‘Ad Astra’, para que a solidão se torne mais agradável

Uma voz grossa e penetrante ecoa nas profundezas do Espaço, um monólogo interno que é ouvido por todos, conforme o astronauta Roy McBride, interpretado por Brad Pitt, reflete sobre os sufocos da sua vida. Poética, amiúde informativa, esta voz, a fazer lembrar ‘The Tree of Life’ (2011) de Terrence Malick, ganha dimensão dramática, funcionando como chave-mestra para a crise de consciência que assola este ser humano com queda para a estoicidade.

Porém, é outra voz que este procura — talvez a do seu pai, talvez a de um ser divino —, depois do governo norte-americano o enviar numa missão peculiar e confidencial: dirigir-se a Marte com o intuito de tentar comunicar com o seu progenitor, um astronauta de renome, interpretado por Tommy Lee Jones, que, décadas antes, partiu, rumo aos confins do sistema solar com o objetivo de descobrir vida extraterrestre, deixando um filho adolescente e uma esposa para trás. Agora, esta entidade, tanto literal como mítica, volta para assombrar os seus congéneres, já que a sua nave, tida como perdida, está a emitir violentos impulsos eletromagnéticos vindos de Neptuno que ameaçam a vida na Terra e arredores, visto estar-se perante uma narrativa futurista em que o Homem já circula pela Lua e planetas vizinhos.

Apesar de a construção deste mundo num futuro próximo não ser propriamente pormenorizada, o realizador James Gray, que escreveu o guião em parceria com Ethan Gross, fez questão de largar algumas pistas sobre a realidade interestelar apresentada, nomeadamente, o surgimento dos mesmos mecanismos inerentes ao capitalismo desenfreado em território lunar. Por exemplo, devido à natureza secreta da missão, o herói tem de fingir ser um turista normal a caminho da Lua. Pelo caminho, é-lhe cobrada uma taxa adicional quando este pede uma almofada — “obrigado por viajar connosco” profere uma hospedeira. Para mais, podem avistar-se várias publicidades referentes aos franchises do costume. Os seres humanos podem ter sido forçados a explorar novos territórios, a fugir aos poucos para o Espaço, contudo, os seus comportamentos não mudaram. Não houve aprendizagem.

Por intermédio da sua voz fantasmagórica, em reverência ao Capitão Willard de ‘Apocalypse Now’ (1979), a personagem principal, também ela em trânsito rumo ao seu Coronel Kurtz, vai comentando as várias situações a que vai sendo sujeita, transmitindo ao espectador pormenores essenciais que permitem um maior entendimento da sua relação com esta sociedade degradada. A interpretação de Pitt é muito competente, pois o ator consegue transformar este homem conhecido pela algidez com que aborda as suas missões numa caricatura cativante, surgindo uma desconstrução física do típico conceito de masculinidade — a rara cena em que uma lágrima no canto do olho vale mais do que uma centena de linhas de diálogo.

No departamento da fotografia, Hoyte van Hoytema, também responsável pelas imagens de ‘Interstellar’ (2014), fez um esplêndido trabalho. Com uma derivação para o avant-garde, o cinematógrafo filmou a maioria da obra em 35mm Kodak, com câmaras e lentes Panavision. Um dos aspetos fulcrais é a ilustração da distância, ou seja, consoante o astronauta se afasta do sol, mais escuro vai ficando o filtro. O espetro de cores vai também diminuindo, notando-se um predomínio das cores frias como o azul, efeito que efetivamente se verificaria caso alguém viajasse até Júpiter ou Neptuno.

Para atingir um aspeto mais crepuscular, Hoytema retirou o revestimento de proteção das lentes, o que lhe permitiu obter efeitos areolares, fazendo com que se notem círculos luminosos à volta dos focos de luz. Na prática, esta técnica permite obter um imaginário realista e transcendental.

A façanha mais impressionante talvez seja uma perseguição em solo lunar, fruto das disputas territoriais que se verificam no satélite natural, com o uso mínimo de efeitos especiais. De forma a transparecer a baixa gravidade e o seu efeito sobre veículos a viajarem a alta velocidade, a cena foi filmada em 32 ou 36 frames por segundo, gerando um efeito de câmara lenta nos movimentos agressivos que são mostrados, ao passo que os vários impactos entre jantes e rodas foram amenizados — a tensão nasce da distorção da típica física terráquea.

De forma a simular o ambiente lunar — solo brancacento, céu negro —, recorreu-se a dois tipos de câmaras diferentes: uma câmara normal de 35mm e uma Alexa de infravermelhos. Ambas foram colocadas numa estrutura própria, permitindo que filmassem exatamente os mesmos acontecimentos. Como a câmara de infravermelhos apenas é sensível a um comprimento de onda específico, esta consegue escurecer a luz vinda do céu diurno, fazendo com que pareça de noite, mas mantendo os elementos restantes iguais, sujeitos à iluminação natural fornecida pelo sol. Neste processo, a única desvantagem é as imagens saírem a preto e branco. Para resolver esse problema, entra em jogo a câmara de 35mm. Esta, por sua vez, registou toda a informação relacionada com cores e texturas. Como tal, bastou a Hoytema sobrepor as imagens vindas das duas câmaras, obtendo-se o resultado final. Em suma, esta perseguição terá sido filmada durante o dia, num solo semelhante ao da lua, todavia, graças à câmara de infravermelhos, e ajustes subsequentes, obteve-se o breu do céu lunar.

A banda sonora de Max Richter e Lorne Balfe é idónea e eficaz, e os cenários criados por Karen O’Hara evocam os panoramas retro de relíquias do passado como ‘2001: A Space Odyssey’ (1968) e a retidão tecnológica de trabalhos mais recentes, como ‘The Martian’ (2015).

Perante a aventura epopeica do homem em busca do pai que pensava ter perdido, ao nível intelectual, ‘Ad Astra’ pode ser encarado como uma metáfora para o combate contra o luto e depressão, acompanhando-se o sujeito introvertido, talvez traumatizado, que, perante a oportunidade, necessita de confrontar não só o ente querido que o abandonou, mas também a sua filosofia de vida. De certa forma, o seu pai é um modelo do típico macho reprimido, em constante fuga, cuja capacidade de expressar emoções é limitada. Por seu lado, o filho representa o resultado, a herança, dessa acefalia emocional que marcou várias gerações. Roy é um homem que precisa de expelir do seu sistema psicológico os estragos e resquícios que o seu criador deixou para trás e a sua viagem psicológica e íntima é uma com que muitos espectadores, especialmente do sexo masculino, se podem identificar.

Como tal, por baixo da carapaça dos sentimentos e da ficção científica, reside igualmente uma história sobre a busca por transcendência, por elucidação, mas também sobre a forma como essa necessidade de alcançar algo “maior que a vida” pode isolar o ser humano.

Ao contrário da maioria dos filmes que deambulam por tais questões, Gray atreveu-se a conceber explicações para os mistérios evocados ao longo da narrativa. A principal mensagem talvez seja que, na incessante demanda do Homem por respostas relacionadas com a existência ou ausência de uma identidade superior, seja Deus ou uma civilização alienígena, talvez nos estejamos a esquecer de usufruir da nossa vida terrena. Até prova em contrário, estamos sozinhos no Universo. Face a esse total e divino silêncio, talvez nos devamos amar uns aos outros, ouvir uns aos outros, procurar uns pelos outros, para que a solidão se torne mais agradável.

Kubrickamente
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