‘Patrick Melrose’, uma angústia atroz

A infância é uma fase crucial das nossas vidas, pois a sede de aprendizagem que a caracteriza providencia uma absorção incansável de tudo o que é percecionado. Tais experiências, boas ou más, irão posteriormente, e sem darmos conta, determinar o desenvolvimento de um ser ainda em formação. Através dos exemplos captados por esses olhos ávidos de experiências, constrói-se uma personalidade como se de uma torre de cubos se tratasse. O problema surge quando um desses cubos apresenta um vértice desencontrado ou uma face mais romba e todos os outros deixam de ter o apoio necessário para que a construção se mantenha erguida ao alto, acabando por desmoronar. Da mesma forma, os episódios nefastos vivenciados por crianças têm o potencial de conturbar o seu crescimento, criando adultos perturbados e incapazes de encarar o quotidiano com a normalidade necessária. Surgem assim os marginalizados que, ruminando os duelos das suas árduas vivências, encomendam as palas dos equinos e deixam de se aperceber o quanto os seus atos, por sua vez, influenciam negativamente quem os ampara e pretende auxiliar. Cumprem-se desta forma os desígnios fatais enunciados por algum espírito do mal que garantem giros infinitos numa espiral de violência, com sucessivas passagens por uma nociva casa de partida que garantem um afunilamento progressivo da alma humana, até se atingir a sua mediocridade. Erroneamente, considera-se que estes desígnios pertencem apenas à pequena grande quota de indivíduos que constituem a base económica da sociedade, mas as surpresas surgem quando a alta roda se deixa encantar pelos pecados originais e se enreda também ela numa trama de vícios e manias.

Patrick Melrose

Ao longo de cinco episódios, conhecemos Patrick Melrose (Benedict Cumberbatch), um pobre rapazito feito homem que, sem eira nem beira, cresceu num ambiente tóxico entre um abusivo pai alcoólatra (Hugo Weaving) e uma apática mãe negligente (Jennifer Jason Leigh). Numa cronologia livre, repleta de recordações marcantes, são apresentados momentos cruciais na vida desta mente deturpada, ao longo de cinco décadas e três países. E, numa família onde amor, ódio, vida e morte convivem de mãos dadas, não é de admirar que a primeira cena ilustre um telefonema para Patrick a informá-lo da morte do seu pai, um momento que habitualmente seria tido como triste e introspetivo. No entanto, o toque do telefone encontra-o numa situação comprometedora – de roupa amarfanhada, estendido no chão, com garrafas à volta e uma agulha com a última dose de heroína ainda cravada no braço. Com esta apresentação, o espectador consegue intuir que caminhos calcorreará esta historieta malfadada. E o desconforto só aumenta quando seguimos Patrick na tentativa inglória de enfrentar a dura notícia, superando a ressaca, e a fazer das tripas coração para prestar uma última homenagem a um progenitor que mais não fez do que propagar o seu material genético. Após estes momentos acutilantes, qual montanha russa de drama e humor negro, testemunhamos outras peripécias que marcaram o seu filme vital, desde a infância sofrida em silêncio, até à remissão dos pecados com o velório das horas finais da sua mãe demente, passando pela hercúlea batalha travada frente às drogas e ao álcool, num esforço para não provar o doce fel escondido na expressão “filho és, pai serás” e presentear a sua descendência com um crescimento melhor do que o que lhe foi ofertado.

Baseada nas obras homónimas do jornalista britânico Edward St. Aubyn, Patrick Melrose ilustra a decadência da fina flor popular também já retratada por F. Scott Fritzgerald em ‘The Great Gatsby’, e até mesmo por Eça de Queirós em ‘Os Maias’. Auxiliado pelo facto de ser baseado em relatos autobiográficos do próprio autor, conferindo-lhe uma verdade nua e crua, o realismo que cada cena transmite é fruto do douto trabalho adaptativo de David Nicholls, escritor habitualmente mais associado a romances cor-de-rosa como ‘One Day’, também adaptado para o grande ecrã. No entanto, seria um ultraje menosprezar as brilhantes atuações do elenco de renome. Hugo Weaving transmite uma personalidade funesta, ainda antes de pronunciar uma fala, exemplificada na monstruosa calma com que aconchega os lençóis da cama para que o seu filho se lhe junte; e Jennifer Jason Leigh representa com primor as mulheres submissas que se subjugam servilmente ao poder do homem da relação, sem questionar nenhuma atitude. Destaque merecido também para o pequeno Patrick, interpretado por Sebastian Maltz, que, do alto do seu palmo e meio, se agiganta para fazer sofrer qualquer capaz de empatizar, seja no momento em que os cacos de um copo partido se cravam na pele em sangue ou noutro em que, numa tentativa de fuga deste mundo, qual Alice, salta sobre um poço entaipado. Mas, claro que a grande representação, não fosse este o protagonista, cabe a Benedict Cumberbatch que, não contente com tão desafiante repto, assume também o papel de produtor. Apesar de ninguém duvidar das suas capacidades performativas, a sua imagem está muito ligada à série Sherlock e, desta feita, a cómica ironia é substituída pela veracidade sem rodeios interpolada por momentos de loucura sob efeito de tóxicos que o levam, por exemplo, a momentos caricatos como entrar numa restaurante, elaborar pedidos até mais não e destabilizar todo o ambiente familiar das mesas em redor. Uma angústia atroz nasce sub-repticiamente em quem o acompanha, a ponto de se agradecer o facto de cada episódio apresentar um pequeno resumo dos prévios porque a digestão de cada um é difícil e as maratonas, tão em voga, não são aconselhadas neste caso. Se a interpretação corrói o âmago de quem a vê, os planos geométricos de muitas das cenas, com linhas retas perfeitas, a fazer lembrar um Wes Anderson, hipnotizam e dão o alento necessário para continuar. A estética foi pormenorizadamente trabalhada não apenas em termos da simetria, mas também no jogo de luz e sombra, nas cenas de exterior e interior, jogando com os conceitos de liberdade e clausura, e na paleta de cores vibrantes utilizada nas introduções e nos créditos finais, saídas, quem sabe, de um surto psicadélico. A mesma arte que, apesar da amargura infligida, impele o espectador a continuar a descobrir quão fundo alguém pode escavar a sua própria sepultura em vida, desperdiçando, uma a uma, as várias oportunidades oferecidas.

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