13 Reasons Why

‘13 Reasons Why’, o vislumbre duma realidade alarmante

Os primeiros episódios de 13 Reasons Why, dirigidos pelo realizador de Spotlight (2015), Tom McCarthy, vêm mascarados de banalidade. De mansinho, os temas recorrentes do liceu norte-americano, já muito explorados, vão surgindo: as cheerleaders, os atletas com o rei na barriga, o argumento simples, os atores imaturos, os empurrões nos corredores e todos os habitués deste tipo de obras. Porém, um pormenor corrosivo divergente dos clichés das séries e filmes juvenis rapta a curiosidade e convida a entrar nesta experiência que, por vezes, roça o voyeurismo: o narrador é uma adolescente que se suicidou. A sua voz doce e incomodamente fria preenche os treze episódios com as razões que ela considera relevantes para o seu suicídio. Para isto, deixou uma herança negra sob a forma de sete cassetes nas quais se dirige às treze pessoas que, direta ou indiretamente,  considera terem tido um papel preponderante na sua decisão de pôr fim à vida. A ideia é que as cassetes sejam ouvidas por todos os nomes da sua lista, cabendo aos visados passar a “encomenda” de mão em mão até que todos o tenham feito. “Estou prestes a contar-vos a história da minha vida – mais especificamente, por que é que a minha vida acabou. Se estás a ouvir esta gravação, és uma das razões”. Com tal premissa inicia-se esta epopeia juvenil que se transforma, rapidamente, num poço de relevância onde os jovens visados nas cassetes se afogam nas consequências dos seus atos.

Ao longo de treze episódios divididos entre o passado e o presente, e conduzidos pelas perspetivas de Hannah (Katherine Langford), a autora das cassetes, e Clay (Dylan Minnette), o jovem cuja vez chegou de ouvir as cassetes, somos  tocados pela pressão presente na vida dos adolescentes numa sociedade que se desenrola cada vez mais nas redes sociais. “Somos uma sociedade de stalkers. Somos todos culpados. Todos olhamos.”, pode ouvir-se num episódio no qual a falecida aborda a invasão de privacidade. Um desabafo, uma frase ácida no meio de tantas outras que vão espalmando os sentidos do espetador que pode vir a sentir-se relativamente incomodado com o que ouve. Temas como o cyberbullying, a depressão, o machismo, o abuso físico e psicológico, a agressão sexual e, obrigatoriamente, o suicídio juvenil são contextualizados sem os receios palpáveis e habituais do material do género. Apesar dos vários lugares comuns que vão surgindo, 13 Reasons Why afasta-se do retrato juvenil mundano através de cenas e ditos fulcrais que vão espicaçando a passividade reflexiva do espetador. Destes momentos surge o grande triunfo da série, a capacidade de criar introspeção, de levantar questões alarmantes com as quais os jovens estudantes certamente se identificarão. Uns porque já o sofreram na pele, outros porque já perpetuaram o abuso, mesmo que na altura nem se tenham apercebido. Fica-se, portanto, com um retrato cru da vida do adolescente comum, uma delineação que pode servir de espelho e que não se priva de criticar a forma como as escolas protegem os agressores e promovem um ambiente de culto desmedido em relação a um grupo restrito de jovens que, por regra, se destacam nas atividades desportivas. “Experimentem andar na escola com homens das cavernas a quem dizem que são a única coisa de valor no liceu e que os demais estão lá apenas para torcer por eles e lhes darem o apoio que precisam”, cospe uma das personagens numa das tais tiradas inquietantes. O apogeu chega quando, como espetadores, percebemos o quão comuns, demasiado comuns, são as micro-agressões ali retratadas, especialmente as de teor sexual que muita vezes passam despercebidas e que, maioritariamente, conduzem ao desespero da protagonista.

13 Reasons Why

“Uma série séria mas para putos”, poderá, apesar de tudo, estar a pensar o leitor mais velho que procura um novo projeto para o seu tempo lúdico. Sim e não só. 13 Reasons Why também se configura como material essencial para os adultos, especialmente para os pais de jovens adolescentes, que, tal como a série exemplifica, muitas vezes desconhecem o estado de sofrimento e ansiedade em que os próprios filhos se encontram. Não por culpa própria, como é subentendido, mas devido às circunstâncias nefastas trazidas pelo desenvolvimento bruto e repentino que se deu na forma de viver a juventude nos últimos anos. Por exemplo, num dos episódios mais marcantes é referida a falta de consciencialização da grande maioria dos pais em relação aos efeitos das redes sociais nos seus filhos por nunca terem eles próprios experienciado esse fenómeno.  Além disso, poder-se-á, como adulto, sentir uma macabra e convidativa nostalgia acompanhada por uma banda sonora, que de inocente não tem nada, onde se pode ouvir os hits desatualizados dos The Cure ou Joy Division. Nisto, tanto poderá surgir o mea culpa para os bullies como um reavivar do “pesadelo” para os que estiveram do outro lado da barricada. Mais inquietante ainda, muitos, tal como o jovem Clay, poderão interrogar-se: “será que fiz mal a alguém e nem sequer me apercebi?”. Uma coisa é certa, é difícil ficar indiferente a este mundo vivo repleto de emoções e contradições.

13 Reasons Why

Não obstante, 13 Reasons Why está longe da perfeição. A sua cinematografia é vulgar, ficando-se pelos ângulos comerciais e a alternância repetitiva entre os tons quentes, que acompanham a narrativa no passado, e os tons frios, quando se lida com o presente. Os atores são inexperientes, destacando-se pela positiva a dupla de protagonistas que conseguiu desencantar uma química envolvente, apesar de não conseguir ser completamente absorvente nos momentos mais pesados. E a escrita, apesar da periódica ironia, mantém-se simples e straight to the point. O que amenizará as observações anteriores é o facto percetível da série ter sido idealizada para atrair o maior número possível de espetadores e, mais importante ainda, poder ser compreendida pelos adolescentes de tenra idade cujo espírito crítico ainda se encontra em desenvolvimento. As insuficiências técnicas perdoar-se-ão ao criador Brian Yorkey que conseguiu transformar o best-seller homónimo de Jay Asher lançado em 2008 numa obra marcante de cariz urgente. A sua mensagem já faz, inclusive, eco na comunidade juvenil, pois, segundo as autoridades, o número de pedidos de ajuda de adolescentes em stress subiu drasticamente desde o lançamento da série na Netflix. Gostos e reparos à parte, não será para isto que a arte audiovisual serve? Para criticar, para alarmar e levantar questões prementes? Mesmo que as inconsistências se materializem com alguma frequência, 13 Reason Why reveste-se de obrigatoriedade, pois, é provavelmente o drama juvenil mais relevante desta geração. O teor das cassetes de Hannah marca e remata nas direções corretas, agiganta-se contra a sociedade da omissão em que muitos adolescentes vivem amedrontados, reféns da pressão social e dos preconceitos que se perpetuam geração após geração. Transforma-se numa voz audível para todos aqueles que nunca a tiveram.

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