‘A Plataforma’, há que matar a fome

Tal imaginário não é novidade. Quando refletimos sobre a estrutura capitalista que está instalada no mundo moderno, é praticamente impossível não pensar numa pirâmide onde, no topo, estão as pessoas mais ricas do planeta, e, na base, estão os mais pobres. Os bens que se acumulam e multiplicam no cimo vão descendo por essa estrutura imaginária abaixo, sendo que, chegados ao fundo, já pouco sobra senão restos e esmolas. O realizador espanhol Galder Gaztelu-Urrutia, com um guião de David Desola e Pedro Rivero, resolveu pegar neste conceito e aplicar-lhe um tratamento distópico com algumas nuances bastante inventivas.

Algures num futuro não muito distante, centenas de pessoas, algumas delas voluntariamente, estão presas num edifício subterrâneo com centenas de andares verticais ao qual chamam “o buraco”. Cada patamar é ocupado por dois reclusos e apetrechado de dois catres, lavatório, sanita e a frieza do cimento pálido. No meio, uma fenda retangular permite o trânsito de um bloco de betão que, todos os dias, desce pela estrutura com um imenso banquete destinado aos prisioneiros, que têm pouco mais do que um minuto para bicar o que quiserem ou conseguirem, até que o bloco desce destino aos que estão por baixo. A mesma abertura permite que os participantes tenham uma visão minimamente evidente da lógica gravitacional em que estão inseridos, já que podem observar a imponência da arquitetura ou até as atividades dos que se encontram nos andares inferiores mais próximos. O problema: as pessoas dos andares de cima têm tendência para comer mais do que necessitam e, conforme a plataforma vai descendo, a comida começa a escassear nos andares de baixo, até que, ainda com a procissão a meio, acaba.

A personagem principal, Goreng, interpretado por Ivan Massagué, começa a sua aventura no andar 48. Seguindo a regra que cada um pode trazer um objeto para o “buraco”, consigo carrega o livro ‘Dom Quixote de la Mancha’, uma escolha deveras irónica tendo em conta a situação em que se encontra. A sua escolha foi desinformada, visto desconhecer o Inferno no qual caiu, fruto de um estranho regime de voluntariado que nunca é devidamente explicado. O seu parceiro de divisão, um septuagenário interpretado por Zorion Eguileor, está melhor servido, com uma faca de cozinha afiada e uma dose de pessimismo que o faz usar a palavra “obviamente” em demasia.

O anunciado género de terror, como muitos poderão adivinhar, manifesta-se quando Goreng, um idealista na casa dos quarenta, vai viajando pelos vários graus da experiência social que lhe é imposta — o que fazer quando não tens alimento durante um mês? Ou, o que fazer quando és presenteado com abundância, mas sabes que, por baixo de ti, estão centenas de almas esfomeadas? O resultado é uma experiência grotesca e imunda, com as expectáveis doses de canibalismo e violência gráfica. Afinal, nos andares de baixo, há que matar a fome.

O trabalho de fotografia de Jon Domínguez é competente, com o cinematógrafo a aproveitar-se do conceito narrativo para obter alguns planos de geometria apurada. Para mais, quando a ação começa a ficar mais frenética, torna-se regular o corte rápido e o uso da cor vermelha para instaurar sensações psicadélicas. A banda sonora de Aránzazu Calleja contribui para o festim com sonidos agudos e repentinos, facas afiadas que penetram a atmosfera.

A parábola social e política é óbvia: tendo em conta as circunstâncias, se todos comessem somente o essencial, sobraria para todos. São a aleatoriedade do sistema e o comportamento de Goreng que injetam interesse nesta espécie de thriller de terror social, ao oferecerem literalismo à ideia de que a maioria das fortunas são fruto do acaso, tal como acontece no “buraco”. Na verdade, o guião não anda longe da verdade, já que, estatisticamente, mais de 80% das fortunas mundiais foram herdadas e não conquistadas, e muitas delas advêm de atividade ilegal. O filme chama a atenção para a indiferença das pessoas privilegiadas face às pessoas em apuros, mesmo depois de terem vindo dessa encruzilhada ou sabendo que, eventualmente, irão lá parar. Não existe piedade nem meritocracia, apenas instinto de sobrevivência.

Perante um modelo de vivência tão brutal, existe a hipótese de provocar uma revolução. Mas, como despoletar um evento disruptor desse tipo quando a maioria da população não está disposta a colaborar ou adotar a contenção necessária? Com Goreng a funcionar como um herói à procura de justiça e equilíbrio, a exploração dessa hipótese é algo leviana. Não ajuda as personagens terem pouca profundidade, como se as suas falas fossem tiradas de panfletos políticos. De certa forma, nota-se uma preocupação desnecessária em que o guião acompanhe a premissa física do cenário, com um martelar excessivo nas ideologias em pano de fundo. Em suma, ‘A Plataforma’ — o título original é ‘El hoyo’ — apresenta uma engenhosa metáfora para a desigualdade entre classes, mesmo que a subtileza não seja o seu forte. Em todo o caso, está garantido o seu lugar na estante dos filmes do género a ter em conta.

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