‘Mommy’, um rio de sentimentos

Duas margens paralelas e negras espremem um rio contra a sua existência central e concentrada, contra o seu leito de raiva, paixão e deslumbre, repleto de impactos e contrastes. Por mais que uma vez, tal é o grito de liberdade, o rio ameaça transbordar, inundar as margens negras de cor e vivacidade. Um rio de sentimentos por onde fluem as amarguras imaginadas pelo jovem realizador Xavier Dolan, num Canadá onde foi aprovada uma lei fictícia na qual os pais podem internar os filhos com problemas comportamentais, que causem risco financeiro ou risco para a vida de outrem, ficando estes à guarda do Estado sem encargos adicionais. É esse o panorama de Steve, interpretado por Antoine-Olivier Pilon, um rapaz de 15 anos que sofre de Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção, assim como de outros distúrbios que o tornam propenso à agressão física. Violento, instável, estranho, perigoso, Steve é uma presença problemática, quer para a sua mãe Diane, interpretada por Anne Dorval, quer para o espetador, que de início poderá achar esta incomum personagem algo irritante. Porém, aqui entram as margens negras impostas por Dolan, num aspect ratio de 1:1 que obriga a que toda a atenção se desloque para o centro da imagem, para o rio. E, incomodados com a volátil exuberância de Steve, e com o possível desconforto inicial causado pelo enquadramento inortodoxo que perfaz um quadrado central rodeado por duas colunas pretas onde nada se passa exceto o breu, apanhamos um barco na nascente deste flume que nos leva encosta abaixo em direção a uma foz desconhecida.

Mommy

Óbvio que a opção por parte do realizador de usar a proporção 1:1 não é inocente, muito menos pretensiosa. Esta escolha estética serve para enclausurar o espetador nos excessos e insólitos que lhe são mostrados, numa jaula magnética onde, por duas horas, se vive o melodrama duma mãe que maneja uma faca de dois gumes, dividida entre o medo e o amor. Acabado de sair dum centro de detenção juvenil para os cuidados da mulher de meia-idade, o jovem não demora a mostrar o seu descontrolo, criando uma aura venenosa, um bambo presságio de que a qualquer momento pode estoirar na direção de algo ou alguém, inclusivamente da sua progenitora que diz amar e querer proteger. Tão movediça quanto o filho, só que ciente da esfera social em que está inserida, Diane é igualmente uma personagem dissonante, tão desinteressante que se torna missão ávida estudá-la, ora não fosse possível ao cinema abordar personagens banais. É, portanto, apresentado um duo maravilha que tenta, a quase todo o custo, aparentar normalidade, ao qual se junta uma vizinha com problemas na fala, interpretada por Suzanne Clément. Três bailarinos que se atiram para uma coreografia disfuncional à procura dum qualquer momento de felicidade que espera ao fundo da rua, destinados a romper a prisão quadrangular de Dolan, da vida que só lhes traz problemas, mesmo que a derrota espreite ao virar da esquina. Mas, para bailar, tem de haver música, e da banda sonora também vive este Mommy (2014), incorporada dentro de secções dignas de um videoclipe, numa fusão penetrante entre o amor à sétima arte e uma clara reverência à cultura pop, sentindo-se a presença inconfundível dos Oasis, com a tão sua e de todos nós ‘Wonderwall’, ou dos Counting Crows. No entanto, a sonoridade não serve apenas de hipérbole, transmite às personagens as armas com que se libertarem do pequeno quadrado, empurrado e expandido ocasionalmente para o tamanho tradicional, transformando-se num rectângulo inundado pelo júbilo momentâneo. “Liberdade” grita Steve, obliterando as margens negras que escurecem a sua alma, só para que se siga um «tabarnak», como quem diz, numa tradução grosseira e hiperextensa do “quebequês”, «foda-se que a vida é boa e é para aproveitar». De modo que Mommy é um festim de exaltações, mesmo nos seus momentos mais nefastos em que um filho se diz disposto a exterminar a própria mãe, numa alusão a Como matei a minha mãe (2009), filme realizado e protagonizado por Dolan em que este explora de forma semi-autobiográfica a relação de amor-ódio que mantém com a sua mãe na vida real. Curiosamente, ou não, nesse ensaio cinematográfico precoce, ora não tivesse o cineasta apenas 19 anos quando o dirigiu, usufrui-se dum desenho semelhante: um filho perto de ser internado, as mesmas atrizes a fazerem de mãe e amiga chegada, Dorval e Clément respetivamente, e um estudo sagaz sobre uma presença maternal específica. Só que, no caso de Mommy, essa presença é universal, fomentando-se uma ode ao amor de mãe, a essa entidade abstrata que, por regra, vai contra tudo e todos em nome da cria.

Mommy

Tem-se também uma obra extremamente virtuosa a nível cénico, apoiada pela fotografia de André Turpin repleta de jogos intrincados de cor e sombra, auxiliados por uma edição de timing perfeito que chapa essas colisões fotogénicas no rosto das personagens, transformando-as em desenhos realistas e profundos. É abuso estético que é oferecido, um exagero que eletriza o olhar, um bêbedo que nos empurra e a seguir abraça, um rei dicotómico sedento por vassalagem – é impossível não ficar colado à agressividade artística de Dolan, à sua audácia audiovisual. Sobra o trabalho emocional dum trio de atores que consegue dar um toque de naturalidade a um filme que, sem essas presenças humanas convincentes, poderia parecer demasiado artificial. Ao invés, tem-se o retrato credível duma vida imaginária, uma assombração, na essência da palavra, cujas cenas podem deixar uma pequena cicatriz eterna na pele de cinéfilo. No fim, ouvir-se-á ‘Born to Die’ de Lana Del Rey, como se todos os astros se tivessem alinhado para nos dar rendição psicológica, como se um final perfeito tivesse sido construído a priori para um dos filmes mais irreverentes dos últimos anos. Desaguamos numa foz turbulenta, cuspidos por uma cascata de emoções.

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