Aaron Sorkin joga pelo seguro em ‘The Trial of the Chicago 7’

A 29 de outubro de 1969, naquele que viria a ser conhecido como o julgamento dos “Sete de Chicago”, o co-fundador do partido revolucionário Black Panthers, Bobby Seale, anexado ao processo como oitavo arguido, foi amordaçado em pleno tribunal depois de protestar com alguma veemência uma decisão do juiz Julius Hoffman. Seale havia-se exaltado após o juiz o ter impedido de representar-se a si próprio, já que o seu advogado pessoal estava impedido de comparecer à audiência devido a um grave problema de saúde, fator que, apesar dos vários apelos do arguido, não levou ao adiamento do julgamento.

Durante três sessões consecutivas, Seale, um robusto afro-americano, permaneceu amordaçado e algemado, destacando-se a forma vil e tendenciosa como o juiz Hoffman conduziu o processo. Durante todo o julgamento, apesar de, mais que uma vez, fazer questão de referir o contrário, o juiz tomou decisões díspares em relação a pessoas negras, como expulsar da sala de audiência ou, no caso do líder dos Black Panthers, violar os seus direitos constitucionais.

Ora, no recente filme de Aaron Sorkin sobre o tema, este episódio é abordado quase como uma interrupção inoportuna que acaba por se resolver numa questão de minutos, uma vinheta onde o guionista e realizador dedica mais tempo à reação dos presentes, todos eles caucasianos, do que aos sentimentos de Seale, interpretado por Yahya Abdul-Mateen II, uma personagem de papel que parece estar no filme apenas porque a vida real assim o impôs. Poucas cenas representam melhor a ocasional insuficiência narrativa de ‘The Trial of the Chicago 7’, uma longa-metragem sobre um evento verídico que consegue ser mais moderada que os acontecimentos que relata. Um filme sobre radicalismo e radicalistas que não tem nada de radical. E, estranhamente, existem outros momentos marcantes do julgamento que foram amenizados ou omitidos.

Eis um courtroom drama em que, desde o princípio, ninguém, nem os espectadores, nem as personagens, esperam justiça. De início, Sorkin informa toda a gente que o vendaval que está prestes a atingir os sete homens aos quais o título se refere, oito se contarmos com Seale, é uma cabala política levada a cabo pela administração Nixon com o objectivo de castigar quem critica a Guerra do Vietname e defende ideias liberais. Os “Sete de Chicago” pertenciam a várias ilhas do arquipélago contracultural, como um movimento estudantil liderado por Tom Hayden, interpretado por Eddie Redmayne, um movimento pacifista no qual se destacava o objetor de consciência David Dellinger, interpretado por John Carroll Lynch, ou o Partido Internacional da Juventude comandado pelos anarquistas Abbie Hoffman e Jerry Rubin, encarnados por Sacha Baron Cohen e Jeremy Strong. Como advogados de acusação e defesa, Joseph Gordon-Levitt e Mark Rylance, e o juiz carrancudo e incompetente ficou a cargo de Frank Langella.

Desde cedo, tendo em conta as estampas reais, é possível notar que as imitações desses mesmos homens detêm pouco individualismo, como fantoches que debitam a visão de um só Deus criativo. Apesar de algumas rajadas, o vento que podia agitar discórdias entre as personagens é deveras tímido, visto que, apesar de estarem todos no mesmo barco, tinham divergências ideológicas e organizacionais bastante acentuadas. Todavia, essa potencial nuance é extraída do filme em nome da criação de um suposto drama típico da época dos Óscares, com diálogos que mais parecem ditados, em que todos sabem sempre o que dizer e as dúvidas são expressas sem o mínimo de gaguejo. Esta sensação é, claro, amenizada pelo trabalho exemplar de um elenco fenomenal, com destaque para a graciosidade com que Baron Cohen e Strong cumprem os desígnios do alívio cómico.

Quanto à caracterização, parece que todas as roupas vêm da mesma loja, mudando-se apenas o estilo consoante a personalidade que é subtilmente associada a cada um dos arguidos — o hippie, o estudante intelectual, o típico homem de família. Todas as unhas estão limpas e todos os espaços estão arrumados, inclusivamente a casa onde os arguidos se reúnem para discutir a sua situação, local ao qual, ironicamente, chamam “Casa das Conspirações”. Também não ajuda um trabalho de fotografia algo estéril, a fugir para o comercial, sem grande atenção à composição e texturas. No fundo, não fossem os temas em questão, e os espectadores talvez não conseguissem identificar a década em foco.

Todavia, a longa-metragem também apresenta os seus trunfos, nomeadamente, uma intemporalidade que, apesar de pouca incómoda, cumpre a missão de chamar a atenção para a forma como o passado pode estar a repetir-se. Numa altura em que, após as ocorrências relacionadas com o caso George Floyd, o governo norte-americano prendeu e acusou milhares de pessoas por protestarem, algumas delas pacificamente, o filme relembra a maneira injusta e até ilegal como estas pessoas, inocentes ou não, podem vir a ser tratadas por tribunais comandados por centenas de juízes conservadores, nomeados para o cargo pela administração Trump, que, como se a História se repetisse, tem adotado muitas táticas semelhantes ao governo de Richard Nixon.

Pena que Sorkin não revele capacidade de meter o dedo na ferida, fechando-se dentro de um casulo forrado por tradicionalismo, quer ao nível argumentativo, quer ao nível cinematográfico. Nos tempos que correm, em que, em vários países, a violência policial foi posta a nu e as instituições de poder estão reféns de personalidades no mínimo duvidosas, pode saber bem devorar as frases articuladas dos “Sete de Chicago” e inalar a sua insubordinação. Mas, não caiamos na armadilha de confundir dissidência com sagacidade. Por escolha do seu criador, ‘The Trail of the Chicago 7’ é um filme confortável que se esquiva da análise às motivações macrossociais por trás da história que é contada, enquanto, no ecrã, se ensaia uma pretensão de grandiosidade. Se bem que algumas cenas mereçam louvor, está-se perante um daqueles estranhos casos em que a realidade foi mais entusiasmante, mais controversa e mais dramática que a ficção.

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