Solo

‘Solo: A Star Wars Story’, dependente da adrenalina e nostalgia

A Disney é, nos dias que correm, o maior exemplo da maneira como os grandes conglomerados económicos destinados ao entretenimento subjugam a criatividade, preterindo-a a favor de resultados financeiros estratosféricos – uma autêntica máquina de fazer dinheiro. Para tal, pegam nos franchises mais amados, como é o caso da saga Star Wars, que nos anos 80 revolucionou a indústria cinematográfica, e espremem essas narrativas até ao tutano, tentando dar-lhes, pelo caminho, novos sabores e temas alegóricos que estimulem continuamente a sede nostálgica e a curiosidade dos espectadores, enquanto tentam atrair as novas gerações para as salas de cinema. Quem melhor dourou a pílula até agora foi a Marvel, que conseguiu perpetuar uma sensação de originalidade, uma fachada de relevância social baseada em metáforas mal amanhadas para o estado do mundo. E, se o cinéfilo mais astuto reclamar muito, lá surgirá a tal resposta: o Cinema mudou, get used to it. Como tal, desta vez, a Disney aceitou dar um travo western ao filme sobre a juventude de Han Solo, que é, sem grande exagero, uma das personagens mais icónicas da cultura popular, mesmo que, efetivamente, lhe faltasse um background decente, lacuna agora suprimida. Mas de western o filme acaba por ter pouco. Ao contrário de obras recentes como, por exemplo, Django Unchained (2012) de Quentin Tarantino ou War for the Planet of the Apes (2017) de Matt Reeves, que se banharam em referências visuais e auditivas ao género para aprofundar a psicose das suas personagens, Solo: A Star Wars Story faz uso dessa linha duma forma despachada, na tentativa fútil de apresentar algo que arregale os olhos e traga o tal flavour distinto – para variar um pouco da remessa algo gótica de The Last Jedi (2017) -, numa missão mais virada para a eficácia do que para o estilo e substância. Django e Cesar, ou até o Wolverine de Logan (2017), são personagens numa demanda, rodeadas por uma encenação requintada e inteligente, cercadas por notas alegóricas de cariz histórico e social. Por outras palavras, protagonizam filmes com tomates. Ninguém irá esquecer o ex-escravo aspirante a caçador de recompensas a iniciar um duelo com um grupo de esclavagistas, os mesmos demónios que chicoteavam a sua esposa até à podridão da pele, ou os primatas de espingarda às costas a cavalgar por planícies ao som duma harmónica, ao encontro dum campo de concentração repleto de espelhos para a histórica atrocidade do Homem, ou os dois mutantes velhos e cansados, perdidos na autocomiseração, em busca dum derradeiro propósito, uma última e nobre demanda. Como tal, ao lado destas adaptações recentes do género western para fins de entretenimento das massas, com o uso da parábola para crítica histórica ou social – neo-western, como gostamos de lhe chamar hoje em dia -, Solo: A Star Wars Story é, permita-se a dureza da expressão, uma brincadeira de crianças, uma tentativa da Disney de afirmar que fizeram algo original, como se Woody Harrelson a rodar uma pistola ou um assalto a uma locomotiva numa região montanhosa, entre outras referências, chegassem para afirmar que se fez um western espacial. O resultado, com muita pena, é uma enorme oportunidade desperdiçada de criar aquela que seria, provavelmente, o filme Star Wars mais peculiar de sempre.

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Realizado por Ron Howard, que substituiu Phil Lord e Christopher Miller a meio da produção, e escrito por Lawrence Kasdan, o guionista dos episódios V e VI da saga Skywalker e de filmes como Raiders of the Lost Ark (1981) ou vários westerns de sucesso moderado dos anos 90, Solo: A Star Wars Story aborda as origens humildes dum jovem Han Solo, interpretado por Alden Ehrenreich, desde a sua fuga do planeta industrial Corellia, onde vivia com a sua namorada Qi’ra, interpretada por Emilia Clarke, até ao início da sua vida como contrabandista, o tal que conhecemos numa cantina em A New Hope (1977), junto de figuras como Chewbacca, interpretado por Joonas Suotamo, e Lando Calrissian, interpretado pelo talentoso Donald Glover. Desde o princípio, é possível notar o uso dum filtro escuro e amarelado, artifício que é sem dúvida interessante, não só por exorbitar a sujidade das ruelas mais manhosas da Galáxia, mas também por oferecer ao filme uma certa frescura a nível visual, visto que destoa dos seus congéneres recentes que, sem exceção, usaram o mesmo tipo de filmagem e edição. E é precisamente na ilustração da sujidade, da devassidão, que a obra se destaca, trazendo de volta um certo espírito de podridão moral, da corrupção física e psicológica tão reconhecível dos primeiros filmes da saga. “You will never find a more wretched hive of scum and villany”, como disse Alec Guinness, na pele de Obi-Wan Kenobi. E, apesar de, nesse aspeto, não se equiparar à criação original de George Lucas, o filme realizado por Howard consegue, em alguns momentos, trazer à memória esses cenários fétidos, empestados de ladrões e assassinos. Pena que todas as cenas sejam de corte rápido e apressado, somente focadas nos protagonistas e nos seus diálogos demasiado sugestivos. Não são raras as conversas em que as personagens se precipitam a desmontar todas as incógnitas e destinos, como se tudo tivesse de ser explicado e demonstrado, não fossem os fãs, que já levam horas e horas de exploração da Galáxia, não perceber o enredo. De certa forma, os últimos filmes da saga, principalmente The Last Jedi, têm pecado imenso pelos argumentos demasiado simplistas, a roçar o atestado de incompetência à audiência. Como tal, a arte da sugestão, do suspense e mistério, mais uma vez, parece não abundar, optando-se antes por uma abordagem atulhada de palavras, porém escassa em significados – muitas sílabas, pouco sumo -, o que, neste caso, em nada ajudou um filme que, já por si, tinha de justificar a sua existência algo forçada. Por exemplo, ficamos a perceber como e quando Han Solo fez o tão badalado Percurso de Kassel em menos de 12 parsecs, numa cena de perseguição espacial vertiginosa, repleta de efeitos especiais e emoções baratas, já que todos sabemos que o herói não vai morrer. Contudo, antes, durante e depois desse célebre evento, são várias as alusões verbais ao mesmo assunto, num arremesso inacabável de nostalgia e fan service que acaba por se tornar ligeiramente exaustivo, pois essa bandeja, em vez de servida com contenção e subtileza, é atirada para o meio dum salão por onde já muitas vezes passeámos, ora não tivesse acontecido mais ou menos o mesmo nos filmes desta nova vaga millennial, que, para bem ou para mal, ainda nem a meio vai, conforme se planeiam abordagens semelhantes ao passado de personagens como Darth Vader, Boba Fett e Obi-Wan Kenobi, assim como um conjunto de histórias habitadas por personagens novas.

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Porém, esta nova entrada no cânone é salva por um ritmo extremamente fluído e pela interpretação convincente dos atores que, face ao material limitado, têm um desempenho notável. Não obstante as imprecisões já mencionadas, à imagem da Millennium Falcon, o filme voa a uma velocidade agressiva, compensando as partes menos eloquentes com um amontoado de cenas de ação frenéticas e atrativas, com destaque para um assalto a um comboio dos melhores que se viu nos últimos tempos dentro dessa categoria. Ademais, o projeto ganhou bastante com a inclusão de atores experientes e irremediavelmente magnéticos como Woody Harrelson e Paul Bettany. O primeiro no papel dum ladrão profissional e, de certa forma, mentor de Han Solo, e o segundo como chefe dum sindicato do crime contra o qual os heróis acabam por esbarrar. Quanto a Ehrenreich, em vez de nos preocuparmos tanto com o facto deste conseguir ou não replicar os maneirismos da personagem original encarnada por Harrison Ford, o que há a fazer é avaliar se o ator, que certamente esteve sujeito a muita pressão, conseguiu contribuir para o retrato dum jovem que está a tentar descobrir o seu caminho por uma Galáxia apinhada de obstáculos. E, adotando esse tipo de interpelação, é seguro afirmar que o ator faz um trabalho eficiente, apesar de parecer muito inseguro no primeiro ato, talvez por, tal como o relatório de produção indica, terem sido estas as primeiras cenas a serem filmadas. Quanto à vertente técnica, este é talvez o Star Wars que mais clamorosamente desperdiça o enorme ajuntamento de talento e experiência nas suas fileiras. Começando pelo cinematógrafo Bradford Young que, recentemente, filmou Arrival (2016) de Denis Villeneuve, passando pelo compositor John Powell, cuja banda sonora, apesar de competente e adequada, parece dessincronizada com a ação, e o editor Pietro Scalia, que já leva quatro nomeações para os Óscares – dois ganhos – por filmes como Gladiator (2000) ou Black Hawk Down (2001), todos estes nomes de relevo parecem perdidos nas engrenagens duma máquina empresarial sedenta por banalização, pois o normal dá mais dinheiro que o anormal – por alguma razão Blade Runner 2049 (2017) deu prejuízo. Para os que estão habituados a ver cinema de qualidade, talvez seja mais percetível o ajuste que estes artistas tiveram de fazer às necessidades do estúdio. No que toca à fotografia, para quem conhece a sua obra e abordagem formal, existem momentos em que é gritante a contenção de Bradford Young, num somar de cenas que poderiam ser muito mais marcantes, caso houvesse licença para ser criativo. O maior exemplo é talvez uma cena onde é encenado uma espécie de duelo, um showdown à moda dos westerns de Sergio Leone e Clint Eastwood, que acaba por se transformar num gigantesco anticlímax, não por falta de competência do realizador e companhia, mas por uma irritante necessidade de despachar o momento, não fosse a cabeça do moviegoer ocasional explodir, caso se introduzisse o devido suspense demorado, típico dos westerns antigos. Como tal, não havendo o devido esmero no que toca ao estilo e substância, estando a obra demasiado dependente da adrenalina e da nostalgia, Solo: A Star Wars Story transforma-se num filme de origens pobre, já que o crescimento psicológico da sua personagem-tese é atirado para um plano secundário. Do muito que aprendemos sobre as aventuras e objetos que se materializaram no passado de Han Solo, pouco ficamos a saber sobre o que este pensa ou sente – não existe um fio condutor emocional firme. Para mais, este é talvez o filme que melhor ilustra as perguntas que começam a abundar à saída das salas de cinema na mente dos cinéfilos que, logicamente, apesar de exigentes e com tendência para projetos mais artísticos, numa queda quase inevitável para o cinema independente, também são fãs dos filmes relativos à, perdoe-se a expressão, “zona nerd”: porque é que os blockbusters não podem ser melhores? Porque é que os blockbusters não podem ser filmes criativos e arrojados? Porque é que não podemos ter mais filmes como Blade Runner 2049 ou Mad Max: Fury Road (2015)? Porque é que, quando podíamos ter uma abismal surpresa com este filme sobre Han Solo, um potencial neo-western de primeira classe, com o elemento “aventura no Espaço” como variante, temos mais um corriqueiro sucesso de bilheteira – se é que o vai ser – facilmente esquecível e desmontável? Porque é que continuamos a caminhar para o cinema para ver este tipo de filmes, quando a probabilidade de sairmos desiludidos é cada vez mais elevada? E, num ápice, se a Disney assim continuar, pode ser que a resposta a estas perguntas lhe comece a sair cara.

Razoável

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