‘Sharp Objects’, uma obra de arte compassada e meticulosa

Camille, uma jornalista interpretada por Amy Adams, está de regresso a Wind Gap, uma pequena cidade fictícia localizada no Missouri, onde cresceu, sofreu, e de onde fugiu assim que a idade e as circunstâncias o permitiram. A paisagem, pouco alterada com a passagem do tempo, uma pedra teimosa que se recusa a sofrer os efeitos da erosão, é-lhe familiar, é-lhe dolorosa, uma cicatriz mental que não sarou nas devidas condições. Inundada por vodka barata, mistura que camufla numa discreta garrafa de água, a mulher de esgar cansado vagueia pelas ruas praticamente desertas ao sabor do rock n’roll que lhe apraz e das memórias que vão enchendo o ecrã, num rodízio de emoções inexplicáveis, fraturadas, futuramente conectadas conforme o guião, maioritariamente escrito por Marti Noxon, o criador da minissérie, e Gillian Flynn, a autora do livro original, se vai unificando à volta dum complexo objeto de estudo: os seus traumas. A repórter vem em busca da peça jornalística duma vida, da fábula vilanesca encabeçada por duas raparigas desaparecidas no espaço dum ano, uma delas já encontrada morta no meio da floresta. Para tal, Camille tem de enfrentar o seu passado, ou pior, as sobras dum cozinhado já trincado e deitado fora tal era a podridão, uma família disfuncional comandada pela pessoa mais importante e rica da região, a sua mãe Adora, interpretada por Patricia Clarkson. Este confronto dá-se maioritariamente numa casa assombrada não por espíritos, ou por monstros feios e demoníacos, mas pelas anamneses duma adolescência marcada por abusos psicológicos, quem sabe físicos, e pela morte trágica duma irmã mais nova, a modos que substituída por um novo rebento, uma semente caída da mesma árvore tóxica, uma adolescente, de nome Amma, interpretada por Eliza Scanlen. Mas que lar é este senão um poço de mágoa e ressentimento? Pelos corredores da mansão sulista, a fazer lembrar as casas dos esclavagistas tão abordadas pelo cinema de época, o trio de felinas desenvolve uma pobre simulação daquilo que poderia ser uma família em reaproximação, não fosse a predileção de Adora por culpar Camille de todos os problemas que vão surgindo no processo – “Look what you’ve done, Camille”, por mais banal que seja a sua formação léxica, será, seguramente, uma das falas mais penetrantes e recordáveis dos últimos anos no que ao panorama televisivo diz respeito. Nas divisões desta casa, um cenário arranjado a preceito da convulsão emocional pretendida, esconde-se um segredo bem guardado, uma caixa de Pandora que queremos abrir de enfiada, mas que nos é prontamente roubada e atirada para o seio das ruas bafientas de Wind Gap, o ecossistema propício à exploração da neurose sulista tão badalada nos dias que correm. E, por entre o suor propulsionado pelo sol tórrido, à descoberta desses medonhos mistérios Sharp Objects se lança, ávida por nos enfeitiçar com um ímpar jogo de imagens, um passeio pelos impulsos mais obscuros do ser humano.

Sharp Objects

Realizada e editada por Jean-Marc Vallée, a minissérie da HBO destaca-se precisamente nos aspetos técnicos. É até seguro referir que, não fosse a mestria de Vallée e dos cinematógrafos Ronald Plante e Yves Bélanger, e estaríamos perante mais uma tentativa corriqueira de reproduzir o tão apetecível southern gothic. Ao invés de atacarem a história com tons sombrios, à imagem dos temas abordados, os criativos optaram por executar um contraste entre esse imaginário sinistro e a luz à disposição de cada cena. Atinge-se então a proeza assinalável da maioria das cenas serem forradas a luz natural, resplandecentes, esbeltas, quase poéticas, sem que se perca a cantiga fúnebre que vai preenchendo toda a narrativa. Desde as janelas que racham as divisões a meio e abrem caminho para os raios de sol, passando pelos vários candeeiros de mesa e candelabros que dão vida à casa da família de Camille, mesmo nas cenas noturnas, até às luzes néon que apetrecham o bar local onde a jornalista encharca as mágoas e convive forçosamente com os colegas de escola de outrora, toda a iluminação é alcançada de maneira prática, nunca artificial. A maioria das cenas foram filmadas com uma câmara de mão, técnica fiel à instabilidade emocional da personagem principal, sem que, no entanto, se nutra algum tipo de confusão – tudo é preciso, montado ao pormenor, Vallée mostra o que quer, quando quer, como quer. Para isso, primou por um trabalho de edição assombroso. Consoante Camille se aventura pelos cantos da pequena cidade à procura de pistas que a possam levar na direção do potencial assassino, vamos sendo assaltados por justaposições entre o presente e o passado, à medida que uma grande parte das cenas vai sendo complementada com flashbacks rápidos e marcantes, absurdamente hipnotizantes. Um dos melhores exemplos desta dinâmica é a cena em que, numa das suas expedições, a jornalista entra floresta adentro com o seu parceiro de investigações, um detetive interpretado por Chris Messina, e, à medida que se vai emaranhando nos esconderijos do recanto verde, vão sendo exibidas reminiscências dum evento traumático que influenciou a sua vida durante a adolescência, ocorrido naquele preciso local. Apesar deste mecanismo narrativo ser bastante comum, é demais evidente que a equipa por trás de Sharp Objects o lapidou à medida duma exploração profunda da psicopatologia inerente a esta tão atrativa personagem, mas também da região por onde esta deambula. A América rural – sim, “a América que votou Trump” outra vez – é despida e examinada não através da expectável caricatura tradicional – os rednecks que mastigam tabaco, os comentários racistas, o sotaque acentuado, entre outros -, mas sim dum escólio sarcástico, muitas vezes materializado através de imagens, que aponta para uma população pouco progressista, presa aos hábitos do passado, a uma bebedeira constante donde praticamente só se pode extrair um único sentimento: negativismo. Nessa missão de bater no assunto de forma tímida, mas sagaz, uma espécie de comentário social à paisana, os cenários foram preenchidos de dicas para o estado de espírito das personagens e do corpo social que as envolve, muitas destas traduzidas por palavras escritas em todo o lado – “DIRTY” na traseira dum carro, “HARMFUL” na porta dum jipe, ou “BAD” cravado na mesa duma secretária. Como resultado da abundância visual e contextual, aos poucos, com todos os seus pormenores e subtilezas, a minissérie vai-se transformando numa experiência inebriante, num refúgio malévolo de onde, mesmo que não consigamos discernir a origem de todo esse mofo emocional, não queremos sair, a rara experiência audiovisual que nos permite esquecer o mundo em redor, uma obra de arte compassada e meticulosa.

Sharp Objects

O elenco, sem exceção, faz um trabalho exemplar. À cabeça, Amy Adams e Patricia Clarkson. A primeira encarna de corpo e alma a personalidade danificada de Camille, uma mulher que adota a dor e a ebriedade como boias de salvação, como porto onde atracar quando tudo o resto parece não funcionar. Por sua vez, a segunda interpreta uma mulher esquiva, um íman da atenção de tudo e todos, que, involuntariamente ou não, despedaça a auto-estima dos que a rodeiam com comentários depreciativos ou cruéis, proferidos num tom quase bizarro tal é a sua frieza. Entre estas duas mulheres, mãe e filha, o que mais existe é melindre, sendo a obra transportada para o campo das relações abusivas. Ironicamente e intencionalmente, Noxon introduziu na narrativa uma festividade que celebra a fundação de Wind Gap, o Calhoun Day. Tal como reza a lenda, nesse dia histórico, a esposa adolescente dum soldado da Confederação teve um aborto depois de ser violada e agredida por um grupo de soldados da União. No entanto, nunca entregou Zeke Calhoun, o marido procurado pelos abusadores, ganhando assim o estatuto de heroína e símbolo da pequena vila de Wind Gap. Segundo a jornalista, que abomina os costumes do local onde nasceu, “esta não disse uma palavra”. É costume, então, a cidade festejar esse dia, assistindo a uma peça de teatro em que os miúdos da escola encenam o sucedido, enquanto os adultos assistem no relvado da quinta da família de Camille, num festejo regado a álcool e movido a iguarias da região. O abuso inerente à personagem principal é globalizado, transposto para o momento político e social atual. Por entre o delírio e deslumbre visual, no centro nervoso de Sharp Objects jaz uma enorme crítica à América rural, aos milhões de pessoas que, presas aos costumes do passado, continuam a festejar, cada vez mais alto depois da eleição de Trump, séculos de violência física e psicológica, especialmente contra etnias diferentes ou contra as mulheres, no desenho racista e machista que muitos preferem ignorar, agarrados à ladainha do sonho americano e aos discursos demagogos de quem lhes oferece isenção moral. Em parceria com uma também relevante alusão às fake news, com os habitantes de Wind Gap a escolherem os seus candidatos a serial killer com o auxílio de artigos virais e memes, esta caricatura da América escondida faz desta adaptação do livro de Gillian Flynn um drama extremamente incisivo e, fora as tendências para o expressionismo alemão, realista. E, sim, no meio da hipérbole artística, da crítica social, da interpretação marcante de Adams e do melodrama pessoal e familiar convincente, anda um assassino à solta que arranca os dentes das suas vítimas adolescentes com um alicate.

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