Mission Impossible Fallout

‘Mission: Impossible – Fallout’, é mesmo ele

Depois duma discussão acesa, dois agentes secretos, interpretados por Tom Cruise e Henry Cavill, atiram-se dum avião sobre o céu noturno de Paris. Sem que a cena fosse cortada entre o diálogo e o respetivo salto para a escuridão da noite, um corajoso cameraman teve de acompanhar os dois indivíduos nessa aventura, formalizando aquele que é, caso não tenha havido interferência de efeitos especiais no momento do salto, um dos planos-sequência mais ousados da História do Cinema – não que os praticantes de desportos radicais não exibam frequentemente os seus dotes em vídeos semelhantes. Porém, a dúvida permanece. Será que foram mesmo os atores, revestidos por fatos negros e capacetes luminosos, que se atiraram dum avião em andamento para uma arriscada sessão de skydiving? Quanto a Cavill, é impossível distinguir, porém, consoante o homem da câmara se aproxima dum dos indivíduos é viável perceber que é Cruise quem se encontra ali, a quilómetros do chão, a arriscar a própria vida. E, durante todo o filme, e o mesmo se passou principalmente nos dois últimos capítulos da saga Mission Impossible, é essa a sensação que se apodera de nós – “É mesmo ele! É mesmo o Tom Cruise que está a fazer aquilo”. Mas, apesar de já não ser surpresa, desta vez, essa autenticidade oferece a  Mission: Impossible – Fallout algo mais. Desta vez, o rosto de Cruise contorce-se, acusa desconforto, talvez dor. Desta vez, e talvez pela primeira vez na sua carreira, o ator admite que o tempo o possa estar a ultrapassar. Aceitou as rugas no canto do olho, a sombra dum parceiro mais esbelto, mais jovem, mais possante – de Cavill se fala -, a descrição discreta da sua personagem como alguém que pode já não estar nos seus melhores dias, o espião cheio de dúvidas e arrependimentos. Desta vez, Ethan Hunt é um homem de carne e osso, que sente, que sangra, que falha, finalmente uma personagem complexa.

Mission Impossible Fallout

No adensar caricatural do espião preso a um dilema moral, é utilizada uma variante do “Problema do Trolley”. Introduzido no meio filosófico por Philippa Foot em 1967, e posteriormente analisado por outros pensadores de renome, o “Problema do Trolley” original apresenta uma situação em que um elétrico caminha descontrolado em direção a cinco pessoas que estão atadas e incapacitadas no meio da linha. Se o observador puxar uma alavanca, o elétrico poderá ser desviado para uma outra linha onde se encontra uma só pessoa nas mesmas condições das anteriores, salvando, assim, as cinco pessoas. O que deve o observador fazer? Ficar quieto e deixar o elétrico atropelar as cinco pessoas ou puxar a alavanca e condenar uma só pessoa à morte? Devido à conjuntura narrativa que lhe é imposta, Ethan Hunt é, desde o princípio, afrontado com uma variação desse dilema. Para mais, o seu impasse engrossa quando as pessoas envolvidas são os seus amigos. No entanto, apesar de, em várias cenas, apontar para um debate filosófico ou moral, Fallout está longe de ser um filme cerebral – muito pelo contrário. Estas indagações teóricas servem apenas de rampa de lançamento para uma coleção de cenas de ação absolutamente frenéticas, realizadas pelo repetente Christopher McQuarrie, que tem uma atenção ao detalhe impressionante, e filmadas por Rob Hardy. De destacar, desde logo, a vantajosa inspiração em alguns dos melhores filmes de ação dos últimos vinte anos. No campo das perseguições, quer de automóvel, quer de motorizada, é sempre exibida uma fascinante noção de espaço e tempo, com vários traços inspirados nos trabalhos de Michael Mann e Christopher Nolan. Em várias sequências, é quase possível fazer um paralelismo com The Dark Knight (2008), como por exemplo uma cena em que Hunt atravessa um espaço fechado de moto ou embate contra uma carrinha da polícia atirando-a para o rio. Ademais, todos estes momentos são pautados quase na perfeição pela banda sonora multi-instrumental de Lorne Balfe, a fazer lembrar a malha que Hans Zimmer compôs para The Dark Night Rises (2012), permitindo ao filme manter um ritmo acelerado, mesmo nos momentos de contemplação ou diálogo. Aqui e acolá, o espectador também se poderá lembrar dos momentos imortalizados por Paul Greengrass na trilogia Bourne, quando a personagem de Cruise pega num Mercedes antigo para ensaiar mais uma das suas fugas alucinantes. No entanto, o grande trunfo do filme é a forma como McQuarrie conseguiu, à semelhança de George Miller em Mad Max: Fury Road (2015), transpôr os dilemas das personagens para o meio da ação, tirando clara vantagem da disponibilidade de Cruise para pôr a própria saúde em risco. Recorde-se que o ator fraturou uma perna durante as filmagens a saltar dum edifício para outro. Em todas as cenas de ação, já que, na maioria das vezes, ao invés dum duplo, é mesmo Cruise que as protagoniza, podemos apalpar as emoções da sua personagem, perscrutar o seu rosto em busca dum estado de espírito. Este pode ter as suas falhas a nível dramático, prejudicado pelas suas expressões hiperbólicas filme após filme, porém, há que lhe tirar o chapéu e afirmar que esta é uma das melhores interpretações de sempre num filme de ação e entretenimento, principalmente devido à forma improvável como consegue injetar as sensações psicológicas da sua personagem num conjunto de cenas onde a maioria dos artistas estaria petrificado face aos riscos envolvidos. Tem-se, então, uma simbiose entre o homem de 56 anos, provavelmente a acusar as maleitas da idade, e a personagem em ligeira decadência que interpreta. Pode até auferir-se que o próprio McQuarrie tem noção deste fator, enchendo o filme de pequenas sugestões para o estado psicológico do espião, como uma cópia do ‘Odisseia’ de Homero que se desfaz em fumo e cinza depois de recebida a mensagem contida no seu interior, após os tradicionais cinco segundos.

Mission Impossible Fallout

Contudo, nem tudo é um mar de rosas. Não obstante o virtuosismo técnico, o filme nunca encontra espaço para a inovação narrativa, estando claramente preso a uma história já vista e revista em várias obras do género. Ethan e os seus dois parceiros do costume, interpretados por Simon Pegg e Ving Rhames, têm de lidar com uma nova ameaça mundial, trazida pelos mesmos suspeitos do filme anterior, apesar de inserida uma nova peça no enredo, um misterioso terrorista apelidado de John Lark. Enquanto isso, acabará por surgir a intervenção de Ilsa, interpretada por Rebecca Ferguson, e dum novo colaborador, interpretado por Cavill. O enredo, apesar de simples, parece algo magro e ocasionalmente confuso. Nem todos os espectadores poderão ter passado pelo mesmo, mas fizeram-se ouvir as queixas de que, em vários momentos, acaba por perder-se noção do que está em causa, estando o filme tão focado em ser espetacular que as razões para a sua existência acabam diluídas num combo espalhafatoso e dubitável de tiros, perseguições e piadas lançadas à pressão pela personagem de Pegg. A aproximação dos vilões ao comentário político e social é ensaiada, mas nunca concretizada, ficando as suas motivações entregues a um banho-maria inconsequente do ponto de vista ideológico, circulando o filme à volta dum grupo restrito de frases feitas que tendem a banalizar em demasia a temática do terrorismo. Como resultado, os vilões tornam-se somente mais um obstáculo para o protagonista.  Para mais, vários diálogos, apesar de maquilhados com um fio condutor supostamente emotivo, têm como função relembrar a audiência dos eventos passados em filmes anteriores, manobra que, amiúde, se pode tornar algo embaraçosa assim que detetada, pois as falas das personagens perdem genuinidade. Em suma, Fallout, excetuando a fabulosa cena de skydiving, exibe-se como uma espécie de jukebox dos greatest hits do género de ação cuja melodia é agradável ao ouvido. Todavia, quando a música pára, é impossível não ficar com uma sensação de repetição.

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