‘The Silence of the Lambs’, de sorriso vermelho no rosto

Abrem-se as grades. Para Clarice (Jodie Foster), adivinha-se um percurso sombrio, uma viagem aos calabouços do Mal, qual canário enviado túnel adentro só para conferir se o ar é respirável. Dados alguns passos, surge o primeiro prisioneiro, de sorriso amarelo, um anfitrião macabro, mas inofensivo. Segue-se o obsceno Miggs, “consigo cheirar a tua rata”, profere no meio da azáfama sexual que subitamente lhe percorre as veias, afinal esta é uma mulher bastante atraente, não que tal adição de valor signifique muito para o recluso claramente perturbado, fechado numa prisão de alta-segurança faz vários anos – o que lhe interessa é algo bem mais primitivo. Ela ignora, como quem ignora uma buzinadela no meio dum engarrafamento, regista mas segue em frente, em direção ao seu objetivo: a cela do doutor Hannibal Lecter (Anthony Hopkins), conhecido pelos seus crimes hediondos com recorrência ao canibalismo. Este sim, um anfitrião cortês e eloquente, o Mal afinal tem rosto. “Bom dia”, destoa do pobre Miggs, que se masturba na cela do lado e há-de ser motivo de conversa, ora não usasse o hábil Hannibal, após as apresentações da praxe, a investida rude do seu vizinho de cárcere para tentar “desarmar” a inexperiente aspirante a agente do FBI. Mas corajosa, e bem ciente do temível adversário que tem pela frente, esta repete, a pedido do mesmo, a indecorosa frase. Ele adora a sua audácia. E assim se inicia uma das relações mais inortodoxas da história do cinema, assim como o uso duma linguagem cinematográfica ímpar. Enquanto na maioria dos filmes as cenas de diálogo são montadas colocando-se a câmara por cima do ombro dos interlocutores, podendo ocorrer uma série de variações angulares, em The Silence of the Lambs (1991) utiliza-se um esquema em que todas as personagens, focadas em plano fechado, olham diretamente para o centro da câmara, salvo Clarice, que, na maioria das vezes, olha para um ponto para além da lente: a câmara simula o que os olhos dela veem, exceto quando está a filmá-la ou em alguns planos alternativos. Esta dinâmica faz com que esta seja a personagem cujo ponto de vista é adotado, logo, o centro moral da história. No entanto, quando o seu ponto de vista é abandonado, o repetido foco da câmara na sua figura feminina por parte do cinematógrafo Tak Fujimoto abre igualmente espaço para a teoria do “male gaze”, popularizada num ensaio escrito pela crítica de cinema e professora Laura Mulvey. Segundo esta, no cinema, o “male gaze” ocorre quando é dada à audiência a perspetiva dum homem heterossexual sobre uma personagem feminina. Neste processo, mesmo que inadvertidamente, a personagem da mulher torna-se um mero objeto de contemplação erótica. Exemplos maiores desta teoria são os filmes da saga 007. Por sua vez, Alfred Hitchcock era igualmente um ávido explorador desta característica, não por defeito, mas por escolhas criativas coladas à noção clássica de voyeurismo. Esta masculinização da experiência cinematográfica enquadra-se com o filme realizado por Jonathan Demme, visto Clarice estar rodeada de personagens masculinas que quase sempre a fitam num contexto sexual ou patriarcal. Outro pormenor a ter em conta é a forma como, em muitas cenas, as personagens masculinas são aumentadas no plano e filmadas dum ângulo inferior, enquanto Clarice é muita vezes, em comparação, diminuída no plano e filmada dum ângulo superior, dinâmica utilizada tradicionalmente para transparecer a falta de controlo duma dada personagem. Porém, esta aproximação às ideias da professora Mulvey é intencional e calculada, um mecanismo cujo propósito é determinar e complementar o ponto de vista da personagem interpretada por Foster. O realizador usa o “male gaze” não como uma ferramenta tradicional de hipermasculinização subconsciente da narrativa, mas para aprofundar a noção que o espetador tem dos sentimentos de Clarice e da sua luta constante contra um mundo laboral dominado por homens, neste caso o FBI, e uma investigação policial que a opõe a um psicopata que exibe um comportamento predatório, como é o caso de Hannibal Lecter. Por outras palavras, o realizador transformou um dos problemas mais comuns do cinema moderno, mais denotado que nunca nos tempos que correm, num utensílio extremamente útil na exploração da sua personagem principal. Para mais, as técnicas descritas são também utilizadas para exacerbar os jogos de poder entre os vários intervenientes e lançar Clarice para um ambiente sistematicamente opressivo e incómodo, numa manifesta aproximação ao género de terror.

The Silence of the Lambs

Hoje em dia, The Silence of the Lambs seria possivelmente um filme bastante polémico devido à forma como descreve “Buffalo Bill” (Ted Levine), um assassino de mulheres que esfola as suas vítimas e lança os seus corpos ao rio, sendo este modus operandi o motivo pelo qual o FBI tenta convencer o doutor Hannibal Lecter a oferecer o seu prisma sob o caso. Já na altura do lançamento do filme, surgiram críticas em alguns segmentos da sociedade em relação à ligação indireta entre a confusão sexual de “Buffalo Bill” e as suas tendências homicidas, o que em 1991, quando estes temas ainda não haviam sido devidamente explorados senão num pequeno nicho académico, sugeriu uma relação intrínseca entre ambiguidade sexual e comportamentos negativos. Contudo, é de notar que durante a obra são feitas várias contradições a esta tese, como por exemplo, uma linha de diálogo específica em que Clarice refere que, segundo a literatura, não existe qualquer correlação entre a transsexualidade e a predisposição para a violência, pois “os transsexuais são muito passivos”, referência infeliz, mas que acaba por refutar essas teorias. Em contrapartida, esta potencial inconsistência é compensada pela visão arrojada criada pelo argumentista Ted Tally, baseada no livro homónimo de Thomas Harris, duma sociedade norte-americana machista, que pode muito bem expandir-se para o resto da comunidade ocidental. Clarice é uma jovem oriunda do West Virginia que tem de lutar contra uma hierarquia laboral dominada por homens. Diversas são as cenas em que esta atravessa os corredores da sede do FBI em Quantico, onde recebe vários olhares indiscretos, o “male gaze” sempre patente, inclusive olhares de desdém, não estivesse a sua carreira a subir a pique graças ao diretor, Jack Crawford (Scott Glenn), que a nomeou para a missão de abrir linhas de comunicação com Hannibal devido não só ao seu talento, mas também à sua beleza. Em algumas cenas, os olhares transformam-se até em convites para encontros fora do horário de expediente e em apreciações verbalizadas sobre o seu aspeto físico, atos que se configuram tecnicamente como assédio sexual. Apesar de parecerem um mero elemento do género de terror psicológico, estas cenas têm um outro objetivo subtil: chamar a atenção para uma sociedade onde a mulher é muitas vezes assediada, mesmo em situações laborais. Clarice vê-se obrigada a defletir estes avanços com humor e de ânimo leve, tão habituais se tornam tais situações, não sem antes estes ficarem marcados no seio do filme como um símbolo das provações que uma mulher tem de enfrentar para ser bem-sucedida ou, pelo menos, aceite num meio dominado por homens. Ademais, Demme fez questão de deixar vários tesouros à vista do espetador mais atento, como bandeiras americanas e suásticas, sempre plantadas no habitat dos assassinos em questão, numa possível referência, também explorada noutras obras, à ligação, uma que é cada vez mais notória em 2017, entre a filosofia patriótica e económica do país e a facilitação de atos de violência. Como tal, numa altura em que o assédio sexual e o acesso facilitado a armas de fogo são alguns dos temas principais do fórum social norte-americano e, por arraste, europeu, The Silence of the Lambs, que já leva 26 anos de existência, e que recentemente chegou a solo britânico com uma versão restaurada, encaixaria que nem uma luva no panorama cinematográfico atual e a provação da sua protagonista teria, provavelmente, o justo destaque que não obteve em 1991, apesar de Jodie Foster ter ganho vários prémios. Clarice não se configura como uma romantização do agente rebelde ou incumpridor das regras, ou da figura feminina que, mais tarde ou mais cedo, cede à pose sensual, mas antes como uma profissional de alto gabarito, treinada e ponderada, que segue as regras e a lógica de forma a levar a sua avante, ciente do ambiente discriminatório que a rodeia. Existirá mais alguma protagonista de Hollywood semelhante a ela? Poucas vêm à memória. Com as centenas de personagens cinematográficas e literárias que até então foram feitas à imagem de Hannibal Lecter, é incompreensível que tantas mais não tenham sido criadas à imagem de Clarice Starling.

The Silence of the Lambs

Todavia, a mestria do filme depende do conto distorcido sobre a Bela e o Monstro, da relação complexa entre a agente novata e o sábio maníaco, que, porventura, é uma das melhores personagens de sempre da sétima arte. A interpretação de Anthony Hopkins é exímia, uma que qualquer estudante de cinema deve visitar repetidamente. As múltiplas nuances que este oferece à personagem através de microexpressões criam uma sensação de desconforto ininterrupta. Ora predador e manipulador, ora exibicionista e pueril, Hannibal é o pináculo da amoralidade, uma caricatura desconcertante dum psicopata extremamente violento e inteligente que não só sente a falta de carne humana, sua maior predileção, como anseia por recriar a sua prática médica, a psicanálise. Por isso, arrasta a jovem para um jogo quid pro quo em que, em troca de informações pertinentes para a detenção de “Buffalo Bill”, esta terá de lhe expor os seus traumas de infância. Como resultado, esta torna-se sua paciente honorária, verbaliza os seus segredos mais íntimos em troca da chave para a mente do assassino em série que continua à solta. Hannibal, através dos anagramas e mensagens ocultas que vai lançando a Clarice, funciona como catalisador não só da progressão do enredo, mas também dum mecanismo narrativo que dá a conhecer intimamente a personagem principal ao espetador. Para além de inimigo, este torna-se professor e confidente, mas também torre silenciosa num jogo de xadrez que só ele sabe jogar – em direção à fuga. Como tal, no que a este filme diz respeito, a personagem Hannibal Lecter é um dos maiores feitos do cinema moderno, tanto pela mestria do ator que a encarna, como pelo sub-enredo que é criado à sua volta. Apesar da personagem principal ser Clarice, e o enredo principal prender-se ao caso de “Buffalo Bill”, o filme não seria possível, ou pelo menos não atingiria a qualidade desejada, sem a presença de Hannibal. Com a ajuda do argumento inventivo, o canibal é utilizado para criar termo de comparação, ou seja, um confronto entre o modo divergente como este e Clarice lidam com o mesmo problema. Esta dinâmica torna-se clara quando este, em vez de apontar os erros de abordagem da jovem, levanta perguntas que, indiretamente, expõem a sua solução para o problema em análise e ajudam Clarice a abreviar caminho em direção a uma resolução. Assim, o sub-enredo, liderado pela personagem secundária, ao invés de ser um mero adorno, é utilizado para realçar os dilemas e defeitos da personagem principal, logo, tornando-a mais rica e multifacetada. Estas diligências oferecem igualmente ao filme a ironia que pouco abunda nos projetos do género. A personagem principal apenas se torna o herói da história porque escutou os conselhos dum dos vilões. The Silence of the Lambs é nada mais que uma fábula moderna sobre a pessoa que faz um “pacto com o diabo” como meio para atingir um fim. E no fim, perdurará a imagem desconcertante de Hannibal imundo em sangue, de sorriso vermelho no rosto e com um frenesim orgásmico nos olhos, a espancar um polícia até à morte com um bastão, o seu chicote vicioso, apenas para obter aquilo que sempre quis: liberdade.

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