‘1917’, a guerra é o ópio da irracionalidade

‘The Marvelous Mrs. Maisel’ retrata as aventuras de uma dona de casa que, na década de 60, tenta vingar na machista indústria do stand-up comedy. Interpretada por Rachel Brosnahan, esta personagem incomum vai deambulando pelo apartamento luxuoso dos seus pais e os clubes noturnos onde tenta a sua sorte como comediante. Os melhores atributos desta série da Amazon são as suas cenas repletas de sarcasmo e uma qualidade de realização acima da média. O ritmo frenético dos seus diálogos, com as personagens amiúde em movimento, exige tanta concentração e é tão estimulante que muitos espectadores poderão nem sequer reparar que muitas das cenas apresentam planos-sequência — takes únicos em que a ação se desenrola de forma fluída, sem cortes. Por norma, só depois de as sequências terminarem é que o público se apercebe da sua existência contínua. No caso desta série, o potencial do plano-sequência está a ser aproveitado ao máximo, já que, apesar da sua existência e da qualidade e cadência que oferece à obra, este passa praticamente despercebido.

No fundo, convém que o plano-sequência tenha um motivo forte para existir, além do mero capricho. Por exemplo, alguns cineastas usam esta técnica para aprofundar a noção do espectador em relação a um cenário ou personagem específicos. Em ‘Atonement’ (2007), um filme cuja narrativa visita a Segunda Guerra Mundial, o realizador Joe Wright usa um plano-sequência de cerca de cinco minutos para ilustrar a dimensão de um acampamento militar na praia de Dunquerque, conforme a câmara segue o ator James McAvoy por um cenário descomunal. Em ‘Goodfellas’ (1990), Martin Scorsese usa um plano-sequência de mais de três minutos para expor o estilo de vida de um mafioso, à medida que a câmara segue o ator Ray Liotta por um cabaré adentro.

Perante isso, alguns realizadores vão mais longe e idealizam um filme inteiro como um único plano-sequência, mesmo que, geralmente, a respetiva continuidade seja simulada através de cortes proporcionados por sombras, objetos que passam à frente da câmara, telas pretas ou efeitos especiais. Os casos mais famosos são, porventura, a primeira experiência fílmica do género, ‘The Rope’ (1948), de Alfred Hitchcock, e ‘Birdman’ (2014), de Alejandro Iñárritu. Ambos os filmes decorrem em espaços fechados e, em ambos os casos, o plano-sequência tem um efeito contundente nas narrativas, ao exacerbar a tensão e paranoia inerentes às mesmas. A longa-metragem mais recente a apresentar esta técnica, também ela um plano-sequência simulado, é ‘1917’, realizada por Sam Mendes.

O filme não desgruda dos cabos Blake e Schofield, interpretados por Dean-Charles Chapman e George MacKay, encarregues de uma missão importante e perigosa. Para a levarem avante, os dois soldados ingleses têm de atravessar a “terra de ninguém” — termo usado na Primeira Guerra Mundial para descrever o espaço desocupado entre as trincheiras de duas forças beligerantes — e dirigir-se aos arredores de uma pequena localidade para avisar o comandante de um batalhão aliado, composto por 1600 soldados, de que está prestes a cair numa armadilha alemã. O tempo é uma comodidade que se esgota a cada passo que dão em direção ao objetivo.

Desde logo, é necessário ponderar se o dispositivo cinematográfico posto em prática por Mendes e o lendário diretor de fotografia Roger Deakins funciona sempre em prol da história que está a ser contada. Por exemplo, enquanto a primeira sequência, passada na trincheira de onde os soldados partem, é um exemplo portentoso de como ilustrar um cenário abonado, repleto de pormenores deleitáveis, a fazer lembrar o trabalho de Stanley Kubrick em ‘Paths of Glory’ (1957), com a câmara a passear por corredores enlameados e atulhados de figurantes, a sequência seguinte, já dentro da “terra de ninguém”, um cenário alagadiço e algo repetitivo, põe a nu a ocasional vaidade da técnica aplicada. O take contínuo parece nem sempre funcionar totalmente a favor do filme.

Em suma, em alguns momentos, o facto de a obra estar a operar num plano-sequência é nada mais que a expressão prática das escolhas dos seus criadores, e não propriamente uma mais-valia. Esporadicamente, alguns poderão ser distraídos pelos movimentos da câmara, acabando por doar mais atenção aos caminhos que esta percorre do que aos protagonistas. Ao contrário das peripécias de Mrs. Maisel, o artifício faz-se notar, é intrusivo, podendo até extrair o espectador da bolha de ansiedade em que Mendes e Deakins, certamente, o queriam manter. Como tal, alguns elementos da audiência poderão encarar a situação apresentada como uma criação artificial, e não como um mundo que, por duas horas, “existe”.

Ademais, a forma como as várias sequências se encadeiam, por entre alguns cortes óbvios para quem tenha o olho treinado, faz lembrar um videojogo. Por mais que uma vez, a variação de cenários e, por arrasto, aceleração da tarefa dos soldados, é apressada pelo surgimento de dispositivos narrativos — veículos ou elementos naturais como um rio — que transportam os protagonistas de um local para o outro, como se estes estivessem a passar de um nível para o outro, à medida que as atrocidades da Grande Guerra os vão açoitando. No meio desses interlúdios, a fazer lembrar as cutscenes nos videojogos em que o jogador recebe orientações e é bombardeado com exposição, existe espaço para os cameos de atores de renome, como Colin Firth, Mark Strong e Benedict Cumberbatch. Quem já perdeu algumas horas com jogos de guerra como ‘Call of Duty’ ou ‘Battlefield’ terá relativa facilidade em identificar a dinâmica em questão, o que não significa que esta seja propriamente negativa. Também poderá contribuir para esta sensação o guião escrito por Mendes em parceria com Krysty Wilson-Cairns, onde, precisamente nas cenas em questão, se podem encontrar algumas linhas bastante corriqueiras, mesmo que, em contrapartida, as ações físicas dos protagonistas estejam bastante bem escritas — um guião não se compõe só de diálogos, mas também do comportamentos das personagens e dos cenários que as rodeiam.

Outros, por sua vez, poderão encontrar na técnica e escolhas em questão emoções revigorantes, nomeadamente, a ilustração do palco de guerra de uma forma única e entusiasmante. O resultado alcançado é memorável e, a partir de agora, sempre que se falar de dramas de guerra, ou até de filmes cuja complexidade logística impressiona, ‘1917’ terá obrigatoriamente de surgir na lista. Devido à mestria envolvida, algumas das suas sequências são inesquecíveis, portadoras de um perfume visceroso e metafórico. Por exemplo, numa sequência em que um dos protagonistas atravessa uma cidade ainda ocupada por alguns soldados inimigos, com um piscar de olho a ‘Full Metal Jacket’ (1987), a iluminação faz com que essa travessia atribulada mais pareça uma visita ao Inferno.

Outro aspeto interessante é a forma como o posicionamento da câmara ajuda, muitas vezes, a avultar o sentimento de impotência e aleatoriedade que muitos soldados relatam quando voltam para casa. Em várias sequências, o protagonista está a ser alvejado por atiradores distantes, porém, a câmara nunca o larga, mantendo-se fiel ao seu sentimento de desorientação. Ele não sabe de onde vêm os tiros e o espectador também não, a ameaça é constante, incansável.

Apesar da carga emocional que Chapman traz ao filme, o destaque no campo da interpretação tem de ir para MacKay, um ator que deve vir a ocupar as telas internacionais durante os próximos anos. Num filme deste tipo, em que sequências bastante longas exigem planeamento, coordenação, fisicalidade e coreografia extraordinários, à moda das mais exigentes peças de teatro, o ator nunca perde a autenticidade, evidenciando sempre as sensações de choque, tristeza, desespero e medo que a personagem exige.

A banda sonora de Thomas Newman também tem um papel importante devido às melodias atmosféricas e baléticas que vadiam pelas cenas, oferecendo-lhes a aflição que corre no cérebro das personagens. Todavia, em algumas passagens, fica a sensação de que o filme viveria melhor apenas sujeito aos sons causados pelas circunstâncias. Por exemplo, numa sequência grandiosa  — popularizada pelos vários trailers — em que o cabo Schofield corre pelo meio de um ataque militar, rodeado de explosões e soldados ao molho, a música agiganta-se perante todos os outros sons, quase como se quisesse conduzir a audiência para a sensação de epicidade que a cena claramente deseja ter. Tendo em conta a premissa técnica do filme, alguns espectadores podem dar por si a perguntar o quão melhores alguns momentos poderiam ser se a música simplesmente não existisse ou se fosse muito mais discreta. Algo semelhante acontece em ‘A Quiet Place’, o popular filme de terror de 2018 em que o realizador John Krasinski deita por terra um exercício fílmico de “puro silêncio” para, supostamente, oferecer mais emoção à sua criação com uma banda sonora bastante indutiva.

É algo discrepante, no entanto, que, apesar da sua quase-perfeição a nível técnico, vários elementos de ‘1917’ possam ser discutidos ou até renegados. Independentemente de um ou outro aspeto que não funcionem tão bem quanto os restantes, este projeto merece todos os louvores possíveis. Engendrar um filme de duas horas decorrido num único plano-sequência, mesmo que este seja falso, com a Primeira Guerra Mundial como palanque sangrento, com as necessárias cenas de ação daí extraídas, é uma meta que ninguém, até hoje, tinha conseguido cortar. O risco de insucesso era enorme e só com uma equipa extremamente competente e dedicada é que este empreendimento chegou ao patamar evidenciado. Esta é também a prova de que o Cinema é uma arte que requer muito estudo e preparação, e só os mais dedicados e obcecados estão à altura de construir algo tão memorável.

No fim, tem-se uma epopeia sobre o alteroso preço da guerra na psique do indivíduo, do soldado raso. Apesar da máquina logística adjacente a tudo o que é visualizado, ‘1917’ nunca deixa de ser uma experiência íntima e visceral, conforme os cabos Blake e Schofield atravessam obstáculos plenos de sujidade e do desconsolo que só um conflito bélico consegue gerar, numa luta fútil por milhas de terreno. Nenhum dos soldados retratados voltará a ser o mesmo, nunca mais voltarão a ter a paz pela qual tão afincadamente lutam. A guerra é o ópio da irracionalidade.

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