The Girl in the Spider's Web

A rapariga apanhada na teia de aranha e o rapaz que não devia existir

“Firefall” – à moda dum filme do agente secreto 007, é este o nome do software que lança Lisbeth Salander, desta vez interpretada por Claire Foy, para o epicentro duma conspiração internacional. Isto depois do criador da tecnologia, que permite controlar todas as armas nucleares do mundo, a ter contratado para a retirar das mãos da NSA. O motivo do programador, interpretado por Stephen Merchant, é simples e, sem dúvida, nada original: apagar o monstro perigoso e mortífero que pode destruir o planeta, caso caia nas mãos erradas. E, como qualquer espectador experiente nas andanças cinematográficas poderá adivinhar, o tal programa irá parar eventualmente às mãos duma organização criminosa. Para piorar a situação, existe um rapaz tímido e diferente, um pré-adolescente, filho do criador dessa besta negra digital, que só ele sabe a combinação que permitirá desbloquear a dita arma de destruição maciça – porque o pai assim quis. Um pai que é relativamente atencioso e preocupado, mas que, por alguma razão não revelada, resolveu trazer o filho para uma situação potencialmente mortal, em vez de o deixar em casa com a mãe, que existe e é mencionada. E, ainda por cima, resolveu incutir-lhe a abismal responsabilidade de guardar a chave do software mais perigoso da História da humanidade. Entre outras perturbações, é com este tipo de inconsistências que os admiradores da saga ‘Millennium’ poderão contar. Adaptada dum quarto livro da autoria de David Lagercrantz, o escritor contratado pela família do falecido Stieg Larsson para dar continuidade às aventuras do jornalista Mikael Blomkvist e da hacker Lisbeth Salander – recorde-se que Larsson escreveu a trilogia original -, esta nova abordagem fílmica tinha, desde logo, uma herança de peso. Não só as versões suecas, protagonizadas por Noomi Rapace e Michael Nyqvist, tiveram bastante sucesso, como o processo de americanização foi particularmente surpreendente, não tivesse David Fincher agarrado no primeiro volume da história, ´The Girl with the Dragon Tattoo’, e posto em prática todos os conceitos técnicos que foi desenvolvendo ao longo da sua carreira frutífera duma forma elegante e extremamente competente: um bem-vindo exemplo de como uma abordagem formal e perfecionista pode elevar o material. Ademais, conseguiu encontrar em Rooney Mara uma sucessora à altura do trabalho inebriante de Rapace, que, com a atenção conquistada, ganhou o seu lugar ao sol na máquina de Hollywood. Como tal, perante a adoração inerente a esta narrativa, principalmente numa era em que os movimentos feministas têm ganho o seu justo destaque, a responsabilidade do realizador de Don’t Breathe (2016), Fede Alvarez, era grande, já que estava a tocar em solo quase sagrado. O resultado não podia ser mais desapontante.

The Girl in the Spider's Web

The Girl in the Spider’s Web é um daqueles filmes onde está patente uma escrita demasiado preguiçosa e descuidada. Sem exceção, todos os avanços e recuos da narrativa são impregnados de situações previsíveis, inexplicáveis ou desprovidas de lógica, como é o caso do rapaz que não devia existir. Tendo em conta que pela ficha técnica se encontra o nome de Steven Knight, o criador da série Peaky Blinders, não deixa de ser quase chocante a displicência com que alguns momentos se desenrolam, pulverizados por um irrealismo atroz. Por exemplo, um dos cenários é alvo duma enorme explosão que arrasa os vidros dos carros a dezenas de metros de distância. Porém, um computador que se encontra dentro do edifício sobrevive milagrosamente à detonação, o que permite à heroína de serviço consultar o sistema de segurança e descobrir os autores dessa façanha. Mais tarde, uma outra personagem chega ao local e, mais uma vez num contexto miraculoso, encontra todas as pistas que precisa para localizar o seu alvo, todas reunidas no mesmo pedaço de chão, fragmentadas pelo calor do fogo, mas suficientemente límpidas para que possam ser analisadas a olho nu. Curiosamente, não foram encontradas pelo mar de agentes da autoridade que inundaram o local horas antes. E muitos mais exemplos poderiam ser apontados perante uma sequela que, por mais potencial emocional que a sua personagem principal tenha, é puxada para o buraco negro da irrelevância. Na pele da vigilante antissocial que persegue os homens que fazem mal a mulheres, Foy tenta com todas as suas forças combater a pobreza do guião que lhe foi imposto. Todavia, há que admitir, e talvez a atriz tenha de ponderar o quão longe poderá fugir da rainha Isabel II, se este não terá sido um enorme erro de casting, já que as suas próprias características físicas destoam dos traços gélidos típicos de Lisbeth Salander, uma figura angulosa, quase fantasmagórica. Como tal, o rosto redondo e convidativo de Foy parece nunca encaixar no tom adequado à personagem. Quanto ao coprotagonista masculino, o caso afigura-se ainda mais bicudo. Nesta abordagem, o jornalista que dava à saga um toque procedural, agora interpretado por Sverrir Gudnason, é praticamente obliterado, exigindo-se quase uma reflexão sobre se a personagem não deveria ter sido simplesmente apagada da história, já que serve apenas de adereço para as proezas da contraparte feminina. Em algumas cenas, é quase embaraçoso denotar o esforço que foi feito para transformar o jornalista sueco, que no filme de Fincher até era a figura principal, num mero pião que, não obstante a remissão para um plano secundário, lá vai tropeçando nas migalhas que o filme lhe dá. Em sentido inverso, há que elogiar a performance de Sylvia Hoeks que, tal como em Blade Runner 2049 (2017), consegue exibir uma figura vilanesca penetrante e deveras convincente.

The Girl in the Spider's Web

Fora o enredo repleto de lugares comuns, reviravoltas expectáveis e personagens mal contextualizadas, poderia dar-se o caso da equipa técnica se ter esmerado na vertente visual, como aconteceu, por exemplo, no recente Kong: Skull Island (2017), onde se tem um conto corriqueiro, mas, em contrapartida, um trabalho de fotografia e efeitos especiais de requinte. No entanto, Alvarez e o cinematógrafo Pedro Luque apresentam um conjunto de cenas de ação algo confusas e pobremente coreografadas, ganhando o prémio da banalidade uma cena de luta numa casa de banho que, face à estética presente, foi extremamente desaproveitada. Outro pormenor deveras desgastante é a constante exibição de publicidade, conforme o realizador vai inventando variadíssimas desculpas para nos sugerir logotipos ou letreiros referentes a marcas como a Sony ou a Ducati. Chegou ao ponto de, numa situação em que se pedia que Salander fosse o mais discreta possível, esta resolver roubar um carro desportivo de luxo, um Lamborghini Aventador preto que, para espanto do comum mortal, se encontrava à mão de semear numa garagem qualquer. Contudo, o maior problema do filme é a traição ao conteúdo dos livros e adaptações cinematográficas do passado em prol duma aproximação bafienta ao conceito de super agente, à medida, claro está, dum potencial franchise. Os temas como o feminismo, o abuso sexual, a busca por verdade num mundo de enganos, o trauma, todos eles perfeitamente adequados à realidade social atual, foram amenizados ou totalmente substituídos por uma tentativa desesperada de criar uma espécie de James Bond feminina revestida duma pose punk ou alternativa. O produto final: um filme inconsequente e frustrante que, ao contrário do que se pretendia, pode muito bem ter acabado com a rapariga com a tatuagem do dragão para sempre, pelo menos no que ao grande ecrã diz respeito.

Razoável

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