‘Maniac’, à boleia do algoritmo

“A Netflix é uma companhia de dados e eles sabem exatamente como é que os espectadores veem as coisas. Por isso, podem olhar para algo que estás a escrever e dizer «Baseados nos nossos dados, nós sabemos que, se fizeres isto, vais perder esta quantidade de espectadores». Como tal, é uma forma de interagir diferente. Não é «Vamos discutir isto e eu talvez ganhe». O argumento do algoritmo vai sempre ganhar no fim de contas. Por isso, a questão é: queremos tomar uma decisão criativa que nos pode vir a fazer perder espectadores? (…) Houve um episódio que escrevemos que consistia em camadas por cima de camadas, mas descascadas ao contrário, e depois revertidas. Foi bastante divertido de escrever e idealizar, mas, a meio da temporada, estaríamos a perder um monte de pessoas devido àquele momento maluco. E isso não é provavelmente uma boa escolha, entendes? Em suma, foi uma decisão 100% baseada na participação da audiência”. Este é um excerto da entrevista de Cary Fukunaga, um dos criadores de Maniac, à revista GQ. O título da reportagem é “Cary Fukunaga Doesn’t Mind Taking Notes from Netflix’s Algorithm”.

Numa potencial aproximação à autoparódia, uma das personagens de Maniac é precisamente um sistema de inteligência artificial, um super computador chamado GRTA, carinhosamente apelidado de Gertie. Fruto de vários anos de investigação e construção, este consegue explorar a mente do ser humano duma forma completamente inovadora e terapêutica, perceber o que este precisa de ver ou imaginar de maneira a ultrapassar um qualquer trauma psicológico. Para tal, a empresa que o construiu promove uma experiência de laboratório onde as cobaias, seres humanos com distúrbios do foro psicológico, são sujeitas a um conjunto de testes onde, depois de ingerirem uma droga revolucionária, acabam a viajar pelos próprios sonhos, conduzidos por esse curandeiro digital da mente, sob a orientação do doutor Mantleray, interpretado por Justin Theroux, e da doutora Azumi, interpretada por Sonoya Mizuno. Entre os ratos de laboratório estão Owen, interpretado por Jonah Hill, e Annie, encarnada por Emma Stone, dupla de atores que se revelou no divertidíssimo Superbad (2007) onde, ao contrário deste projeto da Netflix, demonstraram uma química assinalável. Porém, neste antro de maníacos, andam à boleia do algoritmo. Na ficção, pilotados por entre as montanhas e ruas simuladas na mente das personagens que interpretam, na vida real, açoitados pela máquina de parir emoções que o realizador Cary Fukunaga, aparentemente, fez questão de seguir. Pois é essa a sensação com que se pode ficar depois de ver a série, a de que este é um projeto idealizado à medida duma exploração superficial, disfarçada de profunda, em que a dita audiência tem direito a ver dois dos atores mais populares dos últimos anos, principalmente a atriz, a interpretar vários tipos de personagens, em cenários diversos, com sotaques e roupas diferentes. No caso de Stone, quase parece que as várias personas adotadas são o resultado dum focus group de utilizadores da Netflix a quem foi perguntado que tipo de personagem gostariam de ver a atriz de La La Land (2016) interpretar num dos sonhos de Annie. Ao longo dos dez episódios em que a narrativa se divide, é notória uma necessidade intrínseca de elucidação e justificação – imagine-se se, ao longo de Inception (2010), uma das óbvias referências de Maniac, Leonardo DiCaprio parasse de vez em quando para explicar ao público o significado metafórico dos vários acontecimentos. E, quando uma narrativa assente nesse tão raro modelo mind-fuck tem a necessidade de explicar parábolas e analogias, geralmente, é porque algo está muito errado. Existe inclusivamente um punhado de cenas a meio da série onde os protagonistas literalmente se sentam numa cadeira a explicar o próprio sonho, evento que é disfarçado com um amontoado de diálogos também eles justificativos. Provavelmente, passados os primeiros três ou quatro episódios, que são muito competentes, o algoritmo da Netflix lá advertiu Fukunaga de que, perante uma narrativa tão invulgar e complexa, a série poderia perder bastantes espectadores. A solução: adotar um intragável tom on-the-nose que transforma aquela que poderia ser uma das melhores séries dos últimos tempos numa aproximação desmazelada a autênticas catedrais do género, como é o caso do filme de Christopher Nolan, ou a série The Leftovers, com a qual Maniac partilha um dos principais guionistas, Patrick Somerville, havendo ainda a obrigação de referir obras como One Flew Over the Cuckoo’s Nest (1975), Brazil (1985), Being John Malkovich (1999) ou Eternal Sunshine of the Spotless Mind (2004).

Maniac

É fácil ficar esperançoso face aos primeiros dois ou três episódios desta nova aposta da plataforma de streaming. Inspirada na série homónima norueguesa, a obra apresenta-nos uma vibrante distopia nova-iorquina onde os planos são preenchidos com pequenos robôs que divagam pelas ruas e limpam o passeio, uma Estátua da Liberdade alternativa, ou uma panóplia de serviços de publicidade bizarros, ao mesmo tempo que se recebe um desenho contemporâneo e retro à imagem da urbe atual, naquela que poderia ser uma realidade alternativa construída por Michel Gondry, sendo que existe ainda espaço para um visual antiquado, como se o design dos avanços tecnológicos tivesse sido rabiscado por Terry Gilliam ou David Cronenberg há trinta anos atrás e entrado numa cápsula do tempo que só agora foi aberta pela equipa sob a alçada de Fukunaga. À semelhança doutras narrativas do mesmo tipo, o objetivo dos criadores da série foi ilustrar um mundo excêntrico e questionável, dando aso a que o espectador duvide do que é ou não verosímil, sobretudo quando a história começa a ser invadida pelos sonhos mirabolantes das personagens principais. Nesse reino da fantasia, continuamos a navegar por mares memoráveis, conforme poderão vir à memória as historietas mordentes dos irmãos Coen, as mudanças de ritmo repentinas da recente série sobre mutantes, Legion, o género noir dos anos 30, o inconfundível The Lord of the Rings, ou até um thriller escandinavo com sequências de ação alucinantes.

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No meio desta mistela de géneros, seria de supor que os atores tivessem mais que espaço para expressar todo o seu talento, no entanto, é possível afirmar que tanto Hill como Stone estão vários furos abaixo do seu nível habitual. Na pele dum jovem infeliz, diagnosticado com uma esquizofrenia que por vezes prefere ignorar, e reprimido por uma família abastada, o primeiro mantém-se num tom quase catatónico que, a princípio, resulta bem como dramatização duma pessoa gravemente deprimida, porém, à medida que o enredo vai avançando, essa nuance repetitiva vai tornando-se ligeiramente monótona. À segunda foi oferecida uma personagem muito mais carismática e ativa, portadora duma backstory cativante e dum recreio emocional onde esta pudesse ensaiar mais uma interpretação expressiva e comovente. Contudo, por mais esforço que se faça para criar um vínculo duradouro com Annie, uma jovem triste e agarrada ao passado, é impossível não reparar que o lavor da atriz é algo incipiente, sendo que nunca nos conseguimos esquecer de que é ela, Emma Stone, que está ali. Nunca se tem uma personagem por inteiro, antes um conjunto de versões sketch à moda de programas como Saturday Night Live. Por outro lado, e talvez por terem o privilégio de se concentrarem numa única caricatura, Theroux e Mizuno fazem um trabalho fenomenal no enchimento da típica figura do “cientista maluco”, a fazer lembrar as personagens barrocas de Wes Anderson. A culpa, claro está, não é de Hill nem de Stone, mas sim duma escrita que, apesar das breves ameaças, nunca consegue desarolhar as premissas que prometeu explorar. A variedade temática evidenciada não é acompanhada por ideias completas, mas antes por quebra gelos intelectuais que, maioritariamente inspirados nas escritas e ideias de gigantes como José Saramago, Franz Kafka ou David Lynch, são solenemente rematados para canto pela tal necessidade intrusiva de explicar ao espectador o que se está a passar. Como se, sempre que a narrativa se estivesse a tornar mais douta e cerebral, alguém tenha entrado pela sala de escrita adentro – provavelmente o senhor com os resultados do algoritmo – e gritado “Alto e pára o baile”. Todavia, a Netflix, Patrick Somerville e Cary Fukunaga, que aparentemente se orgulha de basear a sua criatividade nos resultados duma base de dados, esqueceram-se de que o que o público realmente quer é baile, melodias exóticas ao som das quais nunca dançou, e que se lixe quem não souber dançar. De tão preocupados que estavam em proteger os maus dançarinos desta vida, os tais espectadores que viram costas a tudo o que seja estranho ou complicado, os criadores de Maniac acabaram por barbarizar o material extremamente promissor que tinham em mãos. Enquanto os primeiros episódios apontam para um trabalho cuidado e reflexivo sobre a forma como a robotização e digitalização da sociedade podem estar a criar uma colossal bolha de cidadãos deprimidos, mesmo que, na prática, os veículos de interação social estejam a crescer a uma velocidade vertiginosa, os episódios que se seguem parecem funcionar como uma desculpa para interpelar vários géneros cinematográficos, sem que nesse processo se dê continuidade à crítica social instaurada. Tal como as suas personagens principais, a série carece de estabilidade, perdida entre dar um beliscão na alienação que se apodera do mundo moderno, sugerir que a solução talvez esteja na conexão humana e física, e agradar precisamente às pessoas que estão encarceradas nessa masmorra marvelesca criada por bases de dados e necessidades financeiras, por modas e hashtags. Por norma, quando nos é mostrado exatamente aquilo que queríamos ver e ouvir, quando não existe desafio intelectual ou choque ideológico, acabamos por continuar na mesma, presos à ditadura do algoritmo.

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