The Social Network

‘The Social Network’, sozinho

Este artigo contém spoilers.

Mark Zuckerberg, um estudante universitário interpretado por Jesse Eisenberg, dirige-se a passos largos para o seu dormitório, dobrando as esquinas do campus de Harvard. Após ter sido abandonado pela sua namorada Erica, interpretada por Rooney Mara, por esta estar farta das suas conversas obsessivas sobre elitismo, o que o move é um sentimento de rejeição, um transe vingativo que viria a mudar o mundo. E mudou. Já no seu quarto, começa por alcoolizar-se e destilar a frustração que o corrompe, partilhando no seu blogue pessoal, para quem quiser ler, uma série de insultos à pessoa e figura de Erica, sem pensar nas consequências daí resultantes, sem pensar na irresponsabilidade dos seus atos. Não satisfeito com a humilhação online, decide “hackear” os perfis pessoais das várias associações ligadas à universidade e roubar milhares de dados relativos aos seus colegas com o objetivo de criar o Facemash, um website onde os visitantes, os estudantes a quem acabou de roubar os dados, podem votar na rapariga mais sensual. Tanto pela banda sonora impaciente de Trent Reznor e Atticus Ross, como pelo genial trabalho de edição de Kirk Baxter e Angus Wall, toda a cena é hipnotizante, à medida que se alterna entre o desvaire compulsivo de Zuckerberg, preso ao teclado criminoso, e as imagens festivas duma fraternidade onde os residentes, estudantes abastados, recebem nos seus aposentos um enorme grupo de raparigas que chega de autocarro, felizes por visitar os líderes da matilha, os alpha cuja confiança desmedida é injetada pelo evidente estatudo social elevado. O realizador David Fincher é audaz e ambicioso, não se perde em conversas sobre miúdos que queriam tornar o mundo melhor. A um nível subconsciente, está tudo relacionado com sexo, popularidade e dinheiro, e o poder que estes trazem a quem os tenha – o combustível que faz o planeta girar. Nessa noite, o servidor da universidade foi abaixo, depois dum número exorbitante de usuários terem visitado essa diabólica e divertida criação nascida dum crime informático. Para Zuckerberg, uma brincadeira que serviria de inspiração, juntamente com outras sugestões, para criar aquilo a que hoje, quinze anos depois, conhecemos como “Facebook”. Ora, não será extremamente irónico que a aventura megalómana desse jovem prodígio da informática, agora bilionário e dono duma das empresas mais influentes de sempre, tenha tido a sua génese em dois comportamentos que marcam a existência atual da rede social pela negativa – a invasão de privacidade e o uso tóxico da plataforma para fins mesquinhos e vingativos? Isto porque, todos os dias, milhões de usuários pelo mundo fora utilizam a rede social para ensaiar discursos de ódio, assim como lavar a roupa suja das suas vidas pessoais nessa praça pública onde, pelos vistos, todas as palavras são gravadas e armazenadas, mais tarde utilizadas para fins políticos e publicitários. E é com esse início frenético que The Social Network (2010), com os seus desvios ficcionais – a namorada de Zuckerberg não se chamava Erica e o Facemash também apresentava fotos de rapazes – começa a desvendar ao que veio. Este não é simplesmente um filme biográfico sobre o criador da maior rede social do planeta, ou somente um ensaio dramático sobre o nascimento dessa mesma plataforma, é, também, uma parábola para a forma como, anos mais tarde, usamos o Facebook para guiar a nossa vida social.

The Social Network

Baseado no livro ‘The Accidental Billionaires: The Founding of Facebook, a Tale of Sex, Money, Genius and Betrayal’ de Ben Mezrich, o filme, por entre as suas observações e sugestões pertinentes, conta a história tumultuosa por trás da criação do Facebook, desde a noite em que Mark Zuckerberg e o seu melhor amigo Eduardo Saverin, interpretado por Andrew Garfield, começaram a empresa num dormitório de Harvard, até ao fim da disputa legal que condenou o fundador da rede social a pagar indemnizações milionárias aos irmãos Winklevoss, interpretados por Armie Hammer, e a Saverin. No caso dos gémeos, por se ter apoderado da sua ideia para o The Harvard Connection, uma rede social que ligaria os estudantes de Harvard, e, no caso de Saverin, por ter diluído as suas ações da bolsa relativas à empresa de forma alegadamente ilegítima. Se bem que alguns pedaços entrem em discórdia com os relatos das pessoas reais e a personagem principal funcione como uma caricatura destinada a servir um refogado de punchlines ácidas – toda a gente diz que ele é bem mais aborrecido na vida real -, o filme ultrapassa todas essas incertezas graças à sua veia visionária, à forma como, através da exploração dramática das várias figuras que exalta, faz uma aproximação à sociedade digital em que vivemos hoje em dia. O guião de Aaron Sorkin, provavelmente o melhor trabalho da sua carreira, consegue a proeza de interligar os comportamentos dum grupo de jovens ambiciosos em 2003 às mecânicas psicológicas que viriam a comandar uma boa parte dos usuários do Facebook, quer na altura do lançamento do filme, quer agora em 2018. Ao associar o nascimento do Facebook a atitudes maioritariamente sexuais e levianas – várias são as cenas em que esse processo criativo é vinculado à vontade de “engatar miúdas” e ganhar popularidade – o guionista constrói uma ponte para os motivos que levaram uma parte considerável dos usuários a juntarem-se à rede social em primeiro lugar. Como diz a certo ponto a personagem de Eisenberg, “toda a gente quer mandar uma”. Ou, como disse Oscar Wilde num registo mais eloquente, “Tudo no mundo é sobre sexo, excepto o sexo. Sexo é sobre poder”. Apesar de, hoje em dia, o Facebook ser um habitué, até uma ferramenta de trabalho ou fonte de informação, se se pensar profundamente, o seu boom inicial, tal como o filme dá a entender, deveu-se a um imperativo carnal e à forma como a plataforma facilitava a aproximação entre pessoas, num contexto sexual ou não. Em tom de experiência, bastará uma viagem pelo feed para perceber que partilhas que evocam emoções de cariz sexual, como por exemplo uma foto duma beldade de biquíni ou dum rapaz com abdominais definidos, obtêm muito mais interação do que uma partilha de cariz intelectual, como por exemplo um artigo jornalístico. Nesta versão dos acontecimentos de Sorkin, Zuckerberg criou o Facebook porque não conseguia comunicar decentemente com as pessoas, especialmente com a namorada que lhe deu com os pés, após este transformar uma conversa banal num ataque disparatado à sua pessoa. Usando a personagem de Eisenberg como veículo metafórico, o guionista aponta para uma sociedade desligada onde as pessoas podem usufruir do alívio providenciado pela distância física, substituindo os abraços por likes e as conversas cara a cara por comments, trocando a arte da sedução por textos ensaiados. No Facebook, temos tempo para pensar, para refletir cada comentário que tecemos, amenizando alguma inaptidão social e correndo apenas o risco de que a pessoa do outro lado vislumbre três pontinhos irrequietos capazes de proporcionar mais doses de suspense do que alguns filmes de terror. O Mark Zuckerberg ficcional é uma representação emblemática do paradoxo vivido pelo cidadão comum no mundo moderno. Ao criar a maior plataforma de interação humana alguma vez idealizada pelo Homem, criou também a implosão dessa mesma interação do ponto de vista físico e emocional. Aos poucos, as pessoas têm-se refugiado na frieza do ecrã, substituindo a intimidade inerente ao contacto interpessoal por uma omnipresença contrafeita fornecida pelo feed de notícias e pelas bestialidades que este possa servir. Não é coincidência que, no fim do filme, o empresário acabe sozinho, despojado da amizade do seu melhor amigo, frente-a-frente com o seu rebento digital, o qual usa para fazer um “pedido de amizade” à sua ex-namorada. Apesar da simplicidade, poucos momentos do cinema moderno foram tão simbólicos quanto este. A nível abstrato, esta última cena, além doutras potenciais interpretações, funciona como o prenúncio duma nova era digital onde a preguiça social, acentuada pelo facilitismo inerente às redes sociais, virá a desagregar os conceitos de amizade e comunhão, e, mais gravemente, a criar uma nova geração cujos valores sociais assentam em formas de contacto artificiais e impessoais. Recorde-se que, durante todo o filme, o empresário nunca pede desculpa a Erica pelo seu comportamento incorreto. Porém, qual golpe de génio, ao mesmo tempo que carrega a sua personagem de simbolismos pessimistas e motivações frívolas, o guionista deu ao seu Zuckerberg uma dose de heroísmo, ao dramatizar o seu embate com os irmãos Winklevoss, que representam a classe alta e autoritária, a quem a vida dá tudo de mão beijada, e a quem o jovem prodígio, com a sua invenção, mostrou o dedo do meio, mesmo que efetivamente se tenha apropriado da sua ideia original. Como tal, estava criado um dúplex emocional à volta da personagem: ora o idiota que objetifica as mulheres e começa um rede social por motivos duvidosos, ora o herói que arrepia caminho para se tornar um dos homens mais importantes do mundo e desenvolve uma das ferramentas tecnológicas mais relevantes do século XXI, virando do avesso a hierarquia social a que parecia estar condenado.

The Social Network

Contudo, apesar do guião inteligente, repleto de frases perduráveis, The Social Network seria apenas mais um “filme de conversas” não fosse a idónea realização de Fincher e o impecável trabalho de fotografia do cinematógrafo Jeff Cronenweth, que já havia colaborado com o cineasta americano em Fight Club (1999). Com a escolha arrojada de utilizar câmaras RED ONE com uma versão ainda experimental dos famosos sensores MX, um utensílio mais que indicado para filmar em cenários com pouca luz, a dupla conseguiu resolver algumas das maleitas que costumavam assombrar a maioria dos filmes que se aventuravam por paletas escuras, desde problemas com a resolução, até problemas relacionados com a profundidade de campo. Com isto, foi dada uma dose extra de gravidade a todas as cenas, ganhando o filme uma aura negra e absorvente, aprisionando o espectador numa espiral de diálogos céleres e avinagrados, e justaposições entre o campus de Harvard, onde a maioria da magia acontece, e uma sala de reuniões onde os artistas desse circo digital se gladiam por um pedaço do Facebook. Rede social essa que, nos dias que correm, faz justiça ao tom lúgubre do filme, já que muitos, aquando da estreia do filme, acusaram Fincher de vilanizar em demasia Mark Zuckerberg. Numa altura em que os responsáveis da empresa já admitiram que as informações privadas de pelo menos 87 milhões de usuários foram utilizadas ilicitamente para aperfeiçoar propagandas políticas e fenómenos como as notícias falsas, é inevitável pensar na arrogância com que a personagem de Eisenberg aborda todas as acusações que lhe são feitas. “Se vocês fossem os inventores do Facebook, vocês tinham inventado o Facebook”, diz este num tom áspero, enquanto enfrenta os irmãos Winklevoss e o seu advogado. Ele sabe que, independentemente do que aconteça, o grande poder da sua criação está na facilidade com que as pessoas, já naquela altura, forneciam a sua informação pessoal de forma algo gratuita. E quem domina a informação, domina quase tudo. Bastará averiguar que as empresas que têm as maiores bases de dados do mundo são, atualmente, as que têm mais influência e poder, para além de, sem que o anunciem de forma transparente, serem proprietárias da maioria das aplicações que usamos diariamente. Numa altura em que um número considerável de pessoas, inclusivamente celebridades e empresas gigantes, começam a abandonar o Facebook e várias alternativas descentralizadas começam timidamente a surgir, restará saber se, na vida real, Zuckerberg não acabará precisamente como o seu homólogo fictício acabou, num fechar de cortina tão triste quanto irónico. Sozinho.

Partilhar