‘A Herdade’, um discreto retrato da neurose portuguesa

O cheiro a revolução faz-se sentir na festa de copo d’água da filha mais nova de uma figura importante da DGS, anteriormente conhecida como PIDE, mesmo que a maioria dos convidados ainda não o consigam inalar. É 24 de abril de 1974 e o homem mais alto da sala por ali deambula, rabugento e contrariado, de cigarrilha sempre em riste, consciente das atrocidades cometidas, permitidas ou provocadas pelos que o rodeiam. Ali, celebra-se o que Portugal tem de pior para oferecer, o sucesso de uma elite bafienta, e João Fernandes, interpretado por Albano Jerónimo, tem de aceitar a maçada, envolto numa rede de favores na qual caiu ao tentar defender a soberania do seu ganha-pão, um dos maiores latifundiários da Europa — a sua herdade ribatejana.

Tão tóxica está a festa, apesar de os músicos que a tentam animar, que muitos poderão não reparar que esta se desenrola num fantástico plano-sequência. À memória vem logo o famoso baile de ‘Il gattopardo’ (1963), realizado por Luchino Visconti, podendo até subentender-se que esta é uma espécie de versão portuguesa dessa mesma obra-prima, mesmo que o “nosso” protagonista padeça de uma certa ingenuidade que o Príncipe de Salina não apresenta. Para chegar a tal conclusão, bastará avaliar a superioridade moral que este, apesar da pose de flexibilidade, pensa ter em relação aos que dançam e bebem à sua volta, esquecendo-se de que ele próprio exerce uma espécie deformada e ligeira de ditadura sobre os seus empregados e familiares, vivendo a máxima de que quem lhe tentar dar ordens ou impor algum tipo de linha de pensamento é seu inimigo: o típico sujeito a quem ninguém diz o que fazer dentro da sua própria casa. Depois de a festa acabar, a ‘Grândola, Vila Morena’ também a ele trará dúvidas e receios. Nenhum homem consegue ser maior que uma revolução.

É este um dos grandes trunfos de ‘A Herdade’, realizado por Tiago Guedes, a forma como, à volta deste rei do Ribatejo e respetiva família, é tecida uma barga de referências políticas e sociais, com destaque para o antes e pós-25 de abril. O jogo de espelhos é evidente quando, no antes, é mostrado um elemento do Estado Novo quase a obrigar João a declarar apoio público ao governo, e, no pós, camaradas do PREC que invadem as suas terras e o tentam forçar a aceitar trabalhadores.

Porém, o grande tema do filme talvez seja a organização patriarcal que se fazia sentir na altura, sendo a personagem principal o derradeiro símbolo dessa realidade. Apesar do seu suposto jogo de valores e princípios antigos, talvez aprendidos com um pai cuja dureza é demonstrada num prólogo inicial, João não deixa de ser um tirano dentro do domicílio, parcas ou nulas são as demonstrações de carinho face aos que, no fundo, o tentam amar, mesmo perante uma série de desaforos e traições pela calada. Quantas famílias já não passaram pelo mesmo?

De forma a ilustrar este enfado encharcado de ressentimentos, Guedes e o cinematógrafo João Lança Morais dominam a difícil arte de exaltar os subentendidos, conforme os pormenores mais cínicos e infames da narrativa vão sendo revelados através de dicas visuais, como olhares e gestos. Nisto, ganha-se um drama de atores, com Jerónimo e Sandra Faleiro, que interpreta a esposa do latifundiário, a fazerem um excelente trabalho, transformando simples expressões faciais em mensagens plenas de desambiguação. A forma como a atriz consegue, sem nunca exagerar ou cair na armadilha do overacting, ilustrar a revolta, e ao mesmo tempo conformação, de uma mulher que já teve de engolir muitos sapos é formidável. Tudo isto ganha maior impacto devido ao facto de, exceto nos créditos iniciais em que se pode ouvir uma melodia de Arvo Pärt, o filme expulsar os sons não-diegéticos, sobejando uma experiência auditiva crua, como se as personagens fossem intrusos, fantasmas emparedados que interrompem as árias entoadas pela chuva, o vento e outros sons oriundos da natureza.

Óbvio que nem tudo é um mar de rosas. Alguns espectadores poderão ficar algo desalentados com o ritmo lento, gélido, da narrativa, sendo que existe espaço para indagar até que ponto alguns momentos não poderiam ter sido cortados da versão final, já que, por vezes, se está a calcar ideias já assentes.

Ademais, quando a história avança para 1991, registando-se o expectável envelhecimento das personagens, é notório um problema ao nível da caracterização, pois as personagens parecem pouco desgastadas tendo em conta as quase duas décadas que passaram e a quantidade de cigarros e copos de whiskey e vinho que as vemos exterminar. Compreendendo-se os possíveis entraves que podem surgir numa produção do género, esta evidente falha não deixa de ser uma desilusão.

Com os acontecimentos da última linha temporal, dá para ter um vislumbre de onde o cineasta português quer chegar com este épico histórico, molhado pelos pingos do género western. ‘A Herdade’ pode ser encarado como um funeral do mundo rural e do laconismo dos seus patriarcas, de uma forma de viver que, aos poucos, teve de dar lugar a algo mais moderno, aberto e sensato. Mas não sem que alguns tenham sido destruídos pelo caminho, incapazes de largarem os traumas e maneirismos do passado, rumo à implosão. Aproveitando-se o drama multigeracional, não deixa de se estar perante um discreto retrato da neurose portuguesa, de um país em que os filhos sobreviveram aos pais e acolheram a sua herança, com respeito, também com desdém, quem sabe com amor e orgulho.

Kubrickamente
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