The Dark Knight

‘The Dark Knight’, o bom, o mau e o vilão

Este artigo contém spoilers.

“Porque caímos, Bruce?” é talvez uma das frases mais marcantes da trilogia que acompanha as lides do multimilionário Bruce Wayne, criada por Christopher Nolan, o seu irmão Jonathan Nolan, cujo talento se pavoneia agora pela série Westworld, e o guionista David S. Goyer, inspirados na banda desenhada de Bob Kane. Esta pequena frase proferida pela primeira vez em Batman Begins pelo pai de Bruce, apesar da sua pouca extravagância, deu o mote para o tom refletivo duma tríade de filmes que viriam a fugir a passo confiante da grande maioria dos filmes relacionados com super-heróis. Uma pequena frase, proferida depois duma visita aos meandros duma caverna escura onde, por infortúnio, uma criança foi parar e onde descobriu o mais rudimentar dos seus medos: o morcego. Uma criança que, para se tornar nessa tão agreste aparição para os criminosos da cidade de Gotham, teria primeiro de dominar os seus próprios medos, transformar-se metafisicamente nestes, devorá-los de forma a poder crescer como indivíduo e como alimentador do seu alter ego: o Batman. Como tal, Batman Begins não é somente um filme sobre as origens dum super-herói, é um filme sobre conquistar o medo, sobre o amadurecer dum inadaptado, sobre cair e levantar, da criança assustada ao herói destemido. O realizador e os seus parceiros geravam assim, em 2005, uma estirpe diferente do típico filme de super-heróis, mundo que se achava em testes preliminares, ainda longe dos universos estendidos e partilhados e massificados que hoje em dia inundam o grande ecrã. Melhorar era difícil, ora não tivesse esta já sido uma modesta fuga aos pré-requisitos instaurados quase à força pelos blockbusters da altura cuja regra ainda hoje se mantém. Porém, em 2008, o realizador anglo-americano lançou o seu primogénito para o caos, para uma abordagem niilista repleta de dilemas até aí impensáveis num filme do género, para um mundo onde as personagens que o habitam engordam à custa de dúvidas e receios, de escolhas quase impossíveis. Christopher Nolan, e que não se esconda aqui a enorme mão do seu irmão neste processo, criou The Dark Knight.

The Dark Knight

Fundada a figura do justiceiro encapuçado como símbolo da luta contra os criminosos da cidade de Gotham, o cineasta anglo-americano começa nesta sequela a explorar, desde cedo, os malefícios da existência dum vigilante, dum indivíduo que se move à margem da lei, mesmo que as suas ações sejam da mais pura intenção. Afinal, qual é a linha que separa o “vigilantismo” da violência gratuita? Apesar de toda a sua influência financeira e estrutural, a única maneira que Bruce Wayne, interpretado por Christian Bale, tem de mudar a cidade é recorrendo à força bruta e à intimidação, iludido pela eticidade que impôs a si próprio: não matarei. As suas atividades, uma das primeiras cenas de ação assim o denuncia, dão origem a vários imitadores, cidadãos que, tal como ele, apenas querem praticar o bem, mas acabam por gerar desordem social. “Eu não uso coquilha”, refere o Batman, depois de inutilizar um desses plagiadores baratos, num breve e contido momento de comédia. Porém, apesar do gracejo, é evidente o desenho introdutório dum protagonista problemático, um que, ao executar a sua função de herói da narrativa, está ao mesmo tempo a envenenar o cenário onde está inserido. Impõem-se a pergunta: será a existência do Batman mais prejudicial que benéfica? Corajosamente, pois a maioria dos realizadores não ousaria tal artimanha, o herói da história é posto em cheque. O espetador tem hipótese de duvidar do Batman, abrindo-se espaço para a exploração de alternativas viáveis. Abre-se espaço para o aparecimento de Harvey Dent, interpretado por Aaron Eckhart, e para uma reformulação da interrogação inicial: deve o Batman existir ou ser substituído por uma reestruturação do sistema judicial da cidade de Gotham? The Dark Knight apela a questões reais que muitas vezes, quase sem nos apercebermos, se fazem sentir no panorama político e social internacional. Curiosamente, não fosse Gotham uma versão distorcida e exagerada da metrópole norte-americana, é precisamente em solo americano que reina, há vários anos, uma acesa discussão acerca da legalização do porte de arma, uma norma facilitadora da ocorrência de casos de ‘justiça pelas próprias mãos’’. Tal como no filme, existe uma dúvida, cada vez mais premente, sobre se devem os cidadãos ter a capacidade logística de exercer autojustiça, para não falar de terrorismo doméstico, ou se deve o sistema legal mudar radicalmente de forma a estabelecer outro tipo de organização ideológica.

The Dark Knight

Na senda da dualidade instaurada desde o princípio do filme, Harvey Dent surge como uma alternativa aparentemente perfeita ao Batman. O district attorney é apresentado, como viria a descrever ironicamente o vilão Bane (Tom Hardy), como um “brilhante exemplo da justiça”. A retidão é a sua imagem de marca, sendo-lhe atribuída, discretamente, uma conotação simbólica associada à figura de Jesus Cristo através do slogan “I believe in Harvey Dent”, só para mais tarde essa alegoria vir a ser distorcida, à medida que este se transforma na peça mais perversa da narrativa. Então, e para adensar o dilema existencial, é feita uma justaposição entre a personagem de Bale e a personagem de Eckhart. Ambos têm o mesmo objetivo, limpar a cidade, ambos amam a mesma mulher, Rachel Dawes (Maggie Gyllenhaal), e ambos partilham o gosto pela teatralidade: Bruce veste uma máscara enquanto Dent insiste em fazer de conta que toma as suas decisões atirando uma moeda ao ar. Ambos lutam pela ordem, ambos guerreiam contra o caos. Harvey Dent é, apesar de desvalorizado, um dos anti-heróis mais bem escritos de sempre, pois todo o seu desenvolvimento como personagem secundária adere a um sistema de adensamento das dúvidas da personagem principal. E é nesse jogo de paralelismos, criado estrategicamente para mergulhar o espetador no drama existencial do protagonista Bruce Wayne, que se intromete o elemento perversor, o catalisador da anarquia, o Joker, interpretado por Heath Ledger.

The Dark Knight

“Tu completas-me”, diz o Joker entre risos e esgares de maníaco, enquanto Ledger leva a cabo uma das melhores atuações da história do cinema. A cena em que o Batman interroga o Joker numa esquadra, para além do jogo de câmara competente, é um dos marcos de The Dark Knight, não só por exacerbar a mestria dos dois atores em cena, mas também por expor o quão poderoso é o vilão. Até aí, o seu comportamento poderia caracterizar-se como algo errático, não estivesse este de algemas nos pulsos, preso numa esquadra. No entanto, essa perceção muda drasticamente quando percebemos que este tem um plano maior, um fio condutor astuto e macro-social. “Tu não tens nada! Nada com que me ameaçar”, prossegue, relembrando ao Batman a impotência da sua fisicalidade perante alguém que simplesmente não reconhece autoridade na brutalidade, alguém que simplesmente não acredita em nada e muito menos teme a morte. O vilão foi desenhado à partida para desafiar constantemente os dois principais pontos fracos do protagonista: a dependência de exercer força física para levar a sua avante e o seu código moral e ético no qual insere, como o próprio refere, uma única regra – não matar. Numa cena anterior ao interrogatório, quando finalmente entra em confronto direto com o Batman, Joker coloca-se no meio da estrada, enquanto o herói se dirige a ele a alta velocidade. “Acerta-me!”, grita o vilão, sujeitando-se a um choque frontal provavelmente mortal, sem se mover um único centímetro, conforme o Batman, confrontado com a sua própria ética, se desvia e despenha contra um camião. Assim, nestas duas cenas em particular, como na maioria das cenas em que participa, o Joker cumpre a sua maior função como vilão da narrativa: atacar a retórica e as fraquezas do herói. Todavia, o objetivo dos irmãos Nolan para esta personagem era bem mais grandiloquente do que o simples espevitar do tradicional desenho kantiano, em que, segundo o filósofo Immanuel Kant, um deve classificar a bondade duma ação de acordo com o seu intento e não de acordo com o seu resultado – Bruce Wayne tem boas intenções, mas nem sempre as suas escolhas são as mais acertadas. Depois de pôr a nu as fragilidades do Batman, o Joker obriga o herói a revelar o seu verdadeiro “eu”, a expor os seus limites, aquilo que não está disposto a sacrificar, neste caso, a mulher da sua vida, Rachel. Para isso, foi criada uma situação insuportável em que o protagonista é obrigado a escolher entre salvar Harvey Dent ou salvar a sua amada, com a qual vinha a desenhar um futuro ilusório longe da luta contra o crime. Escolher entre o futuro da sua cidade e o futuro da sua vida pessoal, entre o total altruísmo e o amor-próprio. Mesmo que acabe por ir ao engano, Bruce escolhe salvar Rachel, revelando não só o seu limite psicológico, como também a sua hipocrisia, pois, caso escolhesse salvar Dent, estaria a abrir definitivamente as portas para o fim da sua vida de justiceiro. Sem lhe tirar a máscara, Joker desmascara o Batman, oferece ao espetador um herói condicionado pela sua possível vaidade e pelas suas motivações pessoais – afinal, existe algo mais importante do que salvar Gotham. E será que Bruce fazia realmente intenções de largar a máscara caso as condições legais e estruturais se reunissem? A resposta a essa pergunta nunca viria a surgir, pois Rachel morre e Harvey, revoltado com o sucedido, acaba por se tornar o oposto da luminescência que pregava, um vilão sem escrúpulos que baseia as suas decisões no acaso. Se o filme acabasse nesse preciso momento, a missão da personagem Joker como antagonista estaria mais que ultrapassada. Porém, e é nesta superação que se perfaz aquele que é provavelmente o melhor vilão da história do cinema, Nolan usa-o para abrir uma conversa com a audiência, para desafiar a lógica e a ética da cidade de Gotham, abrindo, em paralelo, uma linha de comunicação com o espetador: “o que farias tu nesta situação?”. Ao longo do filme, a personagem de Ledger força a população de Gotham a ser incivilizada, a, inclusivamente, praticar atos de violência baseados no medo. O apogeu dessa tentativa de coação psicológica dá-se quando este armadilha dois barcos, um ocupado por reclusos condenados e o outro por cidadãos normais, e diz a ambas as tripulações que, para o seu barco não explodir, terão de fazer explodir o outro barco, pressionando um detonador. Quase dez anos mais tarde, as encruzilhadas criadas pelo Joker são mais atuais do que nunca, visto assemelharem-se bastante aos repetidos casos de terrorismo que assolam os países desenvolvidos e que, indiretamente, forçam os cidadãos a repensar a sua atitude em relação a pessoas de etnias ou ideologias diferentes, problema que se adensa, tendo em conta o fluxo elevado de refugiados às portas desses mesmo países. O medo de que vários terroristas venham infiltrados no meio dessas pessoas inocentes, facto que nunca foi comprovado, é notório e uma realidade preocupante que levou a que, tal como na população de Gotham, muitos se sintam em perigo e, porventura, tomem atitudes questionáveis. O “dilema do barco” é o mesmo que os cidadãos europeus enfrentam neste momento: para proteger o maior número de pessoas, para proteger um bem maior, devemos aceitar que uma minoria seja maltratada? Conseguiremos viver num mundo onde, para nos protegermos do perigo, permitimos a morte de outrem? Disfarçado de filme de super-heróis, The Dark Knight transforma-se, graças ao Joker, num filme extremamente filosófico, repleto de questões sociológicas complexas e relevantes.

The Dark Knight

E é através da colocação constante de questões prementes para o protagonista e para o espetador que o filme se avulta como um golpe fatal nos restantes filmes do género e blockbusters em geral. Enquanto na maioria desses filmes os heróis parecem invencíveis e invulneráveis, mesmo que algo de mal efetivamente lhes aconteça, em The Dark Knight, Bruce Wayne é construído à base de vulnerabilidade e incerteza. Apesar do realizador Christopher Nolan não ter propriamente queda para recriar cenas comoventes, é possível ao espetador pôr-se na pele do herói, percecionar as suas dúvidas e medos. Ao contrário dos irmãos Nolan, os restantes guionistas e cineastas têm optado pelo uso do humor para despertar este tipo de sentimentos no espetador, abordagem que tem ajudado à venda de bilhetes, mas retirado ao género substância e relevância social, salvo algumas exceções como Watchmen (2009), X-Men: Days of Future Past (2014) ou Logan (2017). Em vez disso, os irmãos apostaram num filme negro e apartidário – existe até quem considere o Joker o verdadeiro herói da história. Para mais, a injeção de realismo, quer a nível das capacidades das personagens, quer a nível do cenário, oferece ao filme de Nolan, conhecido por renegar os efeitos especiais computorizados sempre que possível, um sabor a coerência. Exemplo maior dessa questão é o facto de tudo o que acontece no filme ser, na prática, possível a nível logístico, apesar das óbvias empolações como um sistema sonar que consegue ver e ouvir Gotham inteira. Porém, a maior e derradeira pisadela que The Dark Knight dá nos seus pares prende-se com o conceito de “espetáculo”. Enquanto na maioria dos filmes do género a narrativa pára, ou seja, a história deixa de avançar para assistirmos ao “espetáculo”, como uma grande luta ou um qualquer apocalipse banhado a efeitos especiais, no filme de Nolan, a narrativa interliga-se com o “espetáculo”, ou seja, a história avança mesmo nas cenas de pura ação: existe sempre uma progressão física – cenas de ação – e psicológica – questões filosóficas e existenciais – da história que está a ser contada. Por isso, num género onde é tão difícil criar uma ligação íntima com o espetador, tendo em conta os elementos fantásticos ou irrealistas, o cineasta anglo-americano criou empatia através duma dinâmica oleada em que, para além de recusar o “espetáculo” gratuito, dá tempo ao espetador para assimilar as implicâncias de tudo o que vai acontecendo, como por exemplo, uma cena em que Batman reflete sobre os destroços da explosão que tirou a vida a Rachel. Ademais, e esta talvez seja a cereja no topo do bolo, é executada uma deturpação da alegoria religiosa montada à volta do suposto salvador Harvey Dent e dos conceitos de vitória e derrota. O advogado, de semblante danificado após a fatídica explosão, o que dá a sensação de este ter duas caras, torna-se a personagem mais vil da história e, também, a personificação do caos que o Joker idealizava para Gotham. Apesar de ter sido capturado, o Joker acaba por ganhar o duelo com o Batman ao corromper Harvey Dent e ao obrigar, dadas as circunstâncias, o herói a matá-lo. No fim, o Batman quebrou todos os valores morais e éticos que impôs a si próprio desde o início. Abraça assim a figura alegórica de Jesus Cristo, inicialmente associada ao district attorney, ao adotar a única medida que lhe resta na derradeira missão de amenizar os estragos causados pelo Joker: assumir os crimes de Harvey Dent e deixar que a cidade preserve a memória deste como um símbolo da justiça e da reestruturação judicial, como um ídolo que se sacrificou por um ideal, quando, na verdade, é o Batman o sacrificado. Assiste-se, portanto, a uma total distorção do enredo apresentado inicialmente, tal como a uma subversão das expetativas do género: o vilão pode ser considerado o vencedor do duelo, a simbologia religiosa, muito comum nos filmes de super-heróis, é completamente invertida e o herói, apesar do seu último ato altruísta, sai derrotado e com todas as suas fraquezas devidamente expostas. Em suma, The Dark Knight é um dos melhores filmes de sempre não só pelas cenas realistas carregadas de efeitos práticos, pelo seu conteúdo rico em questões morais e filosóficas  e por apresentar um dos melhores vilões de sempre, como também por sujeitar todas as suas personagens a eventos invulgares que as forçam a mostrar a sua verdadeira natureza. Uma sombra negra e ubíqua que, desde 2008, incandesce o cinema de entretenimento, um porto seguro onde atracar caso as forças faltem para assistir a mais do mesmo, um herói soturno, um cavaleiro negro que só saudades traz, mesmo que já repetidas vezes o tenhamos visitado.

Partilhar