do subconsciente duma audiência que se calhar queria assistir a um filme sobre um herói, um transformador, e acaba por ver um filme sobre um falhado. Instaura-se, portanto, uma tristeza profunda, quase inexplicável, uma daquelas mágoas que às vezes os filmes nos proporcionam, um murro na garganta, resultando daí um estranho exorcismo de emoções indecifráveis. Pois, ao contrário dos cidadãos de Arles que o viam como um doido varrido, nós sabemos que Vincent Van Gogh, décadas mais tarde, post mortem, viria a tornar-se uma das figuras mais influentes da História da arte ocidental, mesmo que muitas pessoas apenas o conheçam como o indivíduo que cortou a própria orelha. E a forma singela, poética, defeituosa, como Schnabel consegue dar corpo a essa ideia, à colossal depressão do homem incompreendido, é sem dúvida um marco considerável no Cinema de autor, um poema audiovisual com ramificações filosóficas para os conceitos de legado e eternidade – será que realmente morremos, quando a nossa obra perdura para todo o sempre? At Eternity’s Gate é pesadelo e sonho, improviso e sorriso, conquista esse espaço como filme transcendental, inesquecível, repleto de imperfeições, rugas que lhe dão encanto.

Kubrickamente

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