‘Arrival’ deixou-o com dúvidas?

Aviso: este artigo contém spoilers.

O novo filme de Denis Villeneuve tornou-se a nova “coqueluche” do estilo Sci-fi. Desde extraterrestres que comunicam através de símbolos circulares, visões do futuro ou teorias sobre a forma como a linguagem pode afetar a percepção da realidade, Arrival distingue-se pela forma como consegue apresentar todos os seus elementos de uma forma organizada e emocional. No entanto, devido à sua complexidade, inúmeros espetadores saíram do cinema com dúvidas ou curiosos por saber mais sobre as teorias que suportam esta história. Eis a resposta às questões que o podem ter deixado confuso ou indeciso quanto ao que realmente se passou em Arrival:

Louise (Amy Adams) teve uma filha que morreu antes da invasão extraterrestre?

Esta é talvez a maior “rasteira” que o filme prega aos espetadores. Inicialmente, somos apresentados a uma triste realidade em que a personagem principal Louise (Amy Adams) perde a sua filha. Um evento de natural depressão e tristeza. E repentinamente, temos Louise a dar aulas numa universidade quando começam a surgir os primeiros sinais de que algo de muito estranho está a acontecer. No meio desta confusão, Louise mantém um tom sereno e distante típico de alguém que está deprimido. Enquanto o mundo está a tentar descobrir porque razão estão 12 naves espaciais a pairar pelos céus do planeta Terra, Louise dorme, apresentando-se como uma personagem melancólica e solitária. Influenciados pela sua aparente depressão e pela rapidez dos acontecimentos, muitos espetadores acabaram por estabelecer que Louise é uma linguista de renome que passou pela experiência horrível de perder uma filha e que agora se depara com uma missão inédita. Porém, como mais tarde podemos verificar, isto é falso. Louise não teve qualquer filha antes da invasão. Toda a sequência inicial do filme é uma visão do futuro.

Isto quer dizer que Louise consegue ver o seu próprio futuro?

Sim. Ao entrar em contacto com a linguagem dos extraterrestres, Louise começa a ter visões do seu futuro onde existe uma criança, neste caso a sua filha.

Mas como é que Louise ganha a habilidade de ver o futuro?

Os extraterrestres, denominados Heptapodes, comunicam através da utilização de símbolos que podem significar uma palavra, uma frase ou até um sentimento. Para além disso, nestes símbolos a ordem das palavras é aleatória, pois esta não altera o significado da mensagem. Basicamente, estes são circulares porque os extraterrestre percebem o tempo como algo circular e não como uma linha reta como os humanos. Por outras palavras, os extraterrestres têm noção do tempo como um todo, podendo “viajar” por este e ver o futuro. Ao entrar em contacto com este tipo de linguagem e ao aprendê-la, Louise começa, aos poucos, a experienciar o tempo da mesma forma que os extraterrestres.

E é possível isso acontecer?

Ver o futuro é pura ficção cientifica. No entanto, tal como é referido no filme, existe a Hipotese Sapir-Whorf.

O que é a Hipotese Sapir-Whorf?

Também conhecida como relativismo linguístico, é uma teoria que afirma que as pessoas podem experienciar o mundo de formas diferentes consoante a língua que falam. Por exemplo, existem certas culturas que denominam os números de forma diferente da típica maneira Ocidental. Os Pirrarãs, um povo indígena brasileiro, só têm palavras para “um” e “dois”. Se algo tiver uma quantidade superior a “dois”, eles referem-se a essa quantidade como “muitas” ou “muitos”. Os estudantes de linguística fizeram várias experiências com este povo e, após vários estudos, verificaram que ao aprenderem a linguagem e a contagem matemática tipicamente Ocidental,  os indígenas têm várias dificuldades cognitivas em contar para além do número dois.

A conversa que Louise e Ian (Jeremy Renner) têm no helicóptero sobre a linguagem ter surgido primeiro que a ciência pretende sugerir que os nossos antepassados também terão sido visitados por extraterrestre que lhes terão transmitido uma forma de linguagem?

Entrando no campo da subjetividade, e devido ao facto de o filme retratar a visita de alienígenas ao planeta Terra, pode afirmar-se que esse diálogo tentar fazer uma ligação indireta às teorias, não comprovadas empiricamente, que afirmam que as civilizações antigas foram influenciadas por seres de inteligência superior que lhes terão ensinado formas evoluídas de linguagem, assim como vários conceitos científicos básicos. Indo um pouco mais longe, e pegando na narrativa do filme, podemos “entreter” a teoria de que os Heptapodes poderão ter ensinado a linguagem mais “básica” aos seres humanos há milhares de anos atrás e que, agora que os humanos já dominam o “básico”, voltaram para lhes ensinar a linguagem mais complexa que lhes permitirá ter uma noção diferente do tempo.

Mas afinal porque é que os Heptapodes querem que os humanos aprendam a sua linguagem?

Quando Louise entra sozinha na cápsula que a leva para dentro da nave alienígena, esta recebe a informação que os Heptapodes precisam que os humanos saibam comunicar na sua língua para que dai a três mil anos os possam ajudar numa tarefa que não é especificada.

Quando se encontra com o General chinês (Tzi Ma) Louise está no futuro?

Sim. Na cena em que o General Shang lhe dá o seu número de telefone privado e diz as últimas palavras da sua esposa antes de falecer, Louise encontra-se no futuro. Mas não como um ser ativo. Ou seja, ela está ter uma visão do futuro e não a viajar no tempo.

Mas como é que o General sabia que tinha de dar estas informações a Louise para ela as utilizar no “passado”?

Estamos perante um paradoxo temporal, visto que o tempo passou a ser experienciado de uma forma circular. Por outra palavras, o que acontece no presente afeta o futuro e o que acontece no futuro afeta o passado (presente). Ao receber o telefonema de Louise no presente com informações que só este podia saber, o General percebe que para Louise saber estas informações no presente ela precisará de as adquirir no futuro. Mais precisamente, quando se encontrarem pessoalmente.

Em conclusão, todas as cenas em que aparece uma criança com Louise, incluindo a cena inicial, são visões do futuro?

Exatamente. Louise tem uma filha no futuro e Ian, o cientista que a acompanha desde o principio desta aventura, é o seu marido e pai da criança. Para comprovar isto, existem várias cenas em que a criança está a brincar com plasticina e constrói figuras semelhantes aos Heptapodes, assim como o que, supostamente, é a sua mãe de fato cor de laranja. A criança intitula estas obras de “Mommy and the monsters”. Podemos depreender que no futuro Louise se tornou bastante famosa, visto ter resolvido a maior crise internacional da História, e que provavelmente a criança o terá visto na televisão ou a própria mãe lho mostrou.

Porque é que Ian se separa de Louise no futuro?

Mesmo antes de começar qualquer relacionamento amoroso com Ian, esta já sabe de antemão que vão conceber uma filha e que esta vai morrer jovem. Quando Ian, no futuro, lhe pergunta se esta quer ter um filho, Louise aceita, mesmo sabendo que esse filho vai morrer. Eventualmente, Louise terá dito a Ian que sabe que a filha de ambos vai morrer num futuro próximo mas que, mesmo sabendo desse desfecho, preferiu viver essa vida. Ian não terá concordado e ter-se-á afastado. Esta ideia é apoiada pela cena em que Louise diz à filha que o pai a deixou porque não gostou de uma decisão que esta terá tomado.

Tenho que rever Arrival?

Definitivamente.  A melhor solução para perceber totalmente este filme é revê-lo com atenção. Não só pela sua complexidade, mas também por ser um filme belíssimo que emociona de uma forma totalmente inconvencional.

Como se chama a música triste que toca nas cenas iniciais e finais?

“On the Nature of Daylight” de Max Ritcher. O resto da banda sonora encontra-se a cargo do compositor Jóhann Jóhannsson.

 

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