The Lives of Others

‘The Lives of Others’, os meios apenas ficaram mais sofisticados

Segundo Dylan Curran, num artigo para o The Guardian, quando um utilizador permite o acesso de apps a acessórios como a câmara do telemóvel ou o microfone, na prática estas têm permissão para fazer o seguinte: aceder a todas as câmaras do dispositivo, gravar qualquer conversa desde que a app esteja ligada, tirar fotografias e filmar sem aviso prévio, fazer upload imediato desses mesmos vídeos e fotos, correr um sistema de reconhecimento facial através da câmara, entre outros. Em 2016, após o seu telemóvel ter sido roubado, Anthony van der Meer, um jovem holandês com queda para a fotografia, apercebeu-se da quantidade de informação pessoal que o assaltante poderia recolher do dispositivo, caso assim o entendesse. Por isso, Anthony resolveu realizar uma curta-metragem documental intitulada Find my Phone (2016). Para tal, comprou um telemóvel novo e deixou que lho roubassem, não sem antes programar o dispositivo com todos os utensílios necessários para poder aceder à localização, armazenamento, câmara e microfone do mesmo. Como resultado, o jovem holandês virou o feitiço contra o feiticeiro e, durante vários dias, vigiou o ladrão, ao qual tirou várias fotos e sobre o qual pôde reunir uma série de informações: onde ia, com quem trocava chamadas e mensagens, o teor dessas conversas, quais os seus hábitos religiosos, a sua situação económica, que lojas frequentava, entre outros. E este homem, independentemente do seu ato criminoso, estava a ser alvo duma grosseira invasão de privacidade, pelo menos enquanto não mudou de cartão SIM e desinstalou a app plantada por Anthony no telemóvel. Se pensarmos que muitos dos dispositivos móveis que compramos trazem já um conjunto de apps padrão prontas a ser usadas, e que permitimos a muitas das apps que posteriormente instalamos aceder ao nosso dispositivo, sob pena de não as podermos usar convenientemente, quão diferentes somos deste homem que andou a ser vigiado pelo jovem Anthony? Até que ponto é que não podemos estar a ser vigiados por uma série de empresas públicas ou privadas que depois se aproveitam dos dados recolhidos para obterem vantagem competitiva num mercado voraz? Até onde vai a nossa privacidade ou a falta dela? O exemplo mais flagrante talvez seja o recente escândalo “Facebook-Cambridge Analytica” em que, segundo a BBC News, foram recolhidos os dados pessoais de pelo menos 87 milhões de usuários através da interação com certas apps. Como consequência, a empresa de análise de dados conseguiu, ou pelo menos tentou, influenciar a opinião política de milhões de eleitores em ocasiões como as eleições presidenciais norte-americanas de 2016 ou o referendo britânico conhecido como “Brexit”. Depois duma descoberta destas dimensões fica no ar o quanto ainda falta saber, o quão inseguros podemos estar no que diz respeito à invasão de privacidade e rutura dos direitos fundamentais de qualquer cidadão.

The Lives of Others

Berlim, 1984. George Dreyman, interpretado por Sebastian Koch, é um dramaturgo de sucesso. Alto, esbelto, munido duma arrogância saudável, vai alternando entre cair nas boas graças dos oficiais da Stasi, a polícia secreta alemã, e nas dos seus camaradas guionistas de teatro, com os quais vai mantendo uma relação estável de amizade, se bem que nem todos tenham a mesma sorte nessa fuga a uma das máquinas de censura mais eficazes do século XX. George vive num apartamento na zona Este da cidade onde trafica momentos de paixão com a sua parceira, Christa-Maria, uma atriz de renome interpretada por Martina Gedeck. Por cima dos dois, escondido no sotão do edifício, jaz Gerd Weisler, o oficial da Stasi interpretado por Ulrich Mühe que, equipado com as melhores tecnologias de vigilância da altura, está encarregue de espiar o casal. Não fosse a paixoneta dum dos manda-chuvas do Partido Comunista pela atriz e o dramaturgo seria mais um homem comum, preso entre muros, numa vida de medo e opressão. Mas, dado o instinto carnívoro do dito político, que usa a influência que detém junto da polícia para tentar tramar o seu oponente romântico, George é também um alvo, um ser humano sem privacidade. Com as escutas e câmaras implantadas pela Stasi em todos os vértices da casa, o seu apartamento transforma-se numa app antediluviana, num exemplar literal e metafórico tanto do Big Brother antigo – a máquina de vigilância criada pelas instituições remanescentes da Segunda Guerra Mundial – como do mais recente – as redes sociais, os motores de busca e as aplicações de telemóvel. Pois, qual é a diferença? Qual é a diferença entre o solitário Weisler de auscultadores nos ouvidos, limitado ao negrume dum sotão bolorento, em plena República Democrática Alemã, e o sistema de inteligência artificial – os chamados “bots” – que, em pleno século XXI, vasculha os dados online dos usuários em busca dum ponto fraco por onde enfiar uma campanha publicitária ou, tal como se verificou nas eleições norte-americanas, uma agenda política assente em desinformação? Ambos invadem, ambos escutam e leem sem autorização, ambos mastigam o conceito de liberdade até sobrar um bolo alimentar pútrido e irreconhecível.

The Lives of Others

Porém, The Lives of Others (2006), escrito e realizado por Florian von Donnersmarck, não se prende a nenhum dos pólos nesta viagem ao furto da privacidade. É antes um filme sobre o que é ter ou não ter livre vontade, mesmo dentro dum sistema opressivo. O passeio por essa zona cinzenta começa quando Weisler quebra a barreira de mero ouvinte e inicia uma sequência de intervenções diretas na vida do dramaturgo. Por exemplo, cria um curto-circuito que faz a campainha do apartamento tocar, só para levar George até à porta, para que este testemunhe um evento que pode mudar o decorrer dos acontecimentos. Fazendo-se a correlação metafórica com a atualidade, o oficial da Stasi pode ser equiparado à app intrusiva que, independentemente das suas intenções, começa a interferir na vida do usuário. George continua a ter livre-arbítrio, porém, as suas respostas aos estímulos fabricados pelo espião são as expectáveis. O mesmo se poderá dizer dum eleitor que, depois de ter lido dezenas de fake news, vota no candidato beneficiado pela patranha. Impõe-se a questão: será George um ser humano completamente livre e imparcial ou uma marioneta nas mãos duma força maior? No aprofundamento desta questão, acenando ao The Conversation (1974) de Francis Ford Coppola, von Donnersmarck explora a inevitável relação íntima e perversa criada entre a vítima da invasão e o invasor. Ao ter todos os seus momentos de intimidade vigiados e avaliados, o dramaturgo é reduzido ao cúmulo da impotência, sendo que essa debilidade é transladada para o intruso que, face à necessidade moral de justificar o trespasse, tem de aguardar pacientemente que algo de extraordinário aconteça, neste caso, um crime contra a República. O homem do auscultador fantasia-se então de fantasma, de robô à moda da Gestapo, preso à mesma ausência de soberania pessoal que impõe ao seu alvo. A degradação ética e moral é transposta para o cenário envolvente, sendo que tudo, à exceção do afável apartamento de George, é decorado com cores acinzentadas ou amareladas, numa referência inequívoca à falta de alegria dum sistema político repleto de contradições, duma ditadura disfarçada de democracia. E a personificação desse ambiente penoso recai sobre Weisler, uma personagem fascinante. Tal como a sociedade onde vive, o seu rosto é uma máscara, treinado para não revelar emoções, para não transparecer qualquer sinal de humanismo. O ator, que foi alvo das investidas da Stasi na vida real, interpreta o espião com uma subtileza desconcertante. Por baixo do esgar gélido e olhos praticamente imóveis, do casaco futurista que lhe dá um tom ainda mais frio, repousa um ser humano com emoções e valores, disposto a fazer escolhas e sacrifícios. Enquanto a maioria dos filmes oferecer-nos-ia algum tipo de narração para os seus sentimentos contraditórios, aqui, estamos apenas sujeitos àquele rosto impenetrável, impassível, o que dá aso à evidenciação duma das melhores características que uma obra cinematográfica pode ter: as ações das personagens falarem por si.

The Lives of Others

O muro de Berlim viria a cair em 1989, dando como terminado este regime onde a privacidade era nada mais que uma moeda de troca entre cidadãos apavorados e um sistema político prepotente, capaz de aplicar a mais dura das penas ao mais inocente dos cidadãos. “Se o prisioneiro acredita que o Estado é capaz de o deter por nenhuma razão, essa crença é já por si motivo para a sua prisão”, pode ouvir-se num dos diálogos entre membros da Stasi, num paradoxo nada mais que orwelliano. The Lives of Others é, hoje em dia, um filme extremamente relevante devido à forma quase fortuita como demonstra que, por mais gritos de revolta que surjam, como, por exemplo, a queda do muro de Berlim, as sociedades modernas terão sempre tendência a derivar na direção da opressão, geralmente por via da tecnologia e da necessidade de controlo por parte dos governos. Enquanto a República Democrática Alemã monitorizava e molestava os seus cidadãos graças às mais variadas evoluções no campo da vigilância, os sistemas políticos atuais, assim como os grandes conglomerados económicos, têm assegurado a sua supremacia graças a uma nova e muito mais discreta forma de controlo: a Internet e o uso crédulo e inocente que os cidadãos fazem desta. Exemplo-mor é, porventura, a recém-criada tecnologia do governo chinês que permite, face ao registo diário das interações dos cidadãos, seja através de apps ou câmaras de filmar privadas ou públicas, dar-lhes notas que definem o seu estatuto social. O sistema avalia, com uma pontuação que vai de 350 a 950 pontos, não só o histórico financeiro dos indivíduos, mas também padrões de consumo, educação e até mesmo conexões sociais. Segundo uma investigação da Wired, caso seja registado mau comportamento, ao cidadão em questão podem ser aplicadas uma série de condicionantes e proibições, desde não poder usufruir dos transportes públicos até ter custos acrescidos nos variadíssimos serviços. Curiosamente, um sistema social semelhante é descrito sob a forma duma sátira distópica no primeiro episódio da terceira temporada da série Black Mirror. A aplicacão, desenvolvida por empresas gigantes como a  China Rapid Finance, parceira da Tencent na app WeChat, com 850 milhões de utilizadores, e a Ant Financial Services, uma afiliada da Alibaba e a maior empresa de serviços financeiros online da China, já sugere formas de aumentar a pontuação, divulgando as desvantagens de ser amigo de alguém com uma performance baixa. Já há inclusivamente pessoas a denunciar amigos e membros da família para subir na escala social, situação que era comum durante o reinado da Stasi, já que vários cidadãos eram informadores da polícia secreta e, com medo de represálias, acabavam por denunciar pessoas chegadas. Como tal, pondo o filme de von Donnersmarck à mercê da lupa atual, poderemos concluir que a sociedade tecnológica global, com a China à cabeça, está a caminhar lentamente numa direção não muito diferente da adotada por vários sistemas políticos há algumas décadas atrás. Os meios apenas ficaram mais sofisticados.

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