The Witch

‘The Witch’, o medo e a opressão

“Um conto popular da Nova Inglaterra”, preconizam os créditos iniciais de The Witch (2015), realizado por Robert Eggers, até que somos arremessados para os olhos redondos de Thomasin, interpretada por Anya Taylor-Joy, a filha mais velha dum casal de puritanos que se prepara para abandonar a colónia onde reside, após ter sido banido devido a um aparente conflito de ideologias com os líderes da comunidade, no qual fica patente a teimosia e orgulho do pai, interpretado por Ralph Ineson. Conforme as portas da comunidade puritana se fecham nas costas da sua família, à qual se acrescenta um irmão no princípio da puberdade, duas crianças gémeas e um bebé, Thomasin é a única que olha para trás, a única que talvez pressinta a calamidade que a reclusão nas terras selvagens da América colonial pode trazer no século XVII, principalmente a uma adolescente cujos instintos sexuais começam a despertar e cuja exploração dessa tempestade hormonal terá de fazer sozinha, sem ninguém da sua idade com quem conviver. Será este fechar de portas o anúncio de que o que se passará daí em diante é nada mais do que um dos tais contos populares da altura, proferidos em surdina para assustar as crianças e sobressaltar os mais indisciplinados? Contos sobre bruxas e pactos com o Diabo, sobre as consequências nocivas da mentira, da hipocrisia e do orgulho, mas também da sexualidade e da exploração de ideias progressistas. Quem não teria medo de se revoltar contra os ensinamentos e proibições dessa sociedade arcaica, quando, em troca, poderia receber o mais maléfico dos corolários. Quem não teria pavor de desafiar os poderes instaurados, quando o que o espera lá fora é a incerteza, provavelmente a morte. Pelo medo instigado pelos contos populares a maioria se fica, incapazes de sair dessa bolha social regada de fábulas negras e avisos supersticiosos, pois, para lá das tais portas, o Diabo e os seus serviçais espreitam a cada esquina. Ou, pelo menos, assim lhes é contado.

The Witch

E o conto sobre a família que ousou desafiar os seus superiores e, como castigo, enfrentar o desconhecido, ganha ramificações nefastas assim que, já na sua nova casa, na orla duma floresta sombria, Thomasin, num momento de distração, sem explicação aparente, vê o seu irmão mais novo, um bebé ainda por batizar, desaparecer sem deixar rasto. A família, chocada com o desenrolar dos acontecimentos, enterra-se numa depressão hóstil para com a adolescente, ora não fosse, mesmo que subconscientemente, atribuída a culpa à negligência de Thomasin ou, quem sabe, à sua potencial propensão para atrair a desgraça, ou, por outras palavras, para atrair a bruxa que terá roubado o bebé. Entra-se, assim, numa viagem rebarbativa por entre as superstições religiosas da época e a convivência apodrecida daí extraída: um tubo de ensaio para os resultados do fanatismo, da opressão e do excesso de tabus em tempos idos. Porém, para que a imersão nesse micro-ecossistema – a família de Thomasin – resultasse, para que este não fosse mais um banal filme de terror, teria de imperar uma atenção ao detalhe fora do comum, os males que afligem estas pessoas teriam de parecer verossímeis, Satã teria de, durante hora e meia, ser uma hipótese física para o espectador, uma presença quase certa, visto que, naquela altura, e para aquela família em particular, este era um tema recorrente, uma certeza absoluta e irrevogável. Por conseguinte, a autenticidade de The Witch é arrepiante. Desde a linguagem utilizada pelas personagens, fazendo-se útil o inglês antigo, também conhecido como anglo-saxão, passando pelas vestes, todas elas feitas à mão, até exímios pormenores como as refeições servidas com faca e colher, sendo que na altura o garfo ainda não era usado, tudo aponta para uma experiência lídima onde, em momento algum, o espectador terá o dissabor de não acreditar no credo das personagens e na legitimidade das suas conversas febricitantes. Por momentos, somos transportados para um sítio onde o sobrenatural existe e é normal, onde os valores e as construções psicológicas da era moderna não se aplicam, para um patamar psicológico onde poucos filmes do género conseguem chegar. E Eggers, que escreveu o guião baseado no folclore, documentos e relatos do período, tira vantagem dessa genuinidade, alcançada no mais subjetivo dos cenários – uma floresta negra e amaldiçoada -, para fazer uma aproximação subtil à cisma religiosa como propulsora do medo, da depressão e, possivelmente, da alucinação. Será que os males que vão deflagrando existem mesmo, já que apenas são presenciados pelos mais novos, altamente suscetíveis aos desenhos macabros alimentados pelas preces dos pais, ou serão apenas o fruto alegórico de quem em tudo vê mal? Será que as bruxas habitam mesmo aquela floresta, ou são apenas o resultado duma equação impossível de resolver com a matemática de outrora? Não longe destas questões, mas num plano indubitavelmente literal, o filme pode ser meramente encarado como o retrato duma família disfuncional que, através duma agoniante guerrilha emocional, vai atirando achas para a fogueira onde, mais tarde, se vai queimar. Nessa encruzilhada de emoções, terá de ser dado destaque às falácias e contradições dos dois adultos, marido e mulher, pai e mãe, a segunda interpretada por Kate Dickie, que, no meio dos sermões hieráticos que pregam, pregam também estacas profundas no relacionamento frágil que mantêm com a filha mais velha, sobre a qual começa a cair a penitência de tudo o que acontece, nascendo assim uma ligação com o conceito contemporâneo de “bruxa”. Não a mulher de cabelos grisalhos, hedionda, que agita o caldeirão das poções e voa numa vassoura, a reprodução do folclore tradicional idealizado a preceito das fobias da época, mas sim a jovem que ousa contrariar o que lhe é dito, questionar a hipocrisia dos seus superiores, e, por isso, ser ostracizada e responsabilizada por todos os infortúnios. De encontro às interpretações modernas da bruxaria e do flagelo condenatório que lhe corresponde, típico precisamente das comunidades puritanas do século XVII, Eggers utiliza a jovem Thomasin e a reação da família às suas atitudes como uma micro-amostra do processo psicológico que, assente em superstições e conceitos bíblicos, condenou milhares de jovens às mais vis sentenças, por comportamentos tidos como hereges que, atualmente, não passariam de práticas normais, como é o caso da masturbação. Não que o mundo moderno esteja livre de preconceitos em relação à expressão sexual das mulheres em geral.

The Witch

Ademais, a nível formal, The Witch é um exemplo primoroso de como um genuíno filme de terror deve ser realizado e filmado. Afastando-se da compulsão de conduzir o espectador para o susto fácil, o cinematógrafo Jarin Blaschke criou, ao invés, uma série de planos claustrofóbicos, deixando os atores à mercê de cenários intimidantes. Por exemplo, numa cena em que o filho mais velho Caleb, interpretado por Harvey Scrimshaw, se aventura sozinho pela floresta negra, com o intuito de exacerbar a solidão e pavor do jovem face à paisagem opressiva, são utilizados vários ângulos inferiores – a câmara filma de baixo para cima – de maneira a agigantar as árvores em relação ao corpo minúsculo do rapaz. Nisto, entra em jogo um trabalho sonoro deveras competente, não só pela presença de sonidos naturais que preenchem todas as cenas, provenientes de coisas tão simples quanto galhos de árvores a quebrar, mas também graças aos laivos repentinos duma música estridente que, por vezes, induz picos de ansiedade completamente discordantes com o que efetivamente decorre em cena. Como tal, não sendo um filme apropriado para todo o bico, já que muitos talvez prefiram o formato “jump scare”, a obra opera em várias frentes distintas que, devidamente conectadas, perfazem uma experiência tão enriquecedora quanto sinistra. Numa vertente académica, funciona como um excelente retrato de época, apresentando vários traços comuns à comunidade puritana da Nova Inglaterra, como a linguagem, o vestuário, os hábitos e crenças, como um estudo profundo de grupo e personagem, abordando as dinâmicas comportamentais que, independentemente do fervor religioso em causa, conduzem ao envenenamento das relações interpessoais no seio familiar, e como ensaio formal e técnico de topo, demonstrando que a insinuação de que um horror existe pode ser muito mais eficaz do que a demonstração explícita desse mesmo horror. Com um fim extremamente simbólico, se bem que possa ser incompreendido com muita facilidade, The Witch é uma invulgar dissertação sobre um povo, uma cultura e uma forma de estar que, anos mais tarde, por coincidência ou não, viria a gerar uma das ondas de violência e censura mais marcantes da História, que muitos poderão conhecer como a “caça às bruxas”, com especial impacto na Europa. Pois, provavelmente, as crianças que passaram toda a infância a ouvir esses contos assustadores sobre bruxas e as suas atividades bizarras, cresceram e começaram a perseguir as protagonistas desses pesadelos incutidos pelos mais velhos. O medo e a opressão, quando encorajados e enraizados na sociedade, têm sempre um resultado prático e contundente. Geralmente, negativo.

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