The Alienist

‘The Alienist’, nas sombras da opulência

O progresso da civilização tem permitido conquistar importantes troféus para os seres humanos, de que são exemplos claros o fogo, que permitiu domar a temperatura, a roda, que facilitou a mobilidade, a máquina a vapor, que rentabilizou o esforço bruto e, até mesmo, toda a vasta gama de tecnologias, mais ou menos avançadas, que eliminaram distâncias, de outra forma, difíceis de debelar. Contudo, existem ainda objetos sagrados que, colocados num pedestal inalcançável, constituem um verdadeiro tabu deificado para a maioria. Um dos quais é esse tesouro alado protegido pela carcaça terrena e que é exalado aquando do último suspiro, também conhecido como alma ou mente humana. Tão difícil de definir como de entender, desde milenar idade, muitos foram aqueles que, curiosos pelos seus mistérios, se aventuraram a escalpelizar todos os recantos que, quais peças de um puzzle intrincado, compõem a essência do nosso ser. Se, atualmente, tais iluminados são apelidados de psiquiatras e psicólogos, em séculos passados, dada a ignorância face a esta incógnita interior, a denominação era outra: alienista, ou seja, aquele que procura, de acordo com as leis conferidas pela ciência, controlar os alienados do espírito, os perdidos da razão e os ignorantes das normas da sociedade. Todavia, esta tentativa de integração era mais fogo de vista que uma verdadeira preocupação em relação a tais pessoas, pois os auto-intitulados civilizados, hipnotizados pela aura de misticismo e pejados de preconceitos, mantinham uma compreensão de limites muito ténues, cambiáveis de caso para caso.

The Alienist

No final do século XIX, em plena Nova Iorque, uma cidade cosmopolita onde os brandos costumes prosperam e se imiscuem no meio da riqueza da evolução e da pobreza de espírito, os monstros que habitam os piores pesadelos são libertados no mundo real e crianças, do sexo masculino, começam a ser encontradas mortas em locais inóspitos. Se o infanticídio já poderia incendiar o sentimento de raiva, este é ainda atiçado pelas condições que medeiam tais atrocidades – os corpos estão ornamentados com roupas femininas, os olhos removidos das órbitas, os braços adivinham-se apenas entre vergões e rasgões, e as vísceras estão expostas devido a um minucioso corte abdominal executado com precisão sobre-humana. Com a intenção de gravar os mais pequenos pormenores para facilitar a posterior investigação, o corpo policial chama John Moore (Luke Evans), um ilustrador de renome, para executar os retratos destas macabras cenas. Mas nada na sua atribulada vida o preparou para esta tarefa e, curioso por perceber as razões por trás dos crimes, pede auxílio ao conhecido Dr. Lazlo Kreizler (Daniel Brühl), o alienista mais reconhecido da época, com um currículo invejável no domínio das mentes perturbadas através de uma metodologia que se queria científica. Apesar deste ato benevolente não ser visto com bons olhos pelas forças policiais, o comissário da polícia Teddy Roosevelt (Brian Geraghty) – esse mesmo que, anos mais tarde, se viria a tornar o presidente dos E.U.A. -, à revelia dos seus subordinados, tenta auxiliar o duo, fornecendo os serviços de dois sargentos judeus, jovens, mas perspicazes, e de Sara Howard (Dakota Fanning), a primeira mulher a desempenhar um cargo, ainda que de secretária, nas forças policiais. Fruto da união de esforços, cedo conseguem dar nós às pontas soltas que vão descobrindo, deparando-se com um aspecto comum a todos os crimes: todos os rapazes assassinados pertenciam ao submundo da prostituição. E, quando, nas sombras da opulência, se começa a remexer na areia seca, o mais frequente é a poeira incomodar alguém e, nesta série, isso não é exceção. À medida que novas pistas vão revelando novas informações, a improvável equipa apercebe-se que está a interferir nos planos levados a cabo por sargentos corruptos e engendrados pelas altas patentes da sociedade. Neste clima de cortante tensão, até os heróis são forçados a enfrentar alguns dos seus demónios, numa batalha contra a própria alienação.

The Alienist

Adaptada da obra homónima de Caleb Carr, livro repleto de boas ideias ao longo das suas 500 páginas, The Alienist, produzida por Cary Fukunaga, reveste-se de um estilo de crónica dos bons costumes para escavar até às negras profundezas do ser humano. Contudo, qualquer expedição espeleológica necessita de ser bem programada, com pilhas de reserva para a lanterna, e parece ser neste aspecto que a série falha. A investigação é conduzida tendo em conta determinada linha de pensamento ao longo de vários episódios para, depois, numa reviravolta irrefletida, fazer o espectador duvidar das certezas que tinha tomado como adquiridas, sem grande contextualização nem credibilidade para os factos relatados. Para agravar este abandono no escuro, são apresentados temas fraturantes da humanidade, como a revolta da mulher contra a misoginia ou a luta contra a violência e os maus tratos infantis, tão atuais dantes como agora. Porém, a integração destes no enredo principal perde-se, surgindo mais como ponte entre diferentes cenas, quando poderiam ser melhor aproveitados e apresentados. No entanto, existem também pontos de mérito, como o realismo obtido nas cenas do crime onde, sem aviso prévio, a sensibilidade de quem assiste é posta à prova pelo grafismo nu e cru dos corpos mutilados, chocante, mas, ao mesmo tempo, sedutor para o voyeur secreto. A faceta artística é também um ponto extra, exemplificada pelo guarda-roupa que retrata aprimoradamente a época em causa, abrilhantada pela exímia cenografia que emoldura elegantemente os vários retratos feitos das grandes cidades, que, pela sua dimensão, abarcavam o bom dos fait-divers perfumados e o mau dos prostíbulos nauseabundos. De notar também a excelente introdução da série que conjuga uma banda sonora certeira com um conjunto de imagens da cidade de Nova Iorque a desconstruir-se, tal qual como é pretensa do alienista reunir todos os devaneios do seu doente, para, no fim, conseguir pintar o retrato mais realista possível. Lembrando um Sherlock Holmes do corpo e da mente, The Alienist é, portanto, uma série sobre crimes hediondos, com um toque gótico especial, que pode impactar alguns dos curiosos.

Partilhar