Se7en

‘Se7en’, a derrota de todos

Este artigo contém spoilers.

Quem nunca pensou cometer um ato de violência? Num mundo tão tumultuoso e, por vezes, injusto, quem nunca cerrou punhos e dentes e, nem que por momentos, pensou cometer uma atrocidade? Não uma premeditada, à semelhança dum assassino em série, qual Hannibal Lecter, mas uma extraída do instinto, da vontade de ripostar contra algo ou alguém que nos possa estar a magoar profundamente? Quem nunca pensou cometer um ato de violência?

Se7en

Toda esta retórica sob a forma de questão existencial ou filosófica começa por ser fermentada lentamente pelo argumento astuto de Andrew Kevin Walker, que tem como principal referência o livro ‘La Divina Commedia’ de Dante Alighieri. A obra literária baseia-se na viagem épica de Dante pelo Paraíso, Purgatório e Inferno, onde lhe vão sendo revelados os locais onde os diferentes pecados são expurgados, sempre com uma ligação às crenças populares cristãs. Acredite-se ou não, terão sido escritos mais de 100 argumentos diferentes sobre um assassino que adota os sete pecados mortais como modus operandi, guardados na gaveta após a estreia de Se7en em 1995, realizado por David Fincher. O conceito, por mais elaborado que possa ter parecido na altura, sempre foi alvo de magicação e culto pelos homens de caneta afiada. O que distingue este argumento em específico dessas abordagens que não chegaram a bom porto é a capacidade de explorar o papel do “pecado” no psicológico dos seus dois protagonistas: o detetive Somerset, um polícia prestes a reformar-se, interpretado por Morgan Freeman, e o detetive Mills, o novato que vai ocupar o seu lugar, interpretado por Brad Pitt. Desde a primeira cena que as discrepâncias entre as duas personagens são frisadas. Somerset é um pessimista que acredita que o mundo é um sítio horrível sem compasso moral onde qualquer um, levado ao extremo, pode cometer um crime. Por seu lado, Mills é um otimista que vê bondade numa sociedade onde existe uma separação nítida entre pessoas como ele, que procuram exercer justiça e viver de acordo com a lei, e pessoas como as que persegue. Os dois vêem-se a braços com a investigação duma série de homicídios bizarros que recriam os sete pecados mortais popularizados pela Igreja Católica – gula, avareza, luxúria, ira, inveja, preguiça e vaidade  – levados a cabo por um assassino que parece querer fazer desse ritual uma espécie de sermão sórdido contra os vícios do mundo moderno e os pecadores que o habitam. Para isso, o sujeito, que a meio do filme passamos a conhecer como “John Doe”, perpetra os seus crimes como se de vinhetas alegóricas a cada pecado mortal se tratassem. Por exemplo, como representação do pecado da gula, obrigou um homem obeso a comer até à morte. A noção de “pecado” utilizada no argumento de Se7en está difundida pelo mundo ocidental de tal forma que a maioria das pessoas, mesmo as que não são religiosas, sabem, à partida, enumerar estes sete pecados. O argumentista aproveitou-se desse fator para criar uma situação ambígua em que, ao concentrar-se maioritariamente nas experiências pessoais dos detetives, expõe, subtilmente, o ponto de vista do assassino através destas. Sem que se aperceba, pelo menos durante grande parte do filme, o espetador recebe um refúgio moral através das personagens que, teoricamente, estão do lado do Bem, Somerset e Mills, quando, na verdade, está a receber ao mesmo tempo a retórica do serial killer que, teoricamente, está do lado do Mal. Esta exposição é executada, predominantemente, através da criação de paralelismos entre o detetive Somerset e Jonh Doe. Ao longo do filme, é notória a atenção da personagem de Freeman aos detalhes. Desde o pedaço de algodão que tira do seu casaco numa das primeiras cenas do filme, o metrónomo que usa para adormecer, até ao rigor procedimental que lhe permite descobrir pistas cruciais para avançar na investigação, Somerset respira metodismo, paciência e disciplina. Numa justaposição discreta, estes são os mesmos atributos que o próprio detetive, em mais do que uma ocasião, associa ao antagonista. “Este sujeito é metódico, exato e, pior que tudo, paciente”, refere, após terem descoberto o corpo referente ao pecado da preguiça, em que Doe manteve um traficante de droga atado a uma cama durante um ano. Para mais, Somerset apresenta o mesmo pessimismo que, mais tarde, será mostrado por Doe relativo a uma sociedade degradada e sem retorno, repleta de pecadores. Desta forma, o detetive e o vilão apresentam características psicológicas semelhantes, divergindo, no entanto, na forma como materializam as suas ideias. Poder-se-á dizer, então, que Doe é a expressão maligna e violenta dos pensamentos de Somerset e que, contrariamente, o detetive é caixa de ressonância pacífica dos pensamentos do homicida em relação ao mundo que partilham. Já Mills, um homem deveras intempestivo que faz questão de enfatizar o seu desdém pelo criminoso, funciona como recipiente das ideias comuns do seu parceiro e do serial killer. Ambos pregam ao detetive novato os mesmos juízos sobre o mundo, um no decorrer das investigações, o outro através dos seus crimes. Crimes esses que, no fim, têm como objetivo mostrar a Mills que é possível este descer ao nível da depravação que tanto condena. Como Somerset diz a certa altura: “Isto não vai ter um final feliz”.

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Neste pesadelo negro, como se o próprio Dante replicasse os seus passos, agora num cenário em forma de metrópole moderna, entra em jogo a realização de Fincher inspirada no filme noir e perfumada com o seu toque moderno de videoclip que faz do filme um clássico do género criminal e, porventura, expressão máxima da ascensão do estilo neo-noir numa década de 90 marcada pelo surgimento de vários thrillers de tom lúgubre e cético, como é o caso de The Silence of the Lambs (1991) de Jonathan Demme. A insinuação de que a obra apresenta o ponto de vista do serial killer incorporado nas ações dos detetives é sustentada pelo uso constante da SteadyCam, câmara que permite fluidez e máxima estabilidade, em todas as cenas, exceto nas que John Doe perde o controlo da situação. Nestas, há transição para uma handheld, câmara de mão instável e mais árdua de controlar. Como resultado, passa-se de planos estáveis para um ação caótica e tremida, como um pesadelo translúcido difícil de recordar, mas impossível de apagar da memória. Exemplo disso é a cena em que a dupla de detetives, após ter descoberto a morada do assassino, esbarra com este no corredor do edifício, obrigando-o a fugir. E é precisamente quando Doe perde o controlo e se passa para a câmara de mão que Se7en realmente brilha. Esta, em particular, é uma das perseguições a pé mais bem conseguidas na história do cinema onde abunda um sentimento de incerteza e ameaça singular. O homem por trás desta operação de câmara audaz, Darius Khondji, teve como objetivo primordial destacar esta realidade sombria com uma paleta de cores tendencialmente escura. Para exacerbar essa evocação do noir foram utilizadas técnicas de acentuação de contraste, como a silver retention, onde as cores soturnas escurecem, realçando as cores claras no processo, como, por exemplo, o branco vindo das lanternas que desbravam por cenários inspirados em cenas do crime verdadeiras. Quanto ao som, este exerce a função medular de dar vida à personagem que é a cidade. Tão antigo quanto o próprio cinema é a apresentação desta como elemento vivo e amoral da história, tal como acontece em Metropolis (1927) de Fritz Lang ou, mais tarde, em Blade Runner (1982) de Ridley Scott. Em Se7en, esta ganha notoriedade pela chuva constante e pela sua mão ciclópica que envolve tudo e todos numa sensação de claustrofobia e desespero. Todos os ruídos que desta vêm são intrusivos, desconfortáveis, vindos ora do tráfego, ora das gargantas irritadas de transeuntes enraivecidos, preservada a presença ininterrupta dum espírito decadente e insidioso. Através do uso de melodias de orquestra misturadas com barulhos urbanos aleatórios, posteriormente retardados e distorcidos, a banda sonora é utilizada para perturbar o espetador, para criar desorientação sensorial. A cidade ganha, portanto, um estatuto abstrato de personagem, uma que simboliza os lamentos dos protagonistas, assim como a temática primordial da obra: o pecado. Porém, é o pairar demorado sobre os registos pós-crime que faz do filme um ensaio completamente distorcido e traumático. Em momento algum, salvo a penúltima cena do filme, o ato criminoso é demonstrado, apenas sugerido e discutido a posteriori. Nenhum dos crimes de John Doe acontece em tempo real. A violência explícita, tão comum nos filmes do género, é inexistente, é antes psicológica, embutida na retina do espetador que é  quase obrigado a imaginar os crimes através do foco em elementos forenses como fotos repletas de horrores e frases estrategicamente proferidas de maneira a estimular a psique dos mais sensíveis. Inesquecível a cena em que uma das vítimas colaterais dos atos do criminoso, interpretada por Leland Orsen, dá um depoimento em estado de choque, depois de ter sido obrigado por Doe a perfurar o ventre duma prostituta com um engenho pontiagudo. Até hoje, nenhum thriller ou filme de terror elevou a arte da sugestão a um expoente tão alto quanto este desenho desasseado de David Fincher. Até hoje, ainda é comum caçar juras a pés juntos de que foi vista a cabeça da esposa do detetive Mills, interpreta por Gwyneth Paltrow, dentro da famosa caixa. A verdade é que a cabeça nunca apareceu, senão sugerida pela reação tempestuosa do detetive Somerset e pela confissão de Doe que levariam Mills a sucumbir ao pecado da raiva e a alvejar este último até bala nenhuma sobrar no tambor da pistola. Esta morte é a única que se vê a olha nu, num plano aberto com direito a sangue e à tal câmara handheld premonitória da falta de controlo psicológico, desta vez focada na personagem de Pitt e na sua contradição. A inversão da balança moral, a derrota de todos. Fincher, que encheu todo o filme de aguaceiros incessantes, fez questão de filmar esta sequência debaixo dum sol abrasador numa paisagem desértica dos arredores. O objetivo é claro: que toda a gente veja o anjo tornar-se demónio, o arauto da justiça transformar-se no pecador selvático e sem remédio.

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Contudo, este golpe de teatro só foi possível devido à criação dum antagonista magistral, elegantemente interpretado por Kevin Spacey, que, na ocasião da estreia, foi removido do elenco de maneira a causar o maior impacto possível aquando do seu aparecimento em cena. “Detetive!”, grita este, conforme entra voluntariamente, de camisa ensanguentada, pela esquadra dentro para surpresa dos seus inimigos e futuros carcereiros, numa subversão estrondosa das expetativas de qualquer um. Teria sido fácil fazer desta personagem um poço de esgares excêntricos e desnorteados, o típico criminoso psicótico. Porém, tal como Somerset idealizou, este é um sujeito em total controlo dos seus atos. Mais tarde, já o trio Freeman-Pitt-Spacey vai a caminho da fatídica cena final, temos oportunidade de ouvir da boca deste o seu escárnio pela civilização moderna, motivo pelo qual partiu numa cruzada simbólica contra esta. Ao ouvirmos as suas palavras, é impossível não pensar na desonestidade que abunda no planeta – corrupção, homicídios, agressões físicas e sexuais, racismo – todas elas causadas pelo Homem. A um nível intuitivo, apesar da asquerosidade dos seus atos, é inevitável simpatizar com as motivações de Doe, partilhadas igualmente por Somerset. O mundo está mesmo todo lixado. Esta linha de pensamento que, por mais que a combatamos, faz questão de se enraizar, baralha as noções de herói e vilão e faz ressoar uma interrogação agudamente pertinente: o que é a justiça? Um conceito imutável e imperturbável redigido em resmas de papel legislativo que devemos seguir estoicamente? Um conjunto de valores que definimos para nós próprios que poderão ser alterados, caso nos atormente algo suficientemente revoltante? Quem teria o mesmo comportamento irracional e vingativo que o do detetive Mills? Quem não o teria? Com as perguntas que levanta, John Doe é uma das personagens fictícias mais desconcertantes de sempre.

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Se bem que uma minoria das obras cinematográficas não funcione assim, como é o caso de Se7en, um dos prazeres generalizados de ver um filme do género thriller ou criminal é o momento em que o herói, geralmente um detetive, profissional ou não, derrota o vilão, neste caso o perpetrador de um ou vários crimes. Não só essa sensação nos faz sentir fortalecidos, como se uma espécie de balanço orgânico tivesse sido restabelecido, como satisfaz a nossa necessidade como espetadores de ver a justiça poética ou até um qualquer tipo de vingança sangrenta ser exercida. Como seres humanos feitos de impulsos, é apenas natural que sintamos repulsa moral quando vemos atos bárbaros serem cometidos no ecrã, mas que também sintamos um desejo introvertido de vermos os responsáveis por esses atos castigados com idêntica severidade. Pelo menos, no que à ficção toca. No entanto, vários estudos indicam que a maioria dos espetadores que se regozijam com filmes onde abundam elementos de índole violenta ou horrorosa vêem nesses atos, geralmente nos do criminoso, uma projeção dos desejos mais obscuros do seu subconsciente, ou seja, uma representação fictícia dos males que não podem fazer na vida real. Uma projeção dos fetiches mais negros de cada um. O papel do filme realizado por Fincher nessa reflexão prende-se à forma como, quer em 1995 quer em 2017, expõe a hipocrisia generalizada da sociedade quando estes assuntos são abordados num contexto real. O “eu nunca faria uma coisas dessas” que muitas vezes se ouve é posto em causa duma forma orquestrada e horrenda, da chuva para o sol, da gula para a raiva, do homem que queria combater o Mal, e tanto cuspiu nos que o promovem, para o homem que acaba por exercer esse mesmo Mal. O último ato do detetive Mills, matar um homem indefeso a sangue frio, representa o monstro interno do espetador comum, um que, na maioria dos casos, e logicamente, se esconde debaixo duma cama aquecida por cobertores éticos e morais. Mas, segundo este ensaio pessimista, o monstro lá reside, quieto e aconchegado, à espera duma oportunidade para se exprimir. Afinal, sujeitos a determinadas circunstâncias, não seremos todos capazes de cometer um ato de menor dignidade?

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