Taboo ; Tom Hardy

A arte do grunhido

As grandes séries de televisão triunfaram, em geral, por terem uma grande personagem principal. House of Cards trouxe-nos Frank Underwood (Kevin Spacey) que quebra a fourth wall e fala com os espetadores duma forma cínica e sincera. 24 sobreviveu oito temporadas à custa de Jack Bauer (Keifer Sutherland) que chorava compulsivamente depois de impedir todo o tipo de criminalidades de proporções épicas. The Sopranos onde tínhamos um Tony Soprano (James Gandolfini) intimidante e duro, mas que acabava a expor as suas fragilidades no consultório da sua psiquiatra. E quem não se lembra de Dr. House (Hugh Laurie) e do seu tom irónico. E claro, o inesquecível Walter White (Bryan Cranston), o homem de família que conduzia um negócio megalómano de tráfico de metanfetaminas às escondidas de toda a gente, em Breaking Bad. E muitos mais ficam por referir. A maioria destas personagens que elevaram paixões por todo o mundo são habitualmente acutilantes e carismáticas, poços de diálogo cativante que lhes é fornecido por grandes argumentistas. Agora, o que fazer quando a tua personagem principal é muito pouco faladora?

Taboo ; Tom Hardy

Ao contrário das séries referidas anteriormente, e tantas outras, Taboo oferece-nos um protagonista introvertido, não pela timidez, mas por reclusão na tez negra dos seus pensamentos. James Delaney, interpretado por Tom Hardy, é uma personagem ímpar, complexa, e, acima de tudo, misteriosa. Quando se disponibiliza ao público tal dose de suspense concentrado numa só personalidade, a missão torna-se complicada, pois é extremamente difícil manter a atenção do espetador num drama que se concentra, maioritariamente, em alguém que se fecha em sete copas e baseia muitas vezes a sua comunicação em olhares e nos sons dispersos e abafados que emite. Grunhidos. Porém, ao longo dos primeiros oito episódios deste drama histórico nunca se gerou cansaço com a figura de Delaney. Os seus grunhidos transformaram-se em “palavras”, um código que aos poucos decifrámos e passámos a compreender, e a admirar. Um dialeto que vive de expressões faciais e da linguagem corporal. A sua falta de carisma prosaico transformou-se em algo diferente, original, numa personagem que seguimos não só pelo pouco que diz, mas pelo que não diz, pelo que dá a entender, pelo que nos transmite sem precisar de verbalizar os seus pensamentos. Uma personagem que nos vai acompanhar durante anos, se Ridley Scott, Steven Knight e Tom Hardy conseguirem corrigir os aspetos negativos da primeira temporada, pois estes existiram, e transformarem Taboo numa experiência irrecusável. A segunda temporada já foi confirmada pelas produtoras Scott Free London e Hardy Son & Baker (fonte: Screen Daily) e de acordo com o produtor e argumentista Steven Knight, criador de Peaky Blinders, “James Delaney vai continuar a explorar novas realidades, assim como levará o seu grupo de inadaptados para um Novo Mundo, graças ao FX e à BBC, parceiros que são os mais indicados para trabalhar em ideias inovadoras.”

“Estamos agradecidos e entusiasmados por continuar a nossa relação com a BBC e o FX e contribuir para o drama britânico. Notícias fantásticas.”, acrescentou Tom Hardy, que concebeu esta série negra e impressionista juntamente com o seu pai, Chips Hardy.

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